Todo estupro é coletivo: a triste constatação de que nós mulheres estamos sozinhas
Neste Dia Internacional da Mulher, nossa colunista Manu Xavier parte de casos recentes de violência sexual para refletir sobre um sistema que protege agressores e deixa mulheres expostas
Todo avanço feito em direção aos direitos das mulheres foi garantido a partir de uma luta coletiva. Foi quando as mulheres perceberam que individualmente, viviam opressões semelhantes e, a partir da dor, se encheram de força e construíram um coletivo organizado para reivindicarem uma vida mais justa e protegida.
É a força do coletivo que faz com que as mulheres entendam que não é culpa delas as dores que vivem, e sim efeito de um sistema que as quer frágeis pra que sejam manipuladas e exploradas. E é quando as mulheres entendem que acima delas existe toda uma estrutura histórica armada minuciosamente para mantê-las nesse lugar apequenado e vulnerável; é nesse momento que entendemos também que não estamos sozinhas e que sozinhas não vamos derrubar esse sistema que existe antes mesmo de nós existirmos.
É assim que nasce o coletivo das mulheres: a partir do entendimento de que, embora tenhamos diferenças que podem ser de raça ou de classe, o fato de sermos mulheres nos une nas violências a que estamos submetidas e, portanto, é necessário que a gente se una para se proteger, denunciar o que sofremos e reivindicar os nossos direitos. Foi assim desde o movimento das sufragistas no final do séculos 19 até bem recentemente, já no século 21, com o global e viral movimento Me Too.
Mas… Onde foi que a gente se perdeu?
Hoje, em 2026, vimos às vésperas de um dia tão simbólico quanto o Dia Internacional da Mulher, o Brasil se estarrecer com mais uma notícia de estupro coletivo, dessa vez cometida contra uma adolescente por outros jovens quase da mesma idade.
Qual a semelhança entre o caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro para o igualmente estarrecedor caso do desembargador que absolveu um homem de 35 anos que abusou de uma criança de 12? O fato de que nenhum desses homens estavam sozinhos: os jovens do apartamento em Copacabana tinham uns aos outros, tinham seus pais e familiares que inclusive facilitaram para que pudessem ser foragido, tinham os coaches red pill que cotidianamente promovem discursos misóginos na internet, tinham a indústria da pornografia que naturaliza o estupro e a violência contra a mulher.
O homem de 35 anos que violentou uma criança de 12 não estava sozinho: tinha ao seu lado o sistema judiciário na figura do desembargador igualmente acusado de pedofilia, tinha a seu lado uma indústria cultural capaz de descolar a pessoa da criança da figura erotizada da "novinha", tinha a seu lado a indústria da pornografia, responsável por borrar com o limite entre o legal e o ilegal através de cenas de sexo entre homens muito mais velhos com meninas muito mais novas e vestidas de forma infantilizadas como se fossem crianças.
Os homens não estão sozinhos, estão sempre em coletivo. Mesmo que esse coletivo seja imaginário ou cultural, ele opera na manutenção de poder, na proteção dos homens e de uma masculinidade predatória. Já nós mulheres, estamos mais sozinhas que nunca. Naquele quarto em Copacabana a moça estava sozinha, ninguém viveu a dor que ela viveu, ninguém dividiu com ela a violência sofrida, ninguém a protegeu do absurdo. Em Indianápolis, no triângulo mineiro, aquela menina de 12 anos estava sozinha. Ninguém a protegeu de um predador de 35 anos, nem sequer a sua própria mãe. Ninguém dividiu com ela a dor de ter uma infância roubada, um trauma eternizado por violência, omissão e negligência.
Estamos sozinhas. Nas nossas casas, nas nossas igrejas, nas salas de portas fechadas com os nossos chefes, no ônibus lotado enquanto um homem se sente no direito de tocar o nosso corpo. Estamos sozinhas expostas à mais cruel violência de homens que tem ao seu lado todo um sistema muito bem organizado para protegê-los.
Se estamos todas sozinhas, e se sofremos tudo isso sozinhas, por que parece tão difícil que a gente se organize em coletivo? A resposta é simples: porque nos ensinaram que não podemos vencê-los. Ou melhor, nos ensinaram que, se seguirmos à risca a cartilha do bom comportamento feminino, estaremos imunes à violência.
Ser uma filha obediente, ser uma mulher que se dá ao respeito, saber escolher um marido provedor e protetor. Se seguirmos tudo isso, sem nos expor à rua tarde da noite, sem usar roupas que provoquem o olhar masculino, estaremos protegidas da violência. É isso que domina o nosso imaginário e sequestra as nossas forças, a ideia de que podemos nos livrar da violência. Ou seja, ainda temos cravado no nosso imaginário a tese perversa de que se uma mulher foi violentada, é porque fez por merecer. Além de perversa, essa tese é também uma mentira. Prova disso é que ainda essa semana, uma freira de 82 anos foi estuprada e morta dentro do convento por um homem que invadiu o local. O que ela fez pra merecer isso? Nenhuma mulher merece ser violentada, mas a gente ainda não entendeu isso. E isso se deve a uma manobra psicológica que tivemos que desenvolver para sentirmos que temos o controle contra a violência e que iremos (mais uma vez sozinhas) nos proteger.
E a história mostra que todas as vezes que estivemos sozinhas, estivemos vulneráveis. O que nos fortaleceu foi a união em coletivo.Hoje, nesse Dia da Mulher, escrevo esse texto que soa desanimador a fim de acender uma chama em cada mulher que me lê: nós somos muitas, nós somos a maioria, somos fortes, independentes, inteligentes. Imagina o que poderíamos fazer se nos uníssemos? Será que, diante da nossa união, não seriam os homens que teriam medo de nós? Será, então, por isso que somos desestimuladas a darmos as mãos? Ensinadas a rivalizar, a nos odiar?
Mulheres do mundo todo, uni-vos. A maior revolução na vida de uma mulher é dar a mão a outra mulher. Ainda há tempo. Nossa vida depende das nossas mãos dadas, a minha está estendida aqui. Você vem comigo?
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