Universitárias desenvolvem modelador de cachos para quem está em transição capilar
Time feminino de empresa júnior da UFRJ trabalhou por seis meses em protótipo que promete definição com danos aos fios reduzidos, conheça os detalhes!
Por Guga Santos
Três estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) chegaram, depois de mais de seis meses de projeto, a uma solução que promete ajuda futura (e bem-vinda) a quem passa pelo processo de transição capilar. A partir de proposta lançada à empresa júnior da instituição, Carolina Chacon (estudante de engenharia mecânica), Raquel Cavalcanti (engenharia nuclear) e Amanda Santoro (engenharia naval) desenvolveram o protótipo do EcoCachos, modelador de cachos dedicado a trato mais suave dos fios.
Quem levantou o desafio foi Thamyris Costa, estudante de engenharia civil que sentiu os efeitos de um 2020 difícil até a ponta dos cabelos. Após propôr o desafio, o grupo investigou aparelhos e patentes já existentes para traçar o modelo que combina formato similar a um babyliss tradicional e tecnologia com jatos de ar de temperaturas quentes, mas nem tanto, para evitar danos capilares durante o uso.
"Temos muito orgulho de sermos a primeira equipe inteiramente feminina da coordenação de mecânica, naval e materiais, e ainda mais em trabalho dedicado a outra mulher", conta Carolina sobre atuação na Fluxo Consultoria Jr., hoje integrante da Brasil Júnior, confederação brasileira de empresas juniores também presidida por nome feminino.
"Fico muito feliz com o projeto, principalmente pelo empoderamento que fomenta. Serve como ótimo exemplo de como as empresas juniores apoiam o desenvolvimento do empreendedorismo e unem inovação e qualidade das instituições de ensino superior às dores de micro e pequenos empreendedores brasileiros", ressalta Fernanda Amorim, presidente da associação.
As quatro participantes detalharam à Glamour os desafios da missão e suas visões sobre a presença feminina nas áreas de atuação. Como inspiração, ainda apontaram nomes famosos que ajudam a guiar suas jornadas profissionais. Leia a entrevista completa na sequência!
Como surgiu a ideia para o projeto?
Thamyris: Sempre fui extremamente vaidosa com cabelo a ponto de decidir ir a qualquer lugar somente se ele estivesse bom no dia, uma prisão psicológica. No ano passado, senti nos cabelos os dias difíceis que vivi em torno da pandemia e de crises econômica e pessoal. Fiquei ainda mais dedicada à transição, gastando horas e horas com procedimentos caseiros, alguns doloridos... estava cansada de ter que começar do zero, de encarar “o corte”, a baixa na autoestima, a vergonha... Depois de muita pequisa, pensei 'por que não inventam um equipamento para que a gente não precise cortar o cabelo ou que ele não mude tanto como, por exemplo, com o alisamento com prancha, sem ressecamento, pontas duplas ou queda?
Como a equipe da Fluxo Consultoria recebeu o desafio?
Carolina: Eu e minhas colegas de equipe nos encantamos com a ideia logo de cara. A Thamyris queria algo de baixo custo e que atendesse a todas as pessoas com este perfil. A partir disso, começamos o desenvolvimento da máquina. À todo momento trocamos com ela que, no final, se tornou consultora e realizadora do projeto junto com a gente.
Amanda: Partimos em seguida para a criação de um MVP (minimum viable product) para contornar a busca por investidores para o projeto. Durante o desenvolvimento, enfrentamos desafios como, por exemplo, na utilização de software de simulação, do qual precisamos para simulação térmica, de fluxo de ar e de queda. Tal software ainda era pouco utilizado pela empresa júnior, obtivemos ajuda de uma ex-membro da área e também de um professor da Engenharia Mecânica da UFRJ.
Quais inovações levaram para o protótipo?
Carolina: A ideia em si já tem um viés e uma preocupação muito inovadores, o mercado não pensa em modeladores para mulheres em transição capilar. O grande diferencial dos itens já existentes no mercado é a não danificar a estrutura dos fios do cabelo ao modelar os cachos. Também vale citar a versatilidade no design, já que abraça diferentes possibilidades de curvaturas para diferentes tipos de cachos.
Raquel: Nós ainda estamos na fase de prototipagem. Como estamos lidando com um produto que não pode alcançar temperaturas muito altas, precisamos garantir que o circuito elétrico e o funcionamento interno do EcoCachos gere fluxo de ar aquecido na medida exata. O produto tem outra particularidade, sua saída de ar através de orifícios, o que o torna ainda mais desafiador pela relação entre tamanho e quantidade dos furos vs. fluxo de ar mais uniforme possível para modelar as mechas por igual.
Como vê a falta de soluções inovadoras no segmento de beleza feminina?
Thamyris: Estão aumentando, mas percebo muitas como apenas momentâneas. Por exemplo, se uma mulher em transição capilar precisar viajar a lazer, ela preparará seu cabelo de forma que terá que optar entre ir à praia e entrar no mar ou sair com o cabelo maravilhoso à noite; dependendo do lugar, as duas coisas são impossíveis juntas. Com soluções como o EcoCachos vejo mulheres economizando tempo, dinheiro e se livrando na medida do possível da vigilância em torno dos danos aos cabelos.
Qual é a próxima fase do projeto?
Raquel: Após finalizar a montagem do protótipo, o mesmo deverá passar por testes tanto mecânicos, térmicos e de fluidodinâmica para garantir que funciona como o esperado. Finalizados testes e ajustes, Thamyris estará pronta para prospectar investidores para colocar o EcoCachos no mercado.
Como sentem a presença feminina no ramo em que se preparam para atuar?
Carolina: Com o passar do tempo, as mulheres estão cada vez mais presentes na engenharia e em cargos de liderança. Vemos isso dentro da Fluxo Consultoria; há poucos anos, a coordenação da área de mecânica era composta majoritariamente por homens. Hoje, já é algo bem mais diversificado a ponto de ser possível uma equipe completamente feminina realizar um projeto como o nosso, fomos o primeiro time feminino a desenvolver um projeto de mecânica na empresa da UFRJ. Nossa presidente também é mulher. Entretanto, algumas pessoas, infelizmente, ainda acreditam que temos menos conhecimento na área por sermos mulheres. É uma batalha que ainda não vencemos.
Amanda: Dentro da Fluxo Consultoria, o projeto foi recebido por todos com muito carinho e dedicação, principalmente por ser o sonho de vida da cliente. Mas vejo uma diferença notável: os homens universitários possuem poucos conhecimentos sobre esse tipo de assunto e, por consequência, não seria um tipo de máquina com a qual pensariam em trabalhar. Nós, mulheres na engenharia, nos vemos mais abertas para encarar desafios e desbravar novos horizontes.
Quais nomes femininos de áreas de atuação relacionadas ao projeto têm como inspiração?
Carolina: An Verhulst-Santos, CEO da L'oréal Brasil, por ter alcançado posto tão habitualmente dominado por homens, e a Bianca Andrade pelo império construído com dedicação.
Raquel: Como faço engenharia nuclear, não posso deixar de citar Marie Curie e Lise Meitner, cujas contribuições foram de suma importância para a ciência como um todo.
Amanda: Através da arte tive a oportunidade de acompanhar mulheres incríveis como Emma Watson, que usa imagem para realizar diferentes tipos de ações para o bem das mulheres e da humanidade como um todo.









