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Jornada de beleza
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"Dia desses lembrava daquele poema que o poeta nigeriano Wole Soyinka dedicou aos textos perdidos, o Lost Poems. Pensava nele enquanto refletia sobre o tempo que passamos sem acreditar em nossa escrita. Nesse tempo, foram inúmeras ideias de chuveiro, pensamentinhos antes de dormir, elaborações diante do espelho, diante da sopa — coisas assim, que se foram rápidas como vieram, escorridas pelas trocas de mensagem de texto com amigos, perdidas junto da paisagem que passa rápida e horizontal na janela de ônibus, na falta de propósito em anotar.

Penso que, se estou plenamente consciente desse desperdício, mas sigo incorrendo nele, mesmo acreditando no valor da nossa escrita, é porque existe algo de muito forte naquilo que nos convocou ao silêncio desde o primeiro livro.

É cansativo viver contra, e, porque escolhi a ternura como forma de fazer, sempre combinei mais com viver em paz. Em meio aos elementos em que mergulhei para escrever sobre raça e gênero, refleti tantas vezes que meu corpo era pequeno demais para comportar algumas contradições dessa maneira poética de elaborar a vida. O letramento formal colaborou para que não me fosse retirado o direito de alcançar, camada por camada — fina que seja — a complexidade que é parte da plenitude do que vim para ser. Tudo sentir, nomear se quiser, evitar se puder, ressentir se for o caso e, durante tudo, escrever. Essa lucidez lancinante de que às vezes me orgulho, da qual às vezes me encolho, abraçando os joelhos num canto da sala.

Luciene Nascimento — Foto: Franklin Almeida/ Glamour Brasil
Luciene Nascimento — Foto: Franklin Almeida/ Glamour Brasil

Quem, depois de saber, se arrependesse,
se tudo esquecesse,
viveria uma forma mais simples e rústica
de infelicidade.

O conjunto de coisas que me ocorrem no corpo é fruto do que vi, e o que vi é menos que pouco: é mínimo, tosco. Meu grande dilema é associar tamanha pequenez à divindade que minha ancestralidade reclama em mim. E se não? O problema é que, se não, se nada de divino aqui houver, eu acredito tão imediatamente nisso que, num instante, as atrocidades do mundo-caos ao meu redor me comem as bordas frias e acessam meu núcleo quente. Se sim, se acredito, preservo tudo, em adoração à contradição provocativa deste divino instigante que me fez como fez, para que eu, que quase nada vi, me movimente cada dia mais para ver e dizer do que vi, como sempre soube fazer. No exercício do dilema — sou divina ou nada sou, sou divina ou nada sou —, no balanço da corda bamba, trabalho o corpo, fortaleço-o, olho para todos os lados, pois não há esforço de equilíbrio sem movimento. Tremulejo, conquisto, regozijo. Distraio-me, balanço, me procuro novamente.

Neste corpo muito pequeno para decidir, passo cem anos ou menos achando o que quiser, quando a verdade é revelada diariamente pela perspectiva tão única de um corpo erguido da terra para caber exatamente o que viu, que é menos que pouco, mas talvez o bastante para que preserve o núcleo quente de si. O paraíso é meu núcleo quente dilatado. Meu desejo é que não percamos o rumo do paraíso, Luciene do futuro. Nem de vista tudo aquilo que nos aquece".

Luciene Nascimento — Foto: Franklin Almeida/ Glamour Brasil
Luciene Nascimento — Foto: Franklin Almeida/ Glamour Brasil

Fotos: Franklin Almeida.
Styling: Salisa Barbosa.
Beleza: Ju Coelho.
Designer: Manoela Morel.
Edição de arte: Lori Baroni Bosio.
Set design: Letícia Ribeiro.
Manicure: Sônia Lima.
Coordenação de produção: Octávio Duarte (ODMGT).
Produção executiva: Eduarda Heinlik (ODMGT).
Assistentes de fotografia: Murilo Stabile e Isaac Smith.
Assistente de styling: Rafaela Branco.
Produtora de moda: Aline Livra.
Assistentes de set design: Bruna Costa, Larissa Ribeiro e Victor Ribeiro.
Camareira: Ana Lúcia dos Santos Polizel

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