Como o cinema impulsionou a indústria de maquiagem e produtos capilares?

A sétima arte e a beleza caminham juntos – e não estamos falando sobre as tendências lançadas por estrelas de Hollywood. Aqui, traçamos um panorama de como as telonas provocaram o mercado de beauté em prol da caracterização de personagens


Emma Stone em 'Pobres Criaturas' Divulgação

Em janeiro deste ano, a designer de cabelos Sarah Hindsgaul, responsável pela caracterização da série Stranger Things (Netflix), anunciou o lançamento de sua própria linha de cuidados capilares, a Hindsgaul Hair. Inspirada em suas raízes nórdicas, a cabeleireira queria produtos de styling que mantivessem os fios leves, mas passíveis de estilização para diferentes efeitos visuais. A necessidade partiu do trabalho intenso criando os penteados dos anos 1980 do sucesso do streaming e resultou em uma linha capaz de também proteger os cabelos e o couro cabeludo dos atores após longas diárias de filmagem. Essa não foi a primeira vez, e dificilmente será a última, que a caracterização de uma obra pede por atualizações ou adaptações na indústria cosmética. A história se repete há décadas e culminou na criação de produtos famosos até hoje. Se as câmeras entregam alta definição atualmente, o mesmo não se pode dizer sobre os primeiros passos do cinema, ainda em preto e branco e mudo, no início do século 20.

"Quando pensamos no começo do cinema, a maquiagem era muito importante, porque os recursos técnicos eram escassos. Foi uma época muito interessante do ponto de vista criativo. Havia uma magia sobre o que as produções das telonas podiam pegar do teatro para que aquela nova audiência, que também estava se adaptando a uma forma inédita de consumir histórias, pudesse se conectar", explica Paula Jacob, crítica, pesquisadora e professora de cinema.

À época, a caracterização não servia para embelezar, mas para demarcar emoções. "Os traços desenhavam efeitos psicológicos dos personagens, já que não havia falas. Eram ferramentas para comunicar que aquela pessoa estava triste ou assustada, por exemplo, com olhos mais marcados e escurecidos", pontua ela. Tratava-se ainda de uma arte muito experiemental e, portanto, criativa. "Havia uma experimentação relacionada ao ilusionismo, então havia também o lugar da maquiagem compondo o mágico. Em O Gabinete do Dr. Caligari, que já era falado, vemos a influência do expressionismo e como a maquiagem é importante para o efeito de terror. Nesse início do cinema, temos a beleza como reforço emocional e vazão artística", diz.

Sem cores nas telas, os produtos não podiam seguir a literalidade do que era usado na vida real. Isso pouco importava, na verdade. Não era incomum o uso de verdes e azuis para criar angulações no rosto, fazendo as vezes de blush. O mesmo valia para os lábios, que poderiam ser pintados de marrom ou preto, a depender do que se desejava imprimir. Os produtos eram grossos e, muitas vezes, estouravam na luz, adicionando uma camada de dificuldade às produções. Outro ponto é que muitos cosméticos eram tóxicos e irritantes, o que não permitia o uso por um longo tempo.

A textura grosseira incomodou o polonês Maksymilian Faktorowicz, que tinha uma pequena loja de itens de beleza em Los Angeles. Ele viu que a maquiagem usada no teatro não funcionava bem no cinema. Muito espessa, ela secava e acabava rachando no rosto. As fissuras se tornavam visíveis sobretudo durante as expressões faciais. Além disso, em alguns casos, era usada uma mistura de de banha animal e amido de milho. Embora fosse maquiador desde os 14 anos e já tivesse um trabalho consolidado, que passou por grandes companhias de balé de Moscou e até como cosmetólogo oficial da família real russa, não tinha nada que pudesse servir aos artistas.

Com o tempo, o laboratório improvisado na sua própria casa passou a ocupar mais sua atenção do que a loja. Ele assistiu a inúmeros filmes e também notou outro problema recorrente: a qualidade precária dos apliques de cabelo nas produções. A partir dessa constatação, teve a ideia de oferecer seu trabalho aos estúdios de Hollywood, atuando nesses departamentos. Logo, ficou evidente que perucas e extensões mais bem executadas contribuíam significativamente para o resultado dos filmes. Em 1914, também criou uma base mais flexível, de textura fina e disponível em doze tonalidades.

Assim, Max Factor se tornou o profissional com a marca mais requisitada dos backstages. Para a atriz Mae Murray, criou o famoso "lábio picado por abelha". Para Colleen Moore, símbolo do estilo melindroso, concebeu um novo corte de cabelo e desenvolveu os cílios usados por Theda Bara em Cleópatra (1917), entre muitas outras participações.

Aliás, Max ajudou a definir a estética que marcou os anos 1920, mas não só. Se, antes, a maquiagem era frequentemente vista como vulgar do ponto de vista ocidental, com a popularidade das estrelas do cinema, esse cenário começou a mudar. Ao aparecerem maquiadas nas telas e em campanhas publicitárias, as atrizes transformaram a percepção pública. Gradualmente, a maquiagem deixou de ser marginalizada e passou a ser amplamente aceita, impulsionando o interesse do público. "A maquiagem passou de um recurso técnico para assumir também um lugar de inspiração, construir o que chamamos hoje de imagem de moda. Esse lugar aspiracional passou a fazer parte do imaginário feminino também a partir das referências das atrizes", entende Paula.

"Frankenstein" — Foto: Divulgação/Netflix

PROFISSÃO: MAQUIADOR DE CINEMA
Lado a lado ao que era embelezador, vieram também os avanços nas próteses. Talvez um dos visuais mais emblemáticos até hoje, o Frankenstein de 1931 é um símbolo deste poder de transformação. À época, o maquiador Jack Pierce se dedicou aos estudos de anatomia para pensar no que poderia ser a arquitetura de uma criatura de laboratório. O processo de caracterização chegava a durar cinco horas. Agora, na versão do diretor Guillermo del Toro, que concorre ao Oscar deste ano, o ator Jacob Elordi passava cerca de dez horas na cadeira de maquiagem para contemplar também o corpo.

Deve ser um trabalho minucioso para que seja crível, de acordo com a maquiadora de cinema Paula Vidal, responsável pela caracterizaçaõ da série Os Donos do Jogo (Netflix), Arcanjo Renegado (Globoplay), entre outras. "Uma personagem esteticamente mal desenhada pode destruir uma narrativa", argumenta.

Por isso, a caracterização é pensada de como a pessoa se apresenta em cada cena até, é claro, os momentos em que se faz necessário o uso de artifícios cenográficos, como cortes, tiros e outras intervenções. Isso, sem contar, é claro, os universos fantásticos, que se apoiam também nas tecnologias digitais para composição de personagens e cenários. "É o que chamamos de efeito híbrido. O software vai apagar ou trabalhar um pedaço da pessoa e, nós, da maquiagem, construímos a prótese apenas do que vai aparecer depois da edição", explica.

Para funcionar, além da dedicação da equipe em cada look, há uma coreografia. "Passamos o dia fazendo retoques e acompanhando no vídeo se algo saiu do lugar. É preciso ter olhos de águia para ajustar qualquer mínimo detalhe que possa atrapalhar a continuidade", afirma a especialista. Tudo é documentado, dos tons à intensidade de máquina de barbear. "Me orgulha bastante quando conseguimos entregar um resultado tão bom e limpo, mesmo diante das adversidades", finaliza.

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