Como a inteligência artificial torna a beleza mais acessível para pessoas com deficiência
As iniciativas ainda despontam com timidez, mas ferramentas têm mudado o jogo, acelerando os processos e o desenvolvimento de soluções. Investigamos o cenário e entregamos as novidades aqui
Por Carolina Merino (@caamerino)
Ao procurar por "acessibilidade" no dicionário, você encontrará que se trata da qualidade do que é de fácil aproximação, obtenção e acesso. Já para o Conselho Nacional do Ministério Público brasilerio, o significado é ainda mais amplo e pode ser definido como a possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para a utilização, em igualdade de oportunidades, com segurança e autonomia, do meio físico, do transporte, da informação e da comunicação. Bem, mas o que isso tem a ver com o universo da beleza? Na verdade, deveria se relacionar com todo tipo de objeto, serviço e espaço em que vivemos, principalmente na indústria que mobiliza uma receita de US$ 22,9 bilhões, de acordo com a ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos). Então, quão os produtos de beleza, bem como serviços, estão realmente preparados para atender pessoas com algum tipo de deficiência? Se depender da tecnologia e da inteligência artificial, essa resposta será cada vez mais positiva.
A engenheira de software Geisa Farini, de 36 anos, é deficiente visual. Ela conta que começou a se interessar pelo universo da beleza ainda na adolescência. "Queria me sentir incluída, igual a todo mundo. Quando minhas amigas falavam sobre maquiagem, pó compacto ou batom, não sabia do que se tratava inicialmente, mas a curiosidade fez com que eu perguntasse para as minhas irmãs, que então passaram a me maquiar e foram me ensinando para que eu tivesse mais autonomia", conta. À época, sequer existiam conteúdos voltados para pessoas como ela na internet, mas isso não a impediu que acompanhasse os tutoriais e criasse os próprios mecanismos para identificar os produtos na penteadeira.
Em 2018, ela decidiu inaugurar um canal no YouTube, por incentivo de familiares e amigos, para compartilhar um pouco do seu dia a dia. "Eu não queria ser exemplo de superação por algo que, para mim, é natural. Não mostro a minha vida para sensibilizar as pessoas. Quero provar que consigo fazer tudo o que quiser com autonomia, se me derem as ferramentas necessárias", diz. Ela faz parte de um contingente de 18,6 milhões de brasileiros que desejam o mesmo: de acordo com o último censo do IBGE e pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), 8,9% da população com 2 anos ou mais é PCD, sendo 6,5 milhões com deficiência visual, abrangendo pessoas cegas ou com baixa visão.
Há quatro anos trabalhando como influenciadora digital, a designer gráfico Marina Melo Abreu, de 20 anos, nunca foi contratada para promover algum produto de maquiagem em suas redes sociais por meio de publicidade remunerada, embora foque boa parte do conteúdo nesse assunto. Apesar de ser consultora de acessibilidade para marcas de beleza, ela revela que ainda há alguma resistência às sugestões de mudança neste mercado. "A gente não consegue nem entender o porquê isso acontece. E essa resposta me fez pensar que precisava, de alguma forma, mostrar para elas que pessoas com deficiência também são um público consumidor", explica.
Marina possui atrofia muscular espinhal (AME), uma doença genética rara que gera fraqueza muscular e limitação dos movimentos, e decidiu, então, criar a campanha "Beleza Acessível". O projeto tem como objetivo não só incentivar outras pessoas com deficiência a experimentarem produtos e investirem no autocuidado, mesmo com a ajuda de alguém, mas também investigar se embalagens e fórmulas estão sendo pensadas para este público. Ela analisa se é possível aplicar sozinha um blush com um pincel sem deixar manchas nas bochechas, se a máscara para cílios permite uma abertura sem dificuldades ou com a ajuda dos dentes, se o comprimento do aplicador do batom é longo o bastante e se a textura do bastão facilita sua passagem nos lábios, entre outros exemplos.
As duas são símbolo de como as adaptações precisam vir de quem vive o problema, em vez de ter soluções ofertadas pelo mercado, na maior parte das vezes. À própria maneira, cada uma criou alguns mecanismos para diferenciar os itens sozinha, já que a grande maioria das embalagens não possui texturas distintas ou impressão em braile, por exemplo. No caso de batons em dois tons diferentes, Geisa adiciona um strass ou adesivo de pérola em uma das cores para guiá-la durante a escolha. Já para usar uma paleta que possui mais de dez sombras, ela pede para que uma amiga grave um áudio descrevendo os tons da esquerda para a direita e de cima para baixo. Um comando de voz ativado no próprio software do celular identifica a gravação pelo nome e ela consegue decidir qual será o tom utilizado. "Ainda falta o básico, como um QR code diretamente impresso no produto para que possamos apontar a câmera do celular e ouvir sobre a textura, entender para que ele serve ou instruções de como aplicar, por exemplo", recomenda.
Já Marina tem uma observação treinada para encontrar embalagens mais práticas ao acaso, ou seja, que nem sempre foram desenvolvidas com esse propósito. "Tenho encontrado muitos produtos acessíveis por acidente. Por coincidência, a embalagem é mais fácil de abrir ou tem uma textura que ajuda a pessoa com deficiência", relata. Como elas provam, a inovação mora mesmo nos detalhes, e há novos elementos para mudar o jogo, a começar pelo bom uso da tecnologia. É o caso do HAPTA, aparelho desenvolvido pela Lancôme e o Grupo L'Oréal, apresentado na feira de tecnologia Consumer Electronics Show 2023 (CES), em Las Vegas. Trata-se de um aplicador de maquiagem portátil e ultrapreciso, como um bastão articulado em que a pessoa segura na base para aplicar o batom após configurar a exata posição que deseja. A ponta em que o produto é encaixado permite 360 graus de rotação e 180 graus de flexão para facilitar a aplicação em detalhes por quem tem mobilidade reduzida. Com um recurso de "clique", o usuário define a posição do produto antes de passar e ele assim continuará durante todo o período de aplicação, sem escorregar ou soltar do aparelho.
Outro desenvolvimento que merece destaque na seara da maquiagem é o Brow Magic, um gadget criado também pela L'Oréal que promete entregar resultados profissionais em casa. A "impressora" de sobrancelhas possui 2.400 pequenas agulhas e tecnologia com resolução de até 1.200 gotas por polegada. O aplicador escaneia o rosto do usuário e recomenda a melhor técnica para preenchimento, um facilitador para quem deseja estilizar a região com make. Ambas as criações ainda não têm data de chegada ao público final, mas apontam caminhos possíveis.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ENTROU NO CHAT
Para além de aplicativos, como Chat GPT, na IA reside a possibilidade de aceleração do desenvolvimento de ferramentas para acessibilidade. É o caso de sistemas de reconhecimento de voz que permitem aos usuários com dificuldades motoras controlar dispositivos e interfaces por meio de comandos falados. Os algoritmos de visão computacional, por sua vez, desenvolvem sistemas de descrição automática de imagens e vídeos para pessoas com deficiência visual, tornando o conteúdo digital mais acessível.
Os bons exemplos alcançaram o mercado de beleza. No fim do ano passado, a Estée Lauder Companies criou o aplicativo Voiceenabled Makeup Assistant (VMA, assistente de maquiagem ativado por voz, em tradução para o português), para ajudar pessoas cegas e com baixa visão a se maquiarem. Durante o processo de desenvolvimento, o time da companhia entendeu que muitas vezes essa comunidade precisava enviar selfies a familiares e amigos para conferirem o resultado da produção de beleza em troca de um feedback honesto. O app preenche essa lacuna, usando inteligência artificial e realidade aumentada para analisar o make do usuário por meio de comandos de voz.
No Brasil, outra novidade recente ajuda as usuárias a ter mais autonomia na hora de comprarem itens de maquiagem da empresária Bruna Tavares. O app Colorfeel, criado em parceria com a Fundação Dorina Nowill para Cegos, une a IA para articular nuances de cada tom de uma maneira fácil e perceptível. Com descrições auditivas, os usuários recebem recomendações de blush, batom e sombra que complementam e harmonizam de acordo com o tom de pele e gosto pessoal. Ao final da experiência, os clientes são apresentados ao tom perfeito de make dentro do portfólio da Linha Bruna Tavares, com um direcionamento facilitado de compra. "As marcas estão cada vez mais atentas à importância da inclusão e acessibilidade em suas campanhas publicitárias e comunicações, especialmente quando se trata de alcançar pessoas com deficiência visual. Na minha opinião, o cenário tem melhorado, porém há muito a ser feito", diz Carla de Maria, gerente de soluções em acessibilidade da fundação.
Em junho, a Kérastase apresentou a primeira iniciativa de diagnóstico capilar por comando de voz no País. A interação com a assistente virtual da Amazon é ativada por meio da frase "Alexa, Diagnóstico Capilar", que devolve perguntando as principais questões capilares dos usuários e recomenda a melhor linha de tratamento de acordo com a interação. Embora não tenha sido pensada para pessoas com deficiência, é um exemplo do que ainda pode ser feito em termos de conectividade com aparelhos que já estão em lares brasileiros.
O Grupo Boticário tem sido um pioneiro ao criar iniciativas pensadas para o público PCD. Em dezembro de 2023, eles já haviam desenvolvido uma linha de pincéis projetada para pessoas com qualquer nível de deficiência visual ou baixa visão, que possuía marcações táteis identificadas em alto-relevo na base (com símbolos como bolinhas, círculos e quadrados). Há cinco anos, os times também vêm trabalhando no protótipo do "Batom Inteligente", um equipamento que usa inteligência artificial para que o device consiga, através de uma combinação sofisticada de sensores e algoritmos, identificar os lábios do usuário e aplicar o batom com precisão e uniformidade.
"Os cientistas da área de pesquisa e desenvolvimento do grupo conduziram vários testes e ajustamentos no protótipo baseados no feedback dos usuários, garantindo que o dispositivo atendesse de forma eficaz às necessidades e expectativas dos participantes. Ainda que não seja um produto comercializado, o Batom Inteligente é uma conquista coletiva, pois além de representar um avanço tecnológico, também é um passo importante na direção de uma sociedade mais inclusiva e diversa", afirma Gustavo Dieamant, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Boticário.
Se sonhos pudessem se tornar verdade, Marina Melo desejaria ter um aparelho ativado por voz e alimentado por IA que a ajudasse a pegar, abrir e aplicar seus produtos de maquiagem e skincare, sem a ajuda de outras pessoas. Como projeto de TCC da faculdade de design gráfico, Mari também desenvolveu a ideia de uma marca de make totalmente inclusiva e agora reúne recursos para trazer os planos para a vida real. Já Geisa idealiza um aplicativo que descreva a cor dos produtos e indique a função de cada item. "Pessoas com deficiência são economicamente ativas, e as marcas perdem dinheiro ao não pensar nelas. Todo mundo ganha com um produto acessível e pensado para PCDs", finaliza a engenheira. Quem será a primeira fada-madrinha a realizá-los?









