Ana Paula Renault, Juliano Cazarré, o farol e a forja
Nossa colunista Manu Xavier parte da vitória de Ana Paula Renault e do evento masculino de Juliano Cazarré para refletir sobre dois Brasis em disputa: um que celebra mulheres livres e outro que tenta restaurar velhas hierarquias
Começo esse texto pedindo desculpas a Ana Paula Renault por aparecer nesse texto ao lado de outro Juliano; não o Floss, que tem na vulnerabilidade a sua maior potência, que entende que a masculinidade pode ferir como uma faca amolada e por isso mesmo recorre à doçura e a consciência de que ser homem não precisa significar violência, mesmo que pra isso seja ele quem receba a violência de quem acha que sabe o que significa ser "homem de verdade".
Hoje, Ana Paula Renault aparece ao lado de outro Juliano, o Cazarré. Ator, casado, pai de seis filhos, católico e recentemente uma espécie de coach — acho que a Ana Paula já teria previsto essa manobra, ela que sente de longe o cheiro do coach. Não é recente o movimento do ator de se apresentar nas redes sociais com um discurso religioso, conservador, ligado a ideais arcaicos e radicais que contribuem para uma visão sexista e misógina. Entretanto, dessa vez ele deu um passo além: organizou e protagonizou um evento em que se dispõe a falar com homens sobre fé, fitness e filhos.
Como essas coisas se entrelaçam eu e qualquer mulher já sabemos: não é incomum homens violentos se esconderem por trás de uma máscara religiosa do cidadão de bem — puts, mais um ponto pra Ana Paula! — e esse cidadão de bem, em geral, age em nome de Deus, o que nos leva a crer que a religião não tem sido espaço seguro ou efetivo pra tratar as questões da masculinidade.
Eu e qualquer mulher sabemos também que falar de fitness e hábitos saudáveis com homens não é nada revolucionário, uma vez que homens recorrem ao imaginário da força a fim de darem corpo e estofo à frágil virilidade — seria a isso que o ator se refere quando fala da Forja? Aqui o ponto vai para o Juliano Floss, quando viu a violência em outro homem e logo pôde ler que ele se autorizava a violência porque era só "um rostinho bonito e testosterona".
Eu, você e qualquer mulher também sabemos que o nome família também sempre foi usado por homens não só pra autorizar a violência a partir da ideia de liderança, hierarquia e poder; como também é usada como instrumento de manipulação masculina quando os homens dizem para as mulheres que sonham em ser pais e simplesmente as abandonam, formando assim um exército solitário e exausto de mães solo que não escolheram essa condição.
Também sabemos que é por trás da máscara da família que os homens violentos se escondem, seja como pais de família ou pais de Instagram, que postam a foto do filho quando buscam a cada 15 dias, enquanto toda a carga emocional, pedagógica e até mesmo financeira fica com a mãe exausta.
Portanto, não consigo ver o que há de revolucionário no evento de Juliano Cazarré para reunir homens num retiro de três dias embalando tudo isso com um discurso religioso. Nós já temos o famoso Legendários, que se dispõe exatamente a isso: ensinar homens a serem homens, quase como foram os neandertais. Aqui, mais uma vez, nossa mãe Ana Paula já tinha alertado: eles vão ter que subir muuuuita montanha.
Agora você me pergunta: por que Ana Paula Renault aparece ao lado de Juliano Cazarré nesse texto? Porque acho curioso que num mesmo tempo histórico que faz de uma mulher como Ana Paula Renault campeã do maior reality show do país; um homem como Juliano Cazarré ter a coragem de fazer uma espécie de Legendários 2.0 e gerar uma repercussão como gerou: com tanto apoio, mas também muita crítica.
Me pergunto se uma coisa não é o efeito colateral da outra. Tento, através desses exemplos tão polarizados, fazer uma leitura de Brasil: vivemos num país progressista que quer ver mulheres livres, premiando uma mulher de 44 anos, sem marido e filhos, com a coragem de desagradar, que paga o preço de não ser boazinha; de propagar a beleza e o caos, de se intitular uma bruxona perigosa que não será queimada na fogueira? Ou vivemos num país que quer que os homens se mantenham na posição da liderança de uma família que se submete a ele em nome de Deus? Estamos diante de um Brasil 2026 ou um Brasil colônia?
Me pergunto até que ponto o fenômeno Legendários ou Juliano Cazarré é um efeito colateral desesperado de homens que perceberam que as mulheres não estão mais sob seu domínio, entenderam que são sujeitos completos que não precisam se submeter a ninguém e podem ser donas do próprio caminho. Será que até hoje os homens achavam que sua única função do mundo era serem os donos dos destinos das mulheres? Nesse caso, penso até que seria interessante mesmo um evento a fim de comunicar com homens para falar sobre uma fé que não coloniza, uma paternidade que não sobrecarrega e oprime mulheres, e um cuidado com a saúde que não passe pela farsa da força. Entretanto, não é isso que o ator entrega, porque não é isso que os homens querem ouvir.
Será que em 2026, num país que fez de Ana Paula Renault, uma mulher livre, a grande campeã, teremos mais Julianos Floss ao invés de Julianos Cazarrés? Esse é o Brasil que eu gostaria de ver, com Ana Paula sendo o farol, e Julianos Cazarrés sendo revelados forjas, farsas, máscaras vazias.