A vez do lace care: como cuidar dos fios para mantê-los saudáveis usando peruca
Hit entre artistas pop e influenciadoras digitais, as perucas são mais do que acessórios de beleza. Para muitas mulheres negras, é um item identitário e que permite mudar o visual sem comprometer a saúde dos fios próprios. Neste guia, relembramos o significado do uso desse artifício e indicamos os melhores produtos para os cuidados capilares antes e após a aplicação
"O cabelo de negro não é só resistente. É resistência", escreve a poeta e slammer Mel Duarte no poema "Melanina", parte do livro Negra Nua e Crua (Editora Ijumaa). Se, para muitas, existe a compreensão de que o cabelo é a moldura do rosto, para as mulheres negras, os fios vão além da funcionalidade. E, para entender em detalhes, é preciso olhar para trás.
Nas comunidades pretas espalhadas pelo mundo, ao longo da história, vários significados foram atribuídos aos fios por quem os carregavam como símbolos de identificação de origem, etnia, status social e religião. É também por isso que, quando voltamos os olhos ao Brasil, percebemos como os cabelos foram mais um alvo da violência simbólica da escravidão, que feriu de maneiras perversas mais de 4 milhões de pessoas.
"Os comerciantes tiveram a compreensão de que os corpos negros precisavam ser higienizados para que pudessem ser vendidos em maior quantidade, por isso, adornos foram tirados e cabelos foram raspados completamente. Acreditavam que isso lhes conferiria um ar menos violento ou selvagem, segundo a concepção da época", explica Ivy Guedes, professora doutora na Universidade Estadual de Feira de Santana, autora do livro Estética Afirmativa e o Corpo Negro (Editora Appris) e fundadora da Marcha do Empoderamento Crespo de Salvador.
As raízes escravocratas contribuíram para os séculos seguintes de estigmatização do cabelo crespo até que a ditadura do controle de volume, curvatura e alisamento fosse contestada de forma mais ampla. A indústria de beleza viu crescer uma geração de consumidoras empoderadas e com letramento racial que se proliferaram nas redes sociais. Em comunidade, as cacheadas passaram a explorar a versatilidade das curvaturas, variando entre estéticas de beleza que vão do black às tranças, passando, é claro, pelas perucas.
Se você nunca foi apresentada ao glossário das laces, a hora é agora. O nome se refere àquelas perucas com base de tule, que conferem um ar mais natural quando posicionadas sobre o couro cabeludo. Elas podem ser full laces, ou seja, completamente confeccionadas da fina trama, ou front laces, quando apenas o contorno da linha dos fios tem transparência.
Apesar de cada vez mais popular, entretanto, o uso indumentário dos apliques capilares não é novidade. Os primeiros registros desses acessórios remontam ao Egito Antigo, onde eram confeccionadas com cabelo humano, lã e fibras vegetais. À época, elas serviam para proteger o couro cabeludo, mas também tinham papéis sociais. A forma tal qual conhecemos hoje tem origem mais recente, graças à cabeleireira norte-americana Christina Jenkins, que criou a técnica "HairWeev", método de tecelagem dos fios a uma rede única posteriormente costurada às tranças das clientes para dar comprimento e volume.
"Hoje, no Brasil, estamos expandindo as nossas possibilidades, porque só nos era permitido o alisamento. Não tínhamos recurso financeiro nem poderíamos pensar na opção de usar uma lace, algo que já acontecia na cultura negra dos Estados Unidos. Não somos mais reféns, temos o poder de escolha de ir com uma lace em uma festa, mas ir de tranças coloridas para o Festival Afropunk, por exemplo", argumenta Ivy.
O crescimento desse mercado também estimula melhorias na confecção e nos tipos de cabelo encontrados. De lá para cá, as perucas se tornaram mais realistas. As mais caras são feitas com fios humanos, que podem vir de várias partes do mundo, com variação de preço. Os fios brasileiros e europeus são os mais caros, uma vez que oferecem variações de tonalidades e toleram coloração. Há também os fios asiáticos, que ficam um degrau abaixo em termos de valor e não permitem descoloração completa em razão da alta pigmentação. Há ainda os cabelos sintéticos e as versões de composição mista.
Os materiais artificiais, como fibra orgânica ou futura, são mais baratos, mas também menos duráveis e versáteis, pois há limitações na hora de estilizar – esqueça modeladores e pranchas superquentes, por exemplo. Além das questões práticas, essas escolhas também se tornaram fontes de diversão e prazer.
"A partir do momento que a gente troca o cabelo, também muda a moldura do rosto. Nos vemos de outra forma, é muito divertido. E isso tudo sem ter que fazer química, um procedimento mais agressivo ou mesmo tintura. Nosso cabelo real vai estar cuidadinho lá embaixo", entende Stefany Silva, hairstylist e artista multidisciplinar.
A fixação da lace é chamada de instalação. A forma mais usada é posicionar e colar as áreas de tela no couro cabeludo e na pele. Primeiro, com o cabelo limpo e bem seco, os fios são trançados e bem presos à raiz. Em seguida, vem a fixação da peruca. Dois truques são importantes: manter as madeixas originais bem rentes ao couro cabeludo e, na lace, caprichar na hairline. Há quem mescle com a linha original, outras usuárias aplicam meio centímetro atrás. Se quiser, adicione toques de baby hair aqui e ali.
A depender da cola, o acessório pode permanecer ali por até 15 dias em segurança. Hoje, há vários tipos: em gel, líquida, spray. Não há atividades proibidas, mas especialistas desaconselham banhos de mar e de piscina. Se não estiver devidamente presa, é preciso evitar também a prática de esportes e atividades de alta velocidade.
O #LACECARE É REAL
Para além das técnicas de fixação e posicionamento, entra em cena também a necessidade de potencializar os cuidados com o cabelo original. "Ao usar as laces com cola, elas criam um efeito estufa: ambiente quente, escuro e úmido (em função da transpiração e oleosidade naturais), que pode levar à proliferação de bactérias e fungos causadores de problemas no couro cabeludo, como alergias e infecções. Já as aplicações sem cola permitem retirar a peruca no fim do dia, logo são as melhores aliadas para saúde capilar, uma vez que há intervalos para arejar a região", explica a tricologista angolana Dina Moreira.
Antes de colocar a lace, Dina indica a avaliação do estado do couro cabeludo: a profissional desencoraja o uso por quem tem histórico de dermatite seborreica ou qualquer outra disfunção da saúde capilar. Ela também sugere que, quando presas às tranças, não sejam fixadas muito apertadas em razão do risco de alopecia por tração.
Caso opte por utilizar as laces com cola, o primeiro passo é fazer um teste de alergia ao menos um dia antes da aplicação, bem como do removedor específico. "O ato de arrancar a peruca sem cuidados pode ferir ou sensibilizar a pele. Após removê-la, é necessário avaliar toda região em que a mesma estava colada e, se tiver sinais de inflamação, vermelhidão ou sensibilidade, a próxima aplicação deve ser adiada. Caso os sintomas persistam, também indico procurar ajuda médica", explica ela.
Após a remoção, a tricologista indica uma desintoxicação capilar feita a partir de uma limpeza profunda do couro cabeludo e dos fios. Aposte nas massagens para estímulo da circulação e alívio da tensão local — escovas específicas para o couro cabeludo são ótimas aliadas neste momento, mas cuidado com a força empregada nos movimentos. Na sequência, ela sugere um tratamento de hidratação para devolver a maleabilidade ao cabelo. Vale procurar no rótulo por ingredientes que reponham água e óleos naturais para nutrição da fibra, como o de rosa mosqueta e girassol.
Já para a peruca em si, Stefany prioriza a limpeza com uma linha adequada para a curvatura do fio, quando natural. Os sintéticos não se beneficiam dos produtos capilares, uma vez que não têm cutículas. Nesse caso, aposte num sabonete neutro e hidrate com amaciante para roupas. "Lave bem a raiz da tela e deixe secar naturalmente. Evite usar fontes de calor, como secador, chapinha e babyliss. Para armazenar, use um suporte para preservar o formato e guarde em um local que não entre pó nem seja úmido", finaliza a hairstylist. Na sequência, recomendamos um arsenal de produtos com bons ativos para ajudar nos cuidados.
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