Luciene Nascimento: "O conjunto de coisas que me ocorrem no corpo é fruto do que vi, e o que vi é menos que pouco: é mínimo, tosco"
Autora de Tudo Nela É de Se Amar: A pele que habito e outros poemas sobre a jornada da mulher negra, Luciene é advogada, poeta e ativista cultural. Em seus textos, aborda questões de raça, gênero, periferia e afetos. Nesta carta para si mesma, ela divide seu processo de cura, empoderamento e emancipação da autoestima a partir da escrita
"Dia desses lembrava daquele poema que o poeta nigeriano Wole Soyinka dedicou aos textos perdidos, o Lost Poems. Pensava nele enquanto refletia sobre o tempo que passamos sem acreditar em nossa escrita. Nesse tempo, foram inúmeras ideias de chuveiro, pensamentinhos antes de dormir, elaborações diante do espelho, diante da sopa — coisas assim, que se foram rápidas como vieram, escorridas pelas trocas de mensagem de texto com amigos, perdidas junto da paisagem que passa rápida e horizontal na janela de ônibus, na falta de propósito em anotar.
Penso que, se estou plenamente consciente desse desperdício, mas sigo incorrendo nele, mesmo acreditando no valor da nossa escrita, é porque existe algo de muito forte naquilo que nos convocou ao silêncio desde o primeiro livro.
É cansativo viver contra, e, porque escolhi a ternura como forma de fazer, sempre combinei mais com viver em paz. Em meio aos elementos em que mergulhei para escrever sobre raça e gênero, refleti tantas vezes que meu corpo era pequeno demais para comportar algumas contradições dessa maneira poética de elaborar a vida. O letramento formal colaborou para que não me fosse retirado o direito de alcançar, camada por camada — fina que seja — a complexidade que é parte da plenitude do que vim para ser. Tudo sentir, nomear se quiser, evitar se puder, ressentir se for o caso e, durante tudo, escrever. Essa lucidez lancinante de que às vezes me orgulho, da qual às vezes me encolho, abraçando os joelhos num canto da sala.
Quem, depois de saber, se arrependesse,
se tudo esquecesse,
viveria uma forma mais simples e rústica
de infelicidade.
O conjunto de coisas que me ocorrem no corpo é fruto do que vi, e o que vi é menos que pouco: é mínimo, tosco. Meu grande dilema é associar tamanha pequenez à divindade que minha ancestralidade reclama em mim. E se não? O problema é que, se não, se nada de divino aqui houver, eu acredito tão imediatamente nisso que, num instante, as atrocidades do mundo-caos ao meu redor me comem as bordas frias e acessam meu núcleo quente. Se sim, se acredito, preservo tudo, em adoração à contradição provocativa deste divino instigante que me fez como fez, para que eu, que quase nada vi, me movimente cada dia mais para ver e dizer do que vi, como sempre soube fazer. No exercício do dilema — sou divina ou nada sou, sou divina ou nada sou —, no balanço da corda bamba, trabalho o corpo, fortaleço-o, olho para todos os lados, pois não há esforço de equilíbrio sem movimento. Tremulejo, conquisto, regozijo. Distraio-me, balanço, me procuro novamente.
Neste corpo muito pequeno para decidir, passo cem anos ou menos achando o que quiser, quando a verdade é revelada diariamente pela perspectiva tão única de um corpo erguido da terra para caber exatamente o que viu, que é menos que pouco, mas talvez o bastante para que preserve o núcleo quente de si. O paraíso é meu núcleo quente dilatado. Meu desejo é que não percamos o rumo do paraíso, Luciene do futuro. Nem de vista tudo aquilo que nos aquece".
Fotos: Franklin Almeida.
Styling: Salisa Barbosa.
Beleza: Ju Coelho.
Designer: Manoela Morel.
Edição de arte: Lori Baroni Bosio.
Set design: Letícia Ribeiro.
Manicure: Sônia Lima.
Coordenação de produção: Octávio Duarte (ODMGT).
Produção executiva: Eduarda Heinlik (ODMGT).
Assistentes de fotografia: Murilo Stabile e Isaac Smith.
Assistente de styling: Rafaela Branco.
Produtora de moda: Aline Livra.
Assistentes de set design: Bruna Costa, Larissa Ribeiro e Victor Ribeiro.
Camareira: Ana Lúcia dos Santos Polizel









