Renata Buzzo, brasileira com peça na exposição do Met, conta bastidores de look doado ao museu

Segundo a estilista, a peça seria comprada pelo Costume Institute, mas ela preferiu doar a criação desfilada na Semana de Moda de São Paulo


Renata Buzzo, única brasileira com peça na exposição do Met Divulgação

Quando Renata Buzzo desfilou a coleção "O Corpo" no São Paulo Fashion Week em outubro de 2024, lembro do burburinho no backstage: "O desfile foi muito direto", comentavam por conta da maquiagem simulando sangue. A busca pela verossimilhança foi proposital, segundo a diretora criativa. Para enviar o recado sobre o risco que mulheres correm no Brasil e no mundo com a violência de gênero, era preciso chocar. E o recado ecoou longe e por tempos a ponto de colocar a estilista entre os criativos com peças em "A Arte do Vestuário", exposição anual do Costume Institute do Metropolitan Museu of Art em Nova York.

Com curadoria de Andrew Bolton, que contatou a estilista brasileira no segundo semestre de 20205, a mostra retrata a relação de corpo, arte e moda, uma trinca bem alinhada ao jeito de Renata se encontrar na criação. "No corset Anatomia em específico criei intencionalmente órgãos inexistentes misturados a releituras disformes de órgãos reais, apresentados em proporções exageradas. Foi a minha forma de dizer que uma mulher não deve caber, se encaixar e se moldar pra sobreviver", diz sobre a primeira peça da coleção e que hoje ocupa o acervo permanente do museu.

Veja mais sobre os bastidores da participação da brasileira no acervo da exposição, que será oficialmente inaugurada nesta segunda-feira (4/5) com o badalado Met Gala.

Renata Buzzo expõe peça desfilada na SPFW no Metropolitan Museu of Art em Nova YorK — Foto: Divulgação

Como e quando surgiu o convite para expor o look na exibição?

Em setembro, recebi um e-mail do setor de pesquisas e aquisições do museu em nome de Andrew Bolton [curador da exposição], perguntando se eu tinha interesse em fazer parte do acervo permanente do museu e da exposição de primavera. Eles queriam comprar as peças, mas eu optei por doá-las. Enviei o material fotográfico das peças que eu tinha disponível e, após alguns dias, Andrew retornou, solicitando algumas peças dessa coleção. Além do corset Anatomia, ele pediu mais três looks completos. Quando eles escolheram uma das peças pra ser o carro-chefe do anúncio para a imprensa, fizeram questão de me avisar alguns dias antes que isso aconteceria e que haveria uma divulgação mundial da peça.

Renata Buzzo expõe peça desfilada na SPFW no Metropolitan Museu of Art em Nova YorK — Foto: Divulgação

Você tem um histórico de dar protagonismo a narrativa feminina em suas coleções. O que a motivou explorar essa temática?

As minhas próprias vivências, é o calçado que eu visto todos os dias tentando pleitear espaço igualitário. Tentando não me diminuir nem me moldar aos gostos e palpites alheios. Na época do desfile, você falou que a coleção retratava os tipos de morte que uma vítima de violência é exposta.

Pensando desde a parte de pesquisa até matéria-prima, como foi materializar esse cenário que só aumenta no Brasil, especialmente, na coleção?

Foi muito simbólico porque escolhi falar sobre mortes metafóricas e literais exatamente por muitas mulheres estarem mortas em vida. Isso acontece quando elas se diminuem dentro de relacionamentos, se inferiorizam e aceitam tratamentos equivocados só para pertencer. Aceitando isso, muitas delas acabam mortas, literalmente, depois. Ao tratar disso na coleção e na peça, que foi para o museu, é como se eu dissesse: a lição que fica deste cortejo é exerça sua personalidade sem medo. Sustente os seus desejos. E, para isso, morra quantas vezes precisar. Vaze em quem suportar. Entenda e dê adeus a quem decidir não ficar, até que você aprenda sozinha a se exercer, porque concordar e calar pra manter é o mesmo que não existir, é certidão de óbito socio-existencial.”

Pensando no tema de exposição e do dress code do baile neste ano, para você, qual é o ponto de encontro entre a moda e a arte?

Pra mim, moda e arte se encontram quando deixam de ser “bonitas” e passam a ser inevitáveis. Quando não dá mais pra separar forma de ideia. Quando vestir vira argumento, exclamação, ponto de interrogação, incômodo, repulsa, se gerar sentimento ali elas se encontram.

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