Por Manu Xavier (@manuelaxavier)

Comunicadora e referência em narrativas femininas, psicanali... ver mais

"Você nunca será divorciada, porque será morta antes"

Nossa colunista Manu Xavier parte de um caso recente de feminicídio para identificar os sinais de relações abusivas (e por que eles ainda passam despercebidos)


'Você nunca será divorciada, porque será morta antes' Getty Images

Eu tinha 30 anos quando me separei de uma relação abusiva, contrariando a todas as expectativas: ele não me batia, e tinha apenas seis meses que eu havia subido no altar com ele. Antes de casar, eu já estava morta. Enquanto estava casada, eu também estava morta. Só nasci quando me separei, e acho que só quem viveu uma relação abusiva entende essa dimensão de estar morta em vida: desnutrida, ressecada, enlouquecida, totalmente solitária, sem identidade.

Retomo a minha experiência porque diante do trágico caso da soldado Gisele, assassinada pelo marido, o tenente coronel da Polícia Militar de São Paulo Geraldo Leite Rosa Neto, a mensagem dele, enviada para ela foi o que mais me impactou, me atravessou como se aquele tiro tivesse doído também em mim. Pela mensagem, ela pede divórcio e ele diz: 'Jamais será divorciada'. E não foi, dias depois Gisele foi assassinada, impedida de ter o estado civil que desejava, com sua vida interrompida porque ousou contrariar o homem que não queria mais chamar de marido.

No rumo das investigações, a vida de Gisele foi exposta e tivemos acesso a um conteúdo sensível, violento e infelizmente muito comum: as mensagens trocadas entre ela e seu assassino. Ali, reconhecemos a trilha da violência doméstica que engloba as mais diversas violências: moral, patrimonial, psicológica e física. Numa sociedade que normalizou como ditado popular a covarde frase 'em briga de marido e mulher ninguém mete a colher', a gente não consegue reconhecer o impacto político daquilo que é vivido no particular. Parece que a violência doméstica se restringe ao âmbito privado, como se ela não se iniciasse no coletivo e mais ainda, como se não fosse estimulada por esse coletivo.

Ali, nas mensagens trocadas entre uma esposa e seu marido nós pudemos ver com horror - mas não sem surpresa, porque não há uma mulher que não tenha protagonizado uma conversa como a que vimos - pudemos observar a violência encontrar argumentos e chancelas em discursos religiosos, morais e sociais. A violência que vimos ali nas mensagens e que culminou na morte de uma mulher não se deu por culpa dela, pela roupa que ela vestia, ou pelo temperamento forte do homem, se deu porque a sociedade empurra mulheres para relações violentas e nós somos sistematicamente ensinadas a naturalizar a violência ou confundi-la com amor. Ou, em última instância, assumir como nossa a culpa pelo comportamento do parceiro. É por isso que eu uso esse espaço que tenho aqui pra ampliar o que debati no meu livro best seller ‘De olhos abertos: uma história não contada sobre relacionamento abusivo’.

A partir do caso Gisele quero apontar os sinais que apontam como uma grande bandeira vermelha que podem indicar que você que me lê, pode estar vivendo uma relação abusiva. Não menospreze ou subestime os sinais, por menores que sejam. A violência é uma escalada, ela não começa na violência física, primeiro a dominação é psicológica, um projeto de enfraquecimento psíquico da mulher para provocar dependência psicológica e/ou financeira. Depois de isolada e enfraquecida, aí sim vem as agressões e seu último ato: o feminicídio. Vou organizar aqui, em ordem crescente, os sinais e como eles se apresentam, a partir do caso da soldado Gisele.

O perigo da diferença de idade

Gisele tinha 32 anos, o tenente-coronel Neto tinha 53, são 21 anos de diferença. Em geral, homens buscam mulheres mais jovens porque acreditam que nessa dinâmica encontram um terreno fértil onde conseguem manipular e controlar a mulher. Além da diferença de gênero que já impõe uma radical diferença na socialização entre homens e mulheres estabelecida desde a infância, ensinando homens a serem valentes, fortes e corajosos e estimulando, em contrapartida, mulheres a serem delicadas, obedientes e boazinhas, a diferença de idade impacta diretamente dois fatores: a maturidade e o desenvolvimento de carreira. Gisele precisaria de 21 anos pra alcançar, minimamente, a experiência de vida do tenente coronel Neto, assim como precisaria de 21 anos numa carreira pra estar minimamente em pé de igualdade com ele na profissão.

A consequência direta dessa grande diferença de idade? Uma mulher facilmente manipulável e com grandes chances de ser dependente desse homem. Se você se sente uma sortuda por ser ‘escolhida’ por um homem mais velho que você acha que poderia ter escolhido qualquer outra mulher mais velha, e se sente honrada por isso como se você fosse madura demais pra sua idade, você já está sendo manipulada. Se eu puder te dar um conselho que salvaria sua vida: não se relacione com homens muito mais velhos que você.

A cortina de fumaça do love bombing que esconde um passado que condena

Numa das mensagens trocadas entre o casal, Gisele lamenta a mudança de postura do marido: diz que no início da relação ele era um príncipe e depois se tornou um 'animal'. É muito comum que homens abusivos iniciem uma relação amorosa com essa postura excessiva, que geralmente é lida como romântica e apaixonada, mas na verdade esconde algo pior e mais perigoso. O objetivo desse excesso é sufocar a mulher pela manipulação, fazendo com que ela acredite que ela é única e especial. Nesse pedestal em que o homem coloca a mulher, ela se afasta do contato com a realidade que ela precisa investigar: como esse homem trata outra mulheres? O que o passado dele fala sobre como ele tratou as mulheres que amou? Eu sempre recomendo fortemente que as mulheres busquem saber sobre o homem com quem se relacionam em plataformas de pesquisa jurídica. Ele responde a algum processo? Já foi violento com alguma mulher? Se eu puder te dar um conselho que salvaria sua vida: duvide de qualquer excesso vindo de um homem e pesquise sobre ele nas plataformas de busca jurídica antes mesmo do primeiro encontro.

Ciúme não é amor, é controle e violência

Se fomos ensinadas desde meninas que o grande objetivo da nossa vida é ser escolhida por um homem, se passamos a adolescência lendo revistas ensinando como enlouquecer um homem, é natural que a gente se sinta muito especial quando vemos o homem que amamos sentir ciúme da gente, um medo de perder. Nos sentimos únicas, exclusivas, amadas, valorizadas. Entretanto, ciúme é uma insegurança individual que deve ser tratada na terapia de quem sente, e não ser transformada numa cobrança à parceira ou ao parceiro. Vimos nas mensagens entre Gisele e Neto ele pedir que ela tirasse uma foto da roupa que estava usando e também ele passando coordenadas de como ela deve se comportar diante de outros homens. Desavisadamente, podemos ler isso como ciúme, levianamente, podemos entender que ele era tão apaixonado que morria de medo de perder sua amada para outro homem.

Honestamente, posso afirmar que não é ciúme, é controle. Não é amor, é violência. O homem que age dessa forma entende que a mulher é sua posse, seu objeto, e portanto, além de entender que a mulher não pode ter vontade própria, ela deve servi-lo e obedecê-lo. Se eu puder te dar um conselho que salvaria a sua vida: interrompa qualquer relacionamento em que o homem tenta controlar sua roupa ou seu comportamento em nome do ciúme.

O homem que fala 'mulher minha não usa isso ou não age assim' é o mesmo homem que aperta o gatilho alegando que se a mulher não for dele não será de mais ninguém.

Cuidado com discursos religiosos, conservadores e extremistas

Temos falado muito sobre os perigos dos discursos masculinistas, que são sempre muito violentos e explícitos. Entretanto, alguns discursos religiosos e conservadores podem parecer românticos, mas guardam os mesmos perigos. Nas mensagens que vimos entre Gisele e Neto, ele reforça por muitas vezes sua posição de homem provedor, e se gaba por pagar todas as contas da casa. A posição de homem provedor é uma síntese daquilo que fomos ensinadas a esperar de um homem: aquele que cuida, garante proteção e tranquilidade para a mulher que não precisará ter nenhum trabalho, somente aceitar o cuidado e o carinho. Parece que é só isso, e se fosse assim, seria mesmo muito confortável. Quem é que não gostaria de ter alguém cuidando de tudo e provendo tudo? Esse discurso inclusive vem trazendo argumentos que definem papéis para homens e mulheres que se vistos com cuidado, revelam o engodo: enquanto o homem figura como provedor cuidando das contas e do dinheiro, a mulher reina como uma espécie de empregada doméstica sem salário que cuida da casa e do marido.

Olhando dessa forma a gente vê que a conta não fecha e vendo as mensagens de Gisele e Neto o que se revela ali é uma dependência financeira que, a grosso modo, a obriga a trocar moradia por sexo. Ao recusar essa troca injusta, Gisele é morta. Ou seja, qual é a liberdade que tem uma mulher que depende financeiramente de um homem? Ela é livre pra ir embora? Ela pode escolher ficar ou terminar uma relação? Tem condições de ir pra onde bem entender? Se eu puder te dar um conselho que salvaria sua vida: invista na sua independência financeira, na estabilidade da sua carreira e fuja de qualquer proposta de largar sua carreira em nome de uma relação. Pode parecer romântico e cuidadoso um homem dizer que você não precisa se preocupar com dinheiro porque ele proverá, mas na prática, ele exigirá em troca sexo, dedicação irrestrita e também a sua vida.

Saiba identificar e denunciar as violências

Nas mensagens entre Gisele e Neto que desavisadamente podem ser lidas como uma discussão entre um casal, é possível ver violência moral quando ele ataca a honra e a reputação de Gisele, fazendo ela acreditar que não se dá ao respeito por não saber se comportar diante de outros homens ou por usar roupas inadequadas. Vemos violência patrimonial quando ele se utiliza da posição de responsável pelas contas da casa para exigir dela sexo e carinho. Violência psicológica quando ele faz ela achar que está errada, que deve ser grata a ele, quando assume uma conduta persecutória, sufocadora, controladora. E por fim violência física, quando ela por mensagem diz que ele 'enfiou a mão na sua cara como um animal'. Um tapa, um empurrão, um puxão de cabelo são formas de violência física e tudo isso que eu listei aqui configuram um crime contra a mulher. Não é amor, é violência. Não é uma explosão, um descontrole, é violência. E custa a nossa vida. Se eu puder te dar um conselho que salvaria a sua vida: ao primeiro sinal de chantagem emocional, controle financeiro, tentativa de difamação ou violência física ou sexual, denuncie para uma amiga, procure a delegacia, disque 180, vá embora. A sua vida vale mais que qualquer tentativa de fazer uma relação falida dar certo. https://belezaestilo.webbfinanceiro.com/lifestyle/noticia/2024/03/caso-samara-felippo-o-que-e-a-violencia-patrimonial-fraudes-financeiras-no-relacionamento.ghtml

Você será amada por alguém que te respeita e te admira, não por alguém que te controla. Você pode ser divorciada ou solteira porque acima de tudo, você precisa e merece estar viva. Compartilhe essa cartilha com uma amiga que pode estar vivendo em silêncio tudo isso, promova espaços de diálogo sem julgamentos, esteja preparada para ser rede de apoio para outra mulher e abra a porta pra que outra mulher possa também te dar as mãos. Juntas, vivas e livres, é o que quero pra nós.

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