Por Manu Xavier (@manuelaxavier)

Comunicadora e referência em narrativas femininas, psicanali... ver mais

3 conselhos que ninguém te dá para viver Carnaval o ano inteiro

Entre a ressaca da folia e o retorno à rotina, nossa colunista Manu Xavier compartilha três conselhos para não deixar a vida vibrar apenas em fevereiro


3 conselhos que ninguém te dá para viver Carnaval o ano inteiro Getty Images

Na quarta-feira de cinzas ficou só o pó. Para quem pulou o Carnaval fica a ressaca, o terror de esperar a fatura do cartão de crédito de fevereiro e a tristeza de ter que voltar à vida normal (normal?) depois de ter vivido dias de festa e alegria. Para quem, como eu, que não pulou o Carnaval, mas aproveitou os dias para descansar, ler uns livros, fazer arte e se deliciar nos restaurantes agora vazios, fica também aquela vontade de descansar mais um pouco, o corpo ainda enferrujado querendo um pouco mais a cama, a criatividade querendo modelar mais cerâmica, se recusando a buscar palavras no word ou encaixar números na planilha.

E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu. Acho que Carlos Drummond também viveu o doloroso luto de se despedir de dias de descanso e prazer. Mas, e se pudesse ser Carnaval todo dia? E se, ao invés da gente se despedir do Carnaval, a gente der as boas-vindas a um outro modo de viver? Eu acho que tenho uma saída.

Nessa coluna que geralmente abriga as minhas reflexões sobre a vida e o desejo das mulheres, hoje faço diferente e compartilho três conselhos que aprendi bem recentemente, para não ter que esperar que o calendário me permita abrir as asas e soltar as minhas feras.

1. Buscar a falta por trás do excesso

É clichê dizer isso, sobretudo eu, uma psicanalista. Mas os clichês existem por um motivo, né? Todo excesso esconde uma falta, a gente já ouviu muito isso no TikTok. Mas será que a gente consegue olhar para os nossos excessos e buscar neles uma resposta, ao invés de uma punição? Conseguimos olhar para os nossos excessos como manifestação de uma urgência, ao invés de só sentir culpa?

Para quem vive uma vida de privação, é natural romper as barreiras e limites quando por uma brecha temporal é permitido expandir. Mas até quando a gente vai ficar esperando que um calendário nos diga quando é possível ser muito? Quando cabe na agenda ser feliz de um modo único, louco, fantasiado ou meio descontrolado? Será que toda essa fome de vida que a gente sente no Carnaval não aponta para o fato de que estamos severamente desnutridas na nossa vida criativa ao longo do ano? Quando foi a última vez que você se divertiu fora do enquadre do final de semana ou do feriado? Quando foi a última vez que você ousou? Que se permitiu? Que se fantasiou de outra coisa que não de você mesma? Fora do Carnaval tem lugar na sua vida pra viver tudo isso?

Ao invés de buscar se realizar nos excessos tão escassos e limitados pelo tempo, é preciso dialogar com aquilo que passa fome dentro de nós e precisa de nutrição. E a isso eu chamo de vida.

2. Dizer mais sim do que não; tirar mais compromissos da agenda ao invés de acrescentar

Muito se fala sobre a dificuldade das mulheres dizerem "não". Estamos sempre a postos, disponíveis, atendendo a todas as demandas. Com simpatia e gentileza, sem reclamar; afinal entendemos que nascemos pra servir. Dizemos sim para todo mundo porque aprendemos que dizer "não" é sinal de egoísmo e uma mulher boazinha não pode negar nada a ninguém. Só a ela mesma. Uma mulher boazinha deve morrer de fome para dar de comer a quem já saciou a sua, mas quer mais.

É por isso que o meu convite a você que lê vai na contramão: não é Carnaval, mas é sempre tempo de dizer sim. "Vamos tomar um vinho depois do trabalho?", "Sim!", "Que tal ficar na cama mais um pouco e me atrasar com calma?", "Sim!", "Vamos para praia esse final de semana?", "Sim!". E que os relatórios, os compromissos, a unha por fazer, a louça, a tarefa de casa das crianças fique para depois. Não dá mais para se adiar, você tem fome, lembra? É urgente dizer sim para as experiências que você precisa e merece viver.

A necessidade de ser excelente em tudo implantou em nós uma síndrome de Mulher Maravilha que faz com que a gente tenha que acumular funções: ser a mãe dedicada, a esposa fogosa, a funcionária exemplar, e ainda ter tempo de ir à academia, fazer as unhas e a raiz dos cabelos.

A mulher que vive feliz não é a que acumula compromissos na agenda, mas a que tem como sagrado o tempo pra si. Não dá para esperar o Carnaval para fugir da agenda, né? Afinal, você é dona do seu tempo.

3. Siga, ao invés de recomeçar

A ideia de recomeçar provoca em nós uma sensação orgástica. Uma página em branco pronta a ser escrita ou rabiscada, um infinito de possibilidades. O "agora vai!" daquela energia de segunda-feira em que finalmente começaremos aquilo que prometemos há 98 segundas-feiras. É mentira. Esse ritmo só serve pra fazer a gente se sentir culpada por não dar conta, o que é um sentimento injusto, afinal, a gente já dá conta de muita coisa. Mas para isso, a gente se aniquilou da equação, somos os noves fora.

É preciso coragem para prosseguir de onde estamos, honrando a trajetória que pudemos caminhar, recolhendo dela os aprendizados que ficaram e que nos deixam mais atentas e mais sábias pra seguir. Seguir, não recomeçar.

E se aquele bloco não tivesse um endereço, onde ele aconteceria hoje? E se o despertador não tivesse que tocar às 7h, você dormiria mais um pouco ou sairia pra passear? Se as regras fossem outras, que jogo você jogaria?

Se você pudesse escolher, o seu Carnaval seria em fevereiro ou em setembro? Seriam 4 dias ou 2? Quantos Carnavais você teria no seu ano? Quantos Carnavais cabem no seu ano? Quais fantasias você usaria se não tivesse que, todos os dias, se fantasiar da versão mais obediente de você mesma?

Há dentro de você uma mulher que só uma vez ao ano vê a luz do dia, o calor do sol, o suor no corpo, a música tocar. Coloca na sua agenda uma reunião com ela e pergunta para onde ela gostaria de seguir se fosse Carnaval o ano inteiro. Ela vai te apontar o caminho. E é importante que você diga sim.

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