Rebeca Andrade pensou em largar a ginástica e conta como retomou a autoconfiança
Maior medalhista olímpica da história do Brasil, a atleta divide detalhes da jornada de construção da própria autoestima e como mantém a saúde mental frente aos desafios
Dois ouros, três pratas e um bronze constituem a nada singela coleção de medalhas olímpicas de Rebeca Andrade. Foi ao som de Anitta e Beyoncé, uma de suas maiores referências, que ela superou Simone Biles com uma apresentação de nota 14.166 e conquistou o primeiro título olímpico da ginástica brasileira no mais popular dos aparelhos. Foi a quarta vez no pódio só em Paris. Das imagens que rodaram o mundo, fica a iconografia de uma mulher que entrou para história. No íntimo, entretanto, ela desmonta a capa de heroína e recusa o título com classe ao abraçar as próprias vulnerabilidades. Antes das conquistas deste parágrafo, havia pensado em desistir. Pressão, autocrítica, redes sociais... A equação explosiva chegou a fazer com que Reb, como é carinhosamente chamada pelas colegas de esporte, achasse que era hora de se despedir do collant. Saiu da fase difícil com apoio psicológico e colo das pessoas amadas. Hoje, entende que foi parte de um processo de amadurecimento e de entender que olhares externos não são definidores. A seguir, ela divide como resgatou a coragem para seguir, os passos na construção da própria autoestima e um relato da devoção ao esporte.
Depois da Olimpíada, você publicou uma carta em que contava sobre um momento que pensou em deixar ginástica. Como foi?
Foi um momento de me conhecer ainda mais, sabe? Eu tinha passado por uma situação que me fez questionar se eu realmente queria continuar vivendo essa vida, se eu queria continuar treinando, se eu queria continuar nas redes sociais. Como eu estava chateada, falei: "não quero mais isso." Conversei com a minha psicóloga, com a minha mãe, e elas me deixaram muito confortável para fazer o que fosse melhor para mim. Elas me apoiaram independentemente do que eu escolhesse seguir. Entretanto, queria muito estar em Paris, ajudar a equipe e me realizar neste sentido. Ao longo do ano, fui vivendo outras coisas boas também. Muitos bons relatos chegaram até mim e foram amenizando aquele momento ruim. Mas foi importante, ainda assim, ter escrito aquela carta. Quando decidi continuar e li tudo o que eu havia escrito, disse para mim mesma: "olha como você é forte, como foi importante passar por isso para construir a atleta e a pessoa que sou." Do ano passado pra cá, amadureci e me tornei grata por entender que eu não estava no meu melhor momento, mas, ao mesmo tempo, que ninguém me conhece 100%. Às vezes, as pessoas vão te olhar de um ângulo errado, mas não quer dizer que você esteja errada, seja ruim ou qualquer coisa negativa, assim como também não é tudo de positivo. As mesmas pessoas que estão te colocando lá em cima num dia podem te colocar para baixo em outro. Você escolhe se aquilo vai te derrubar naquele momento, e eu decidi enfrentar junto das pessoas que sei que querem o meu bem.
Você se considera uma pessoa de fé? Recorre a ela em momentos desafiadores?
Com certeza! Acho que, para mim, é muito bom ter fé. Tanto nos momentos de dificuldades, quanto para aqueles que eu estou muito feliz e coisas boas acontecem. Gosto de ter alguém pra agradecer.
Na época da Olímpiada, alguns clubes registraram recordes de meninas inscritas em modalidades de ginástica. Você se considera um símbolo de representatividade no Brasil?
Considero. Recebo mensagens e ouço muito isso ao encontrar as pessoas na rua. A Daiane dos Santos foi muito importante para mim; ela é a maior referência na ginástica que tenho. Foi com quem me identifiquei, não só por ser uma mulher preta, mas em termos de potência, de alegria, de ser parecida comigo, sabe? E, hoje, também ser uma referência para a geração que está vindo, como ela foi para mim, é algo muito grandioso e que cuido com muito carinho. Luto para ser sempre a melhor atleta e o melhor ser humano que posso sem deixar a minha essência de lado. Também busco mostrar que as dificuldades existem, mas você tem capacidade de alcançar o que deseja quando faz a sua parte. Eu acreditava muito que poderia ter uma uma medalha mundial ou uma medalha olímpica, mas sabia que tinha que trabalhar para isso. O meu treinador me ensinou isso e tento passar para frente também.
Além da Daiane, você tem outras referências femininas? Pode ser dentro e fora do esporte...
Minha mãe e minha irmã! E a Beyoncé! Eu gosto muito da história dela. Mas não tem ninguém como a minha mãe. Mas eu admiro muitas pessoas muitas atletas, porque é legal a gente ter referência, ter um lugar pra olhar e se sentir orgulhosa da trajetória, da história e do momento que elas estão vivendo hoje
Falando em inspiração, rolaram muitos memes sobre uma suposta rivalidade entre você e a Simone Biles. Como é a relação de vocês?
Eu acho que não dá pra falar que nós somos amigas, porque não é uma pessoa que está ali no meu dia a dia, no WhatsApp. A gente se fala mais quando está em competição mesmo, mas ela sempre me tratou muito bem, com muito carinho e respeito. Também tenho um carinho muito grande por ela. Acho que, por isso, a gente conseguiu mostrar uma competição tão bonita até agora. Foi muito legal vê-la torcendo por mim, assim como eu torcia por ela e por todas as outras ginastas ali. É claro que os americanos queriam que ela ganhasse e os brasileiros queriam que eu ganhasse [risos], mas estava todo mundo ali torcendo pra que a gente fosse bem. Acredito que a gente conseguiu mostrar um olhar diferente sobre a ginástica. Por muitos anos, era uma rivalidade ruim, as meninas nem se olhavam nos olhos. Hoje, mostramos um lado do esporte representativo e de sentir orgulho umas das outras.
Você já coleciona conquistas. Tem algum sonho ou meta ainda a realizar?
Eu quero muito me formar na faculdade! Estudo psicologia. O meu diploma será mais uma medalha para mim, de tçao importante. Também quero continuar treinando, feliz. Acho que enquanto eu estiver feliz e meu corpo lidando bem com a rotina de treinamentos, estarei aqui. Quero ajudar a minha equipe, porque temos um caminho longo para nos classificar para Los Angeles.
Hoje, como se vê no espelho? Essa dinâmica sempre foi boa?
Nem sempre. Na adolescência, quando faziam comentários sobre mim, eu não tinha cabeça preparada para lidar. O que me ajudava era que minha mãe e os meus irmãos sempre elogiaram a minha pele, o meu cabelo, a minha inteligência. Então, fui construindo isso dentro de mim. Já tive momentos em que falei: "gente, quem é essa?" [risos]. Acho que todos passam por isso, mas desde que não te afete ou te derrube, é normal acordar um dia ou outro não se sentindo linda. Em momentos, assim, é importante ser verdadeira consigo, tentar se abraçar. Caso não melhore, então é importante buscar ajuda profissional para conversar.
Nós, da redação, amamos os makes que vocês usaram! Como é a sua rotina de maquiagem?
No dia a dia, eu não uso muita maquiagem. Gosto de deixar a minha pele respirar, principalmente nos treinos. Procuro sempre cuidar dela também. Quando intensifico uso de maquiagem no trabalho, tento sempre buscar produtos que não agridam a pele nem causem espinhas. Em época de competição, também é importante. A gente tem que estar maquiada, com a pele bonita, e com o cabelo bem arrumado. Eu amo! Fico pobre toda vez que viajo, porque compro vários produtos. [risos] Gosto de ousar nas pálpebras, porque chamam a atenção no momento em que olho para a arbritagem. A pele vou mais no "acordei assim", mas faço delineador gráfico, desenhado, tenho facilidade nisso.
E como é a sua relação com o cabelo? Você está sempre mudando, né?
Eu me sinto como uma camaleoa. A conquista dessa liberdade foi tão legal pra mim! O meu cabelo era um ponto de muita insegurança quase a minha vida toda. Hoje, me orgulho dele crespo, assim como me acho bonita de lace e me sinto usando uma coroa quando estou de tranças. Era inacreditável para mim, há alguns anos, falar que eu sairia com os fios naturias na rua. Hoje, treino, passeio, vou a shows assim. Estou feliz por ter alcançado esse nível de segurança.
Recentemente, você foi homenageada em um jantar comemorativo ao lançamento do perfume Devotion, na versão intensa, de Dolce&Gabbana. A que você é devota?
Sou devota a Deus, ao meu esporte, à família e aos meus amigos. Essas são as coisas mais importantes da minha vida.
Qual é a sua relação com o universo das fragrâncias?
Eu amo perfume! Guardo muitos. Tem os cheiros que gosto para sair, para dormir...
Muitas pessoas têm memórias olfativas, daquelas que sentem um cheiro e já lembram de alguma coisa. Você é uma delas?
Sim, eu tenho isso com baunilha! Lembro muito da época em que eu morava com minha mãe, com os meus irmão, ainda aos dez anos. Quando sinto esse aroma, volto para essa época.









