"Minha autoestima nunca dependeu da aparência, considero isso uma sorte", diz Camila Fremder

Como a chegada de uma criança pode transformar a relação com a autoestima? A comunicadora e podcaster compartiha sobre o reencontro consigo após se tornar mãe

Por
Camila Fremder*


Camila Fremder Thi Santos/Glamour

"Eu não ligava muito para a aparência na adolescência. Me considerava meio moleca. Meu interesse pelo universo da beleza veio quando comecei a namorar e fui ficando mais vaidosa. Nunca fui muito fã de maquiagem, mas adorava passar horas no quarto aprendendo a fazer escova, tentando dar volume ao meu cabelo liso e testando novos jeitos de estilizá-lo. E eu sempre tive franja - até experimentei outros cortes, mas acabava voltando para ela. Gosto de me ver assim.

Sou muito metódica desde que me entendo por gente. O desejo de ser mãe apareceu perto dos 30 anos, mais tarde do que em muitas amigas. Quando criança, brincar de boneca não era meu lance, mas, ao decidir que queria maternar, passei a planejar cada detalhe. Aos 35, fui à ginecologista, fiz exames, testes de ovulação, e engravidei rapidíssimo.

Minha gestação foi ótima, daquelas que dá até para romantizar. Não tive enjoo, fiquei bem-humorada, disposta e trabalhei até poucos dias antes do parto. O pai do Arthur diz até hoje que a versão mais engraçada de mim foi a grávida, e eu realmente me senti muito bem.

Apesar da experiência positiva, inclusive com meu corpo e a amamentação, que fluiu naturalmente, tive muito medo de voltar ao mercado de trabalho, já que era freelancer. Talvez por isso tenha lançado um livro em 2018, o Adulta sim, madura nem sempre: Fraldas, boletos e pouco colágeno (Companhia das Letras), enquanto o Arthur ainda era bebê. Embora tenha uma personalidade sistemática, optei por seguir meu instinto, sem me prender a pesquisas, leituras ou fórmulas. Isso tornou o momento mais leve.

Camila Fremder — Foto: Thi Santos/Glamour

Antes de ser mãe eu era bem autocentrada, muito preocupada com as minhas questões. A maternidade me trouxe mais jogo de cintura, hoje sou mais flexível. Essa relação tão profunda com o outro é um exercício diário de empatia. Eu já era uma pessoa legal, mas hoje sou melhor. A maior descoberta que fiz após o nascimento do Arthur foi entender que não posso controlar tudo ao meu redor. Ter um filho exige lidar com imprevistos e incertezas, algo que antes era quase impossível para mim.

Apesar da relação com meu corte de cabelo, por exemplo, a minha autoestima nunca dependeu da minha aparência, considero isso uma sorte. Principalmente por ter crescido nos anos 1990, quando ainda não se falava tanto sobre feminismo ou corpo livre, mas a pressão estética era enorme. Minha carreira e minhas relações sempre foram pautadas no humor. Por isso, enxergar as mudanças no meu corpo - da gravidez ou da vida - não foi tão difícil quanto pode ser para mulheres cuja imagem é o principal pilar. Nunca me achei bonita, era considerada 'padrão' por ser magra e ter cabelo liso, mas sempre fui muito engraçada. E, para mim, o humor é um grande aliado.

Estou adorando ver a passagem do tempo diante dos meus olhos. Aproveito cada rito: a maternidade, os 30, os 40... Não sou nostálgica. Não fico pensando em como era minha vida antes, nem busco reencontrar quem já fui. Essa fase já passou. Estou sempre olhando para a frente."

*Em depoimento à jornalista Carolina Merino.

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