Procura-se um homem sem dependência emocional
Nossa colunista Manu Xavier faz uma reflexão sobre relacionamentos em que o homem é dependente da parceira - e como isso prejudica o emocional e o espaço pessoal dela
Eu nunca quis ser mãe. Por ter muita consciência do trabalho que requer educar, cuidar e maternar uma criança, entendi que eu não estava disposta a realizá-lo. Tive, inclusive, a honestidade de reconhecer que se eu o fizesse, criaria um péssimo ser humano. Portanto, a maternidade nunca foi um sonho.
Entretanto, estava eu no auge dos meus 30 anos, num casamento fracassado com um homem da mesma idade. Eu estava terminando o doutorado, era professora universitária de algumas instituições, atendia no meu consultório como psicanalista e gerenciava um empreendimento com uma amiga. Enquanto isso, ele concluía a duras penas um curso numa universidade e trabalhava na empresa da família.
Eu ganhava três vezes mais que ele e achava, convencida por ele, que era justo que eu arcasse com a maior parte das contas da casa - ignorando o fato de que ele deveria se profissionalizar mais e assumir mais responsabilidades no trabalho a fim de buscar mais reconhecimento e melhores salários. Eu, professora universitária, que diariamente estava em bancas de defesa de trabalho de graduação, achava que não custaria nada ajudá-lo a fazer o trabalho dele de conclusão de curso - qual era a dificuldade de escrever 30, 50 páginas? Eu escrevi a minha tese de doutorado, 250 páginas, em um mês. E, quando fiz a defesa, tive recomendações de continuar minha pesquisa em um pós-doc. Ou seja, escrever e fazer pesquisa acadêmica sempre foi muito fácil para mim.
Eu chegava em casa depois de dar aulas numa cidade a 300km de onde morávamos e, à noite, depois de trabalhar 16 horas no dia, sentava com ele no computador para ensinar estrutura textual e ajudar a organizar e construir argumentos. Quando nos conhecemos, ele ficou encantado pelo fato de eu ser psicanalista e se abriu para mim. Contou sobre suas crises de ansiedade, sobre suas vulnerabilidades, e eu, cansada do embrutecimento dos homens que se negam a viver um pouco de sensibilidade, achei uma honra ele confidenciar a mim coisas tão íntimas, e achei bonito demais um homem ter a coragem de se mostrar vulnerável.
Ele tinha muitas crises de ansiedade - todas engatilhadas sempre que ele se deparava com a difícil tarefa de ter que assumir responsabilidade e agir como um adulto deve agir. Como ele tinha a mim como confidente e porto seguro, sempre que se sentia assim, me ligava. E não importava o que eu estivesse fazendo, eu deveria atender. Se eu não atendesse, ele dizia que eu não cuidava dos sentimentos dele, que não me importava com ele e com os sofrimentos que ele vivia. Entretanto, essas crises eram tão constantes que eu vivia sempre em estado de alerta à espera do telefonema de um homem de 30 anos assustado como um menino de 7.
Eu morava sozinha desde os 18, já tinha me mudado mais de 8 vezes até aquele momento em que fomos morar juntos; então, tudo que dizia respeito a vida doméstica não era novidade para mim. Fazer compras, pagar contas, lavar louça, estender roupa. Mas ele se via pela primeira vez na radical aventura de morar longe da mãe e do suporte de funcionárias sempre a postos para recolher a roupa no chão e as cinzas do cinzeiro. Eu, que já sabia que ele era sensível e tão vulnerável, sempre tive o cuidado de não exagerar na cobrança; afinal, não queria encarnar aquele clichê da mulher que se transforma na mãe do cara e fica reclamando da toalha em cima da mesa e pedindo pela centésima vez que ele lave a louça de ontem.
Até que, em um dia qualquer, tão comum como todos os outros, em que eu chegava do trabalho depois de 16 horas ininterruptas entrando e saindo de salas de aula, entre uma cidade e outra, um consultório e outro, me vejo pagando as contas atrasadas, lavando a louça que ficou na pia durante os três dias que eu estava fora, enquanto ele estava sentado no sofá da sala jogando videogame. Eu estou casada com um adolescente de 13 anos, falo para mim mesma estupefata. Enojada. Assustada. Eu não era mãe daquele homem, era pior.
Eu era seu alívio emocional, sua inteligência teleguiada, seu suporte estrutural, sua serviçal. O que ele tinha não era crise de ansiedade, o que ele vivia não era fruto da inexperiência de morar sozinho pela primeira vez; o que estava acontecendo ali era um homem infantilizado, um adulto não funcional, um homem vivendo a sua mais aguda hostilidade da masculinidade, que entende que uma mulher deve servi-lo domesticamente, sexualmente e emocionalmente.
Durante aqueles anos todos ele nunca me perguntou se eu estava cansada. Se eu demorava a dormir pensando nos meus problemas, se eu tinha ansiedade por qualquer coisa que fosse. E ainda assim ele dizia que me amava. Ele me amava mesmo ou eu apenas era muito útil e eficiente?
Nós, mulheres independentes que nos fizemos sozinhas, temos um ponto cego: não sabemos que a nossa força e trabalho podem ser drenados por um homem totalmente falido e fracassado que tentará nos convencer que somos nós as inseguras. A estratégia é simples, como eu demorei tanto para ver? Sugar até a última gota da minha energia vital, até que não sobrasse mais nada. E quanto mais energia, tempo e disposição eu entregava a ele, ele crescia e avançava no jogo da vida, como se eu fosse as rodinhas de sua bicicleta. E aí, quando não sobrasse mais nada de mim, depois que ele tivesse levado tudo, ele me abandonaria e iria buscar em outra tudo aquilo que eu já havia dado a ele. A dependente não era eu, era ele.
Me lembro com clareza a explosão de lucidez que tomou conta de mim aquele dia que eu decidi me separar daquele garoto de 13 anos. Um mundo novo se abriu para mim naquele instante: eu teria tempo para me dedicar às minhas questões e aos meus prazeres, estaria livre daquela tortura de ligações intermináveis ouvindo um adulto se queixar no tribunal das mínusculas causas. Teria a minha casa só para mim, sem as roupas dele jogadas pelo chão e as cinzas de cigarro espalhadas por toda a casa. Ele não era meu marido, nem meu filho, era um parasita. E eu sou uma mulher, não sou mãe, nem esposa, muito menos hospedeiro.
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