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Jornada de beleza
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Por Sarah Aline (@sarah.aline)

"Sempre que falo sobre beleza, cabelo ou autocuidado, eu me esbarro em vários lugares, que hoje eu considero seguro e familiar, mas durante muito tempo, na minha vida e na minha construção de imagem, foram tópicos sensíveis.

Sendo uma mulher preta e psicóloga, aprendi muito sobre o mundo e a construção de sociedade a partir, sim, das minhas experiências, mas também a partir das pesquisas que fiz sobre mim, principalmente na adolescência. Antes disso, eu não me via ou não me enxergava como alguém que tinha beleza de alguma forma, que poderia ser bela.

E eu encontrava essa dificuldade por conta de ausências de referências, mas não dentro de casa. Cresci tendo uma irmã mais velha que sempre foi muito mais vaidosa do que eu e ela me influenciava de alguma forma a me cuidar. Mas quando eu olhava externamente, não achava nada bonito em mim.

A começar pelo meu cabelo, que não me sentia confortável em ir para escola. Evitava brincar em casa ou com as minhas amigas quando tinha água envolvida porque molhar o meu cabelo me dava uma ansiedade gigante, justamente porque o secar do crespo é totalmente diferente dos fios não crespos.

Foi muito difícil sair deste lugar onde eu não me arrumava justamente por não conseguir olhar para mim enxergando beleza. Mas, foi a partir do momento que eu comecei a cuidar da minha saúde emocional e mental, que eu me vi ciente da qualidade que eu poderia proporcionar para a minha vida e que eu fiz as pazes com sentimentos e realidades, que passei a entender que eu não merecia viver com tanta dor.

Sarah Aline — Foto: Glamour Brasil
Sarah Aline — Foto: Glamour Brasil

Só tive a oportunidade de ver a beleza da arte que é ser Sarah Aline quando me autoconheci e passei a falar sobre mim, isso me dava vontade de também me ver bela. Assim que comecei a fazer novos cabelos com tanta frequência. Quando a gente fala sobre ancestralidade, possibilidades de sobrevivência com resistência de pessoas pretas, podemos falar um pouco sobre a maneira na qual a gente tem de criar arte.

A tranças entraram num lugar na minha vida onde eu conseguia me reinventar e me sentir absolutamente linda. Na fase em que a transição não era uma realidade para mim, quando tinha muita vergonha de me imaginar com o cabelo curtinho e sem química, as tranças estiveram lá por mim.

Isso foi bom e ruim. Ruim porque eu sabia que no fundo estava me esquivando de algo que poderia ser curado, mas bom porque pude me conhecer neste processo e ver diferentes versões de mim mesma. Não precisava ter sido com tanta dor, com ausência de possibilidades e repressão causada pelo racismo sobre os nossos corpos e ausência de representatividade principalmente neste mercado da beleza.

As minhas crises hoje relacionado à arte de ser e existir são diferentes e a beleza não é mais um dos maiores gargalos, o meu cabelo não é mais um dos principais gargalos, muito pelo contrário, eu percebo que hoje, quando estou de alguma forma vulnerável, me conectar comigo mesma fazendo um novo cabelo e fazendo uma maquiagem, passando um tempo de qualidade comigo, me dá mais força pra lidar com situações.

Então o que antes era vulnerabilidade, de alguma forma encontrou verdade sobre mentiras contadas do sobre os nossos corpos e hoje soma mais ainda para que eu consiga viver e existir nessa sociedade, mostrando que tudo aquilo que eles construíram sobre mim é uma questão que precisa ser tratadas por eles e não necessariamente na minha essência, na minha individualidade.

sarah aline — Foto: glamour
sarah aline — Foto: glamour

Isso faz parte do meu processo de me conectar mais ainda com as histórias que talvez não nos são ensinadas, quando a gente fala sobre pessoas pretas e quando a gente fala de ancestralidade. Percebi que quanto mais conheço sobre a minha história, sobre a história dos meus, mais me potencializo para acreditar que outras meninas e mulheres pretas possam sentir essa conexão.

Hoje eu entendo e eu vejo a beleza, eu vejo que eu comecei a amar aquilo que já era meu, em características físicas, o meu cabelo, o meu rosto, a minha cor, a minha pele, a partir do momento em que eu comecei a dar respiro para o meu coração e devolver complexidades que não eram minhas e sim sociais e isso foi libertador, principalmente para minha saúde mental.

E o meu maior sonho e desejo é que as próximas meninas e mulheres negras que queiram falar sobre a beleza da arte dos nossos corpos, não precisem falar sobre dor, não precisem que o processo de encontrar beleza seja sempre baseado numa história de 'durante um tempo da minha vida eu tive que esconder, eu tive que me recriar, eu tive que tentar encontrar uma maneira de me sentir bela' ou que passe por histórias tristes de não ter oportunidades justamente por conta das características.

Essa é minha trajetória com a beleza, com a arte, de poder ser quem eu sou e eu só sei que eu pude cuidar externamente de me ver bela quando eu comecei a entender o processo e a necessidade de desmistificar mentiras contadas sobre a verdade da minha existência".

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