"Fiz um explante de silicone, tive complicações e estou reaprendendo a me olhar no espelho"

A head de marketing Marina Gonzaga, de 35 anos, narra a experiência sensível de ter contraído uma infecção após a cirurgia de remoção das próteses

Por
Marina Gonzaga*


Marina Gonzaga, head de marketing Divulgação/Acervo Pessoal

"Para muitos, a cirurgia plástica é um sonho. Não é um procedimento não é barato ou fácil de se fazer. É necessário se internar, realizar exames, estar com a saúde em dia para enfrentar o centro cirúrgico e uma intubação, se preparar financeiramente e contar com o apoio de familiares, marido, filhos e até amigos.

A cirurgia plástica nem sempre está atrelada a futilidade. Há quem precise dela após realizar uma bariátrica, uma reconstrução por conta de um câncer, um acidente ou simplesmente para melhorar a autoestima. Se existe algo que te incomode a ponto de não conseguir se olhar no espelho, socializar ou até ser motivo de represália, o procedimento pode ser um ótimo aliado. É claro que ainda existe o discurso de que deveríamos nos aceitar como realmente somos, mas essas questões podem nos machucar internamente mesmo assim.

Era assim que eu me sentia nos últimos de anos. Sempre fui muito magra e me diziam que eu não tinha corpo de mulher, já que pesava 45kg. As roupas que eu comprava ficavam largas acima do peito e as pessoas costumavam dizer que por quase não ter seios não era feminina. Escutei isso de tios, familiares e amigos, e já até cheguei a desistir de comprar algumas peças.

Com 30 anos, decidi colocar próteses de silicone. Sei que fui influenciada na minha decisão, mas como sempre me preocupei com a parte médica, escolhi o melhor profissional possível e que me deu todo o acompanhamento. Eu digo que podemos mudar muitas das nossas atitudes e hábitos, mas não nossa essência. Nosso corpo é nosso templo, ele deve ser bem cuidado e estar de acordo com o modo que nos sentimos bem. Por isso, com 34 anos tomei a decisão de retirar o silicone.

Durante um ano, estive na jornada de procurar um cirurgião plástico especializado em explante e, por incrível que pareça, não é tão fácil encontrar especialistas nesse tipo de cirurgia. Passei por alguns que diziam que eu deveria colocar uma prótese menor, mas não era esse o meu desejo. Eu queria voltar a ser aquela menina magra e sem peito, que muitos criticavam, mas como eu sempre me vi. Afinal, essa era eu, como eu reconhecia, e estava tentando me reconectar com aquela Marina. Além disso, o silicone estava começando a pesar, eu andava me arrastando, não conseguia me exercitar. Eu só queria resgatar aquela menina de dentro de mim, que a sociedade dizia que o corpo não era o ideal.

Gosto de ressaltar que não sou contra o silicone ou outros procedimentos estéticos, desde que faça sentido para o seu caso, contribuindo para aumentar a sua autoestima e feito com profissionais sérios. E assim fiz com o meu explante. Cheguei em uma indicação de uma ex-colega de trabalho, depois de muitas consultas. No consultório luxuoso, com dois andares, e muito bonito, eu e minha mãe ficamos encantadas pelos cirurgiões, que disseram imediatamente que seria possível realizar o procedimento da forma que eu gostaria, já que eles tinham feito várias cirurgias sem prótese e eram especialistas em mamas. Não hesitamos em fechar, pagamos o valor sem negociar e incluímos tudo sugerido como necessário: das cintas cirúrgicas à fisioterapeuta parceira da clínica.

Depois de um mês e uma semana da cirurgia, além de muito inchaço, comecei a ter sintomas estranhos. Tive reação alérgica e descobri que a fisioterapia indicada pelos médicos estava sendo feita, na verdade, por uma cosmetóloga. Na penúltima sessão, minha cicatriz começou a apresentar uma vermelhidão e a profissional tirou fotos para enviar aos cirurgiões. Dois dias depois, acordei me coçando e vi meus seios em carne viva, empolados. Tentei entrar em contato com eles, mas não tive retorno imediato. Mandei mensagem para um amigo dermatologista, que me ajudou e medicou de prontidão. Resolvi esperar ainda pelo retorno dos cirurgiões, que depois de muita demora, replicaram a receita do meu amigo. Senti medo do que poderia estar por vir, mas segui com fé.

Pouco tempo depois, relatei para a médica que, após mais de um mês de cirurgia, não me sentia bem e não gostava do tipo de cicatriz que me prometeram. Estava decepcionada, chateada e ainda não tinha forças para andar do quarto até a cozinha. Ela me respondeu que era normal, assim como também disse que a profissional indicada como fisioterapeuta era de confiança e trabalhava sob supervisão deles.

Alguns dias após a alergia curada, comecei a me sentir pior. Na madrugada seguinte, tive febre, mal-estar, ânsia de vômito e muita fraqueza. Às 5 horas da manhã, corri para a emergência. Os médicos do pronto-atendimento disseram que se a medicação não fizesse efeito, deveria ser intubada para conseguir realizar um ultrassom das mamas. Eu, que sempre fui muito forte e resistente a dor, não aguentava mais, só pensava na morte. Foi a pior situação da minha vida; nunca vou esquecer do desespero dos médicos e enfermeiros.

Passei a tomar dois antibióticos para tratar a infecção. Dois dias depois, tive que voltar ao hospital novamente para fazer, mais uma vez, uma analgesia forte. Passei mais de dois meses sem andar e ganhei mais de 11 kgs. Uma pessoa não é mais a mesma após uma experiência assim.

Você deve estar se perguntando como estou hoje... Contratei uma advogada humana para prestar consultoria jurídica para o meu caso, estou tratando uma infecção e esperando para fazer uma reconstrução de mama ou correções dentro de um ano. Seria bonito falar sobre aprendizados, mas meu psicológico não é mais o mesmo e meu sonho desmoronou. Sigo com acompanhamento psiquiátrico enquanto isso. Tirei todos os espelhos de casa, não me olho, e perdi muito cabelo com a cirurgia o estresse do pós-operatório. Sigo tentando ser forte, com o apoio da minha família.

Sei que existem casos piores, mas esse é um alerta para você pesquise o máximo sobre o procedimento ao qual será submetida, os riscos da cirurgia e do pós-operatório. Também incentivo que pesquise bem sobre os profissionais escolhidos: aceite indicações, procure por processos judiciais, cheque o currículo e o registo no Conselho Federal de Medicina. Não se deixe levar apenas por redes sociais. A cirurgia de explante é considerada de baixo risco, mas ainda são poucos profissionais especializados no procedimento.

No dia 11 de outubro, comemorei mais um aniversário e, apesar de tudo, estou celebrando também o meu renascimento."

*Em depoimento à jornalista Carolina Merino.

Guia do procedimento estético seguro

Como encontrar um profissional qualificado e evitar riscos na cirurgia plástica?
De acordo com Fabio Nahas, cirurgião plástico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) com mais de 30 anos de experiência, atuação nos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libânes e Professor da Unifesp, a chave para evitar complicações e problemas de saúde durante e após a cirurgia plástica está na escolha criteriosa do profissional responsável pelo procedimento.

“A cirurgia plástica pode trazer transformações incríveis, mas também carrega riscos, como toda cirurgia. A primeira coisa que o paciente deve fazer é pesquisar se o profissional é membro da SBCP, no próprio site da organização. Com facilidade e online, também é possível pesquisar o histórico do cirurgião, seus processos anteriores, experiência profissional e acadêmica, publicação de estudos, e participação em congressos, por exemplo. Tudo isso deve ser avaliado para ter certeza de que aquele profissional tem o conhecimento necessário”, afirma o médico.

Na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, os profissionais são categorizados como membros titulares e membros associados. O membro associado mantém um vínculo com a Sociedade, enquanto o membro titular conquista essa distinção mediante a conclusão bem-sucedida de um trabalho científico aprovado pelos pares, além de comprovar sua proficiência em cirurgia plástica.

Quais informações principais o cirurgião plástico deve passar ao paciente?
"O paciente deve expor todas as suas dúvidas ao profissional, que tem a obrigação de esclarecê-las, como os possíveis riscos da cirurgia, quanto tempo ela levará, qual anestesia será usada e principais cuidados pré e pós-cirúrgicos. Existem profissionais que, para “ganhar” o paciente, dizem que podem voltar rapidamente às atividades do seu dia a dia, como trabalho, exercícios físicos e tabagismo. Muitas pessoas consideram isso um facilitador para a escolha do médico, mas, na realidade, pode levar a complicações graves. Há um motivo para limitarmos algumas atividades, e todos são baseados em estudos científicos que realizamos ao longo de muitos anos. Por isso, sugiro que as pessoas repensem caso vão a um cirurgião plástico que promete um pós-operatório livre de restrições", explica o profissional.

O paciente deve também desconfiar caso o médico não pergunte a fundo sobre problemas de saúde e cirurgias anteriores, pois tudo isso pode interferir na cirurgia e apresentar riscos. Na consulta, tudo deve ser compartilhado com o médico: questões de saúde que teve durante a vida (até mesmo na infância), cirurgias realizadas (inclusive as estéticas) hábitos prejudiciais (como tabagismo e drogas), e uso de medicamentos controlados.

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