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Jornada de beleza
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Por STEYONCÉ (@steyonce_n)

"Eu nunca fui a criança que gostava de maquiagem, mas minha mãe é cabeleireira e me levava, junto com minhas irmãs, para o salão de beleza em que trabalhava. Cresci mexendo e brincando com cabelo, unha, mas gostava mesmo era de desenhar.

Tive uma infância tranquila. Cresci na igreja, tinha poucos amigos, mas essa não era uma grande questão. Comecei a alisar meu cabelo com 6 ou 7 anos; não me sentia bonita na época. Sentia, na verdade, a opressão estética padronizada na pele, ainda na escola, por ser uma criança preta. Não conseguia me olhar no espelho e enxergar beleza nos meus traços. Hoje, eu amo meu nariz, por exemplo, mas fui muito zoada por isso.

Na adolescência, comecei a sair da periferia de Osasco, município vizinho de São Paulo, para frequentar o centro da capital. Lá, conheci pessoas como eu, que me ajudaram a crescer como indivíduo, iniciando a minha identificação com a negritude.

Steyoncé — Foto: Fernanda Pompermayer
Steyoncé — Foto: Fernanda Pompermayer

Fiz a transição capilar há cinco anos, inspirada pela minha irmã mais velha e pela admiração que sinto pela Beyoncé, minha grande referência. Fiquei quase sem cabelo, então, me olhava no espelho e só via meu rosto. Foi um longo e doloroso processo para me reconhecer, mas ouvir elogios me ajudava, e hoje sinto que consegui construir minha autoestima sem que precisasse de aprovação ou validação dos outros.

A maquiagem entrou na minha vida durante a pandemia, em 2020. Procurava algo para me distrair, fiz um curso de nail design, mas não tinha tempo ou dinheiro para comprar os materiais. Até que um dia comecei a fazer alguns delineados em mim e decidi assistir a Black Is King [filme musical dirigido, escrito e com produção executiva de Beyoncé]. Fiquei tão inspirada, me sentindo orgulhosa por ser uma mulher preta, que desenhei no meu próprio rosto a capa de seu álbum de origem, The Lion King: The Gift. Passei seis horas fazendo a minha primeira maquiagem artística e, desde então, não parei mais.

Steyoncé — Foto: Fernanda Pompermayer
Steyoncé — Foto: Fernanda Pompermayer

Nunca tive uma visão muito clara sobre meu futuro profissional,não sabia qual faculdade ou carreira seguiria... Cheguei a fazer um curso técnico de administração,trabalhei como recepcionista e, há seis anos, atuo em gestão de energia elétrica. Mas, a partir domomento que me encontrei na maquiagem, entendi que era a isso que dedicaria a minha vida. As coisas aconteceram no modo automático, não foi uma construção... minha relação com o pincel foi autodidata. Depois de um ano, parei para pensar sobre qual área tinha mais interesse, e não quis a maquiagem social porque sentia que perderia meu lado criativo. Eu costumo desistir muito fácil das coisas, mas insisti em construir a minha própria identidade.

Eu me apaixonei pela maquiagem artística e pela arte com arames e formas, e quando a gente se apaixona por algo que tem prazer, por mais difícil ou complicado que seja, é impossível largar. Hoje, meu trabalho é impulsionado e serve como referência, o que sem dúvidas contribui para minha autoestima intelectual e criativa. Quero inspirar as pessoas da mesma forma que a arte me inspira."

*Em depoimento à jornalista Carolina Merino (@caamerino)

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