A identidade da moda nacional pela nova geração de estilistas

Das texturas da Neriage, passando pela pluralidade da Dendezeiro, à poesia têxtil de Marina Bitu, uma nova estética nacional autêntica toma forma

Por
Victoria Theonila


A identidade da moda nacional pela nova geração de estilistas Reprodução

Em um momento onde o mercado de moda busca narrativas autênticas e uma identidade construída para além do óbvio, uma nova geração de estilistas tem expandido os limites da brasilidade, tratando-a como linguagem, método e gesto político. Entre eles, Neriage, Dendezeiro e Marina Bitu formam um eixo simbólico que conecta técnica, memória, território e inovação. Seus trabalhos não dependem de clichês tropicais, nem se prendem à velha narrativa da "brasilidade óbvia": eles constroem novos códigos, revisitam técnicas, tensionam estruturas, reposicionam geografias e atualizam o olhar sobre quem somos.

Neriage 2025 — Foto: Reprodução

A trajetória de Rafaella Caniello, da Neriage, evidencia essa virada. Seu trabalho parte da matéria-prima além-tecido, como origem e corpo. Em suas coleções, a brasilidade surge em dobras, tramas e texturas que falam mais de sensibilidade e construção do que de literalidade. "A matéria-prima é sempre meu ponto de partida, não como insumo, mas como território. Antes de pensar na forma, eu escuto o comportamento do tecido: seu peso, sua tensão, sua capacidade de ceder ou resistir. Os plissados, os volumes e as estruturas surgem como respostas físicas ao que o material me conta. É quase um desdobramento natural: deixo que a essência do tecido conduza o desenho, não o contrário."

Rafaella Caniello, diretora criativa da Neriage — Foto: Reprodução

Neriage também busca representar um Brasil que encontra força no rigor técnico e na pesquisa. É assim que Rafaella equilibra arte artesanal e industrial, mantendo o gesto manual como guia. "Para mim, 'ser brasileiro' tem menos a ver com signos e mais com sensibilidade. É a liberdade de misturar técnicas, experimentar texturas e abraçar imperfeições como parte da beleza. É um certo modo de mover o corpo, somos fluidos, quentes e espontâneos, e isso acaba guiando minhas construções e volumes", entende ela.

Dendezeiro 2025 — Foto: Reprodução

Em outro ponto geográfico — e ampliando o mapa linguístico da moda nacional — Hisan Silva e Pedro Batalha, da Dendezeiro, desafiam padrões e gêneros a partir de Salvador, sua grande inspiração, a fim de criar uma moda contemporânea com vocabulário próprio. Suas coleções tratam o Norte-Nordeste como lente, atitude e presença. "A Dendezeiro alcançou um impacto significativo, indo além de roupas e modelagens. Salvador sempre criou moda, mas durante muito tempo não assinamos nossas criações, apenas éramos vistos como fonte de inspiração. O sucesso da Dendezeiro nos coloca nesse radar de criatividade e potência de moda, até mesmo se manifestando com reconhecimento internacional", pondera Hisan.

Pedro Batalha e Hisan Silva, diretores criativos da Dendezeiro — Foto: Reprodução | Marlon Santos

Ao levar essa perspectiva para grandes plataformas, a marca reafirma que o Brasil real não cabe em estereótipos e que a inclusão não é um discurso, mas uma prática materializada na modelagem, nos castings e no storytelling. "Queremos que a Dendezeiro domine o mundo como porta-voz de um movimento inclusivo, plural e com diferentes noções e formas de comunicar o que é moda para mais pessoas. Tudo isso com o Brasil como ponto central desse movimento, claro", deseja Batalha.

Marina Bitu 2025 — Foto: Reprodução

Marina Bitu traduz o Nordeste pela via dos materiais naturais, plissados arquitetônicos e uma sofisticação que une ancestralidade e desejo contemporâneo. Suas peças falam de território sem folclore e de elegância sem distanciamento. "Conheci de perto o trabalho das mulheres que produzem a palha de bananeira no interior do Ceará e isso mudou minha visão sobre material, processo e produção local. As franjas que usamos exigiram muitos testes e ajustes, e esse diálogo técnico com as artesãs foi um dos aprendizados mais importantes da minha trajetória", afirma a estilista.

Marina Bitu, diretora criativa, e Cecilia Baima, sócia da marca — Foto: Reprodução

Em um mercado que exige viabilidade comercial, Marina e sua sócia, Cecília Baima, mostram que a moda autoral pode ser artesanal e com estética que gera desejo globalmente. "Quando unimos técnica artesanal a design contemporâneo, entregamos um produto que tem assinatura brasileira, mas que funciona em outros mercados. Essa combinação atende à cliente que quer algo autoral e elegante", entende ela.

Os estilistas estão reposicionando o que entendemos por moda brasileira: múltipla, complexa, técnica e profundamente ligada à memória. Uma brasilidade que não se limita a signos e se expressa em escolhas de tecido, de narrativa e de mundo.

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