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Maquiagem
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Na busca por cílios mais longos, sobrancelhas mais cheias ou uma pele perfeitamente hidratada, é comum nos esquecermos de que a região dos olhos é uma das áreas mais sensíveis e delicadas do corpo. Recentemente, relatos de reações adversas causadas por um sérum para cílios viralizaram nas redes sociais e acenderam um alerta: você sabe o que pode – e o que não pode – ser aplicado tão próximo aos olhos e como evitar a sensibilização?

Não é à toa que cosméticos desenvolvidos para essa região passam por uma série de testes rigorosos antes de chegar ao mercado. Além da pele ser extremamente fina, a região abriga estruturas sensíveis como a córnea e as glândulas de Meibômio, que exigem cuidados redobrados. Quando algo dá errado, seja escorrendo ou entrando em contato com os olhos, o impacto pode ir muito além de uma simples ardência, sendo capaz de escalonar para inflamações, lesões e até perda parcial da visão.

Para entender por que a região periocular é tão vulnerável e quais cuidados devemos ter ao aplicar produtos nessa área, conversamos com uma equipe de especialistas – o oftalmologista Gustavo Bonfadini, a dermatologista Camila Sampaio Ribeiro e as farmacêuticas Karina de Castro Pereira e Lorena Gaspar – para reunir todas as informações que você precisa antes de usar qualquer cosmético nos cílios, sobrancelhas e pálpebras.

Por que os olhos exigem atenção máxima?

De acordo com a farmacêutica e pesquisadora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP), a pele ao redor dos olhos tem uma camada de proteção, o estrato córneo, mais fina que as demais áreas, tornando-a mais sensível a irritações. Além disso, a localização dessa região tem maior chance de entrar em contato direto com os olhos. “A córnea e a conjuntiva, que revestem a parte do olho exposta ao ambiente, são mais vulneráveis a danos que a pele. Assim, produtos seguros para a pele podem não ser seguros para os olhos”, explica Karina. “A córnea ainda recobre a íris e a pupila e é fundamental para a visão. Qualquer dano que afete sua transparência pode causar perda visual, dependendo da localização”.

O oftalmologista Gustavo Bonfadini, especialista em cirurgia de catarata e doutor pela UNIFESP, reforça que o uso inadequado de cosméticos podem desencadear uma série de problemas oculares. “Aplicar maquiagem ou séruns muito próximos à linha dos cílios pode comprometer glândulas importantes, como as de Meibômio, que produzem a camada lipídica da lágrima e mantém os olhos devidamente lubrificados”, alerta ele. “Essas obstruções, contaminações e reações inflamatórias podem levar a quadros como blefarite – é a inflamação das pálpebras que causa vermelhidão, coceira e irritação, podendo apresentar escamas ou crostas –, olho seco e até ceratite – é a inflamação da córnea, geralmente causada por infecções ou lesões”.

Quais testes garantem a segurança de produtos para os olhos?

Se engana quem pensa que qualquer hidratante ou sérum pode ser usado indiscriminadamente na região ocular. Cosméticos específicos para pálpebras, cílios e sobrancelhas são submetidos a protocolos de segurança rígidos exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “A Anvisa exige uma série de testes de segurança para produtos destinados à área dos olhos, incluindo avaliação de irritabilidade dérmica primária, sensibilidade cutânea, fotoalergia e fototoxicidade. Além disso, produtos voltados para essa região também devem passar por testes clínicos com acompanhamento oftalmológico”, detalha a dermatologista Camila Sampaio.

Durante muitos anos, o Teste de Draize – que consiste em aplicar substâncias nos olhos ou na pele de um animal vivo para avaliar os sinais de irritação, como vermelhidão e inchaço – foi o método padrão para a avaliação pré-clínica de irritação ocular. Porém, nas últimas décadas, houve um grande desenvolvimento de estudos alternativos ao uso de animais, utilizando apenas órgãos isolados, células ou tecidos cultivados em laboratório para estudar os possíveis efeitos tóxicos.

De acordo com Karina, um dos exemplos de órgãos isolados são as córneas bovinas, que já seriam descartadas nos abatedouros animais de qualquer forma, sendo assim, nenhum animal morre em decorrência do teste. O material retirado permite avaliar um possível branqueamento da córnea que pode levar à perda da visão. “Também existem os testes em modelos de córnea humana artificial feitos em laboratório e em células de córnea de coelhos, que podem ser cultivadas em laboratórios e usadas para a avaliação da toxicidade de ingredientes e produto final”, detalha Karina. A partir disso, quando os produtos são considerados seguros nesses testes, podem ser testados em humanos sob supervisão de um oftalmologista e, caso sejam aprovados, recebem no rótulo o aviso de “oftalmologicamente testado”.

Como são feitos os testes de estabilidade para garantir que o produto não degrade e cause danos?

Os testes de estabilidade são feitos antes e depois do armazenamento das formulações em condições específicas de temperatura, umidade e luminosidade, simulando condições de armazenamento desses produtos durante sua vida útil. “As formulações são avaliadas quanto à aparência, odor, características físico-químicas e, em alguns casos, dosagem dos componentes para confirmar se houve degradação”, diz a farmacêutica. “Também é realizado um teste microbiológico para verificar se houve o crescimento de fungos e bactérias no produto, confirmando se o conservante foi bem selecionado”. Esses testes são importantes para determinar o prazo de validade, o melhor tipo de embalagem para a formulação e em quanto tempo após aberto o produto deve ser utilizado. “A atenção para as recomendações do fabricante em relação a esses parâmetros é fundamental para evitar reações adversas aos cosméticos”, alerta ela.

Como são realizados os testes de irritação cutânea e aceitabilidade periorbital?

Os testes de irritação cutânea e aceitabilidade periorbital são realizados em voluntários sob controle dermatológico e, muitas vezes, com avaliação oftalmológica. “O produto é aplicado de forma repetida na região periocular e os profissionais observam reações como vermelhidão, ardência, coceira ou formação de pápulas. A ausência desses sinais determina a segurança para o uso”, aponta a dermatologista

Quais ingredientes geralmente são evitados em cosméticos destinados a pálpebras, cílios e sobrancelhas para reduzir o risco de irritação?

Segundo as farmacêuticas Karina e Lorena, componentes potencialmente irritantes ou alergênicos devem ser evitados, como o etanol, fragrâncias e produtos com pH diferentes do neutro. “É preciso tomar cuidado com algumas classes de ingredientes, como conservantes, silicones e tensoativos, que devem ser bem selecionados. A Anvisa possui resoluções que indicam quais são as classes permitidas e as concentrações máximas de uso”, esclarecem. Também é de suma importância que o fabricante do produto tenha um controle rigoroso de qualidade dos ingredientes e do produto final, controlando os níveis de possíveis impurezas e contaminações.

Produtos “oftalmologicamente testados” são mais seguros?

Sim, de forma geral, eles são mais seguros. De acordo com o oftalmologista Gustavo Bonfadini, os produtos que possuem o selo “oftalmologicamente testado” passaram por avaliações clínicas supervisionadas por oftalmologistas, geralmente em voluntários para verificar se ele poderia causar irritação, alergia ou alterações na superfície ocular. “O selo não significa ausência total de risco, mas há uma redução significativa na chance de reações adversas, especialmente quando usados corretamente”, afirma ele.

Como aplicar cosméticos nos olhos com segurança?

  • O ideal é aplicar o produto com mínima quantidade, sempre na base dos cílios e nunca na margem interna da pálpebra;
  • Evite o uso se o olho estiver irritado, vermelho ou com qualquer lesão;
  • Não aplique produtos nos olhos antes de dormir, para evitar o escorrimento com o calor corporal;
  • Sempre lave as mãos antes e depois da aplicação;
  • Busque produtos que sejam testados oftalmologicamente e que possuam uma formulação hipoalergênica, reduzindo o risco de reações alérgicas.

O que pode acontecer se um produto escorrer para dentro dos olhos, seja por suor, chuva ou ao lavar o rosto?

Se um produto escorrer para os olhos, pode provocar desde leve ardência até conjuntivite química, dependendo da composição. “Ingredientes como conservantes, fragrância ou ácidos podem desencadear irritações imediatas, além de favorecer o ressecamento ocular ou, em casos mais graves, inflamação da conjuntiva”, declara a dermatologista Camila Sampaio.

E, para prevenir que os produtos entrem em contato com os olhos, o oftalmologista Gustavo Bonfadini recomenda:

Dormi de maquiagem, e agora?

Dormir com maquiagem ou séruns pode aumentar significativamente o risco de sensibilização dos olhos. Durante o sono, há maior tempo de contato contínuo com o produto, favorecendo a penetração de substâncias sensibilizantes. “Além disso, a maquiagem nos cílios pode obstruir os folículos, levando a inflamações como blefarite ou até perda dos cílios”, destaca Camila. “Produtos mal removidos também acumulam resíduos que comprometem a barreira cutânea da região ocular”.

Sinais de alerta: quando procurar um oftalmologista?

Se mesmo com todos os cuidados algum produto escorrer para os olhos, fique atenta a sinais como:

  • Ardência intensa;
  • Vermelhidão persistente;
  • Dor ocular;
  • Sensação de corpo estranho;
  • Visão turva ou embaçada.

Gustavo Bonfadini recomenda, em primeiro momento, lavar intensamente os olhos com água corrente ou, se possível, água filtrada e buscar atendimento oftalmológico de emergência. Em muitos casos, pode ser necessário o uso de colírios anti-inflamatórios, antibióticos, lubrificantes e até corticoides, além de acompanhamento especializado.

“Por mais que um produto seja ‘leve’, ele pode causar uma reação tóxica ou alérgica se atingir estruturas sensíveis como a córnea ou a conjuntiva. Dentre as sequelas, elas podem variar desde recuperação total até complicações como cicatrizes corneanas, olho seco crônico, infecções secundárias e, em casos extremos, perda parcial e até permanente da visão”, explica o oftalmologista. “É importante reforçar a importância de usar apenas produtos testados clinicamente, especialmente na região dos olhos. Sempre consulte o seu oftalmologista e se atente se o produto é oftalmologicamente testado”, finaliza Gustavo Bonfadini.

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