Apenas uma garota? Como a estética ultrafeminina pode reforçar os padrões de gênero
Embalados pelo hit "Just a Girl", vídeos no TikTok retomam a ultrafeminilidade e colocam o universo das garotas no centro da pauta. Estaríamos nós diante da valorização de algo antes considerado fútil ou apenas reforçando padrões conservadores de gênero?
Quando Simone de Beauvoir escreveu O Segundo Sexo, em 1949, poucas linhas depois da famosa frase "não se nasce mulher, torna-se mulher", ainda na mesma página, descreveu: "Às meninas vestem-nas com roupas macias como beijos, penteiam-nas com cuidado, divertem-se com seus trejeitos e seus coquetismos. Aos meninos, ao contrário, proíbe-se o coquetismo". Embora o texto esteja prestes a completar 75 anos, basta abrir o TikTok para perceber que ele permanece atual. Na plataforma, milhares de vídeos de mulheres adultas reforçam a ideia de que existem "coisas de menina".
"Já imaginou que horror ser homem e não poder ser obcecado por cafezinhos caros, blush cremoso, Sabrina Carpenter, girl's night, Aperol Spritz e sale na Zara?", brinca uma influenciadora brasileira em um dos vídeos. Outros itens, como arranjos de flor, velas aromáticas, coleção de lip balms e uma infinidade de acessórios brilhantes aparecem ligados à trend. Tudo isso ao som da música "Just a Girl", da banda No Doubt, formada por cinco homens e apenas uma mulher, a vocalista Gwen Stefani, ainda antes de seguir carreira solo.
No início de 2025, o relatório de previsões do Pinterest sinalizou que o rococó, com rendas, babados, cores claras e uma estética vintage, teve aumento expressivo de 5.465% nas buscas da plataforma; assim como o universo das bonecas, especialmente em sapatinhos e maquiagens delicadas com aspecto infantil.
À primeira vista, o movimento parece até fofo e, sobretudo, inocente. Um resgate da feminilidade perante a masculinização que mulheres no poder precisaram passar para serem respeitadas nas últimas décadas. Mas surge na esteira de uma retomada conservadora política e social no mundo todo. Para Thais Farage, consultora de moda e consumo feminino, e coautora do livro Mulher, Roupa, Trabalho: Como Se Veste a Desigualdade de Gênero, as questões de gênero são um indicador muito forte de como andam as tendências políticas.
Assim, não é por acaso que, em meio a uma guinada conservadora na política e nos costumes, haja também uma retomada do reforço de papéis e estereótipos tradicionais de gênero. "Essa mulher delicada, tradicional, surge em contraponto à mulher empoderada, livre e forte — inclusive fisicamente — que foi construída a partir de 2015. Isso tem tudo a ver com discursos como os de Donald Trump, que criminalizam o que não se encaixa no binarismo feminino e masculino", introduz.
Há exatos dez anos, assistimos à quarta onda do feminismo elevar discussões importantes sobre igualdade de gênero no Brasil, mas, hoje, vivemos uma tensão entre a valorização dos assuntos tidos como femininos, historicamente considerados fúteis e de segunda ordem, e o que essas imagens significam frente ao movimento conservador crescente no Brasil e no mundo.
Quando Gwen Stefani escreveu a canção de 1995 que embala a trend atual, aos 20 e poucos anos, estava passando pelo exato processo de se dar conta que era tratada diferente simplesmente por ser uma mulher, principalmente no meio do rock. Em outras palavras, a música critica a discriminação que enfrentava na sociedade. É irônico, portanto, que ela esteja sendo usada como trilha sonora para reafirmar os estereótipos que critica. Voltamos a achar normal dizer que existem coisas de menina e coisas de menino? E, ainda pior: nós mesmas estarmos produzindo esse conteúdo?
CALÇA PARA ELES, VESTIDOS PARA ELAS
A divisão do que é pauta para homens e do que é para mulheres marca as sociedades ocidentais. Se, até o século 12, não havia grande diferenciação entre as roupas deles e delas, o cenário muda a partir da bifurcação das saias, isto é, a criação das calças. Maria Antonieta escandalizou a corte ao usá-las, assim como as chemises, antes sempre cobertas por outras peças. No século 19, os homens passaram a abandonar as cores, os tecidos brilhantes e as ornamentações ao se vestir em nome do utilitarismo e da sobriedade — foi cunhado o termo "grande renúncia masculina" pelo psicólogo britânico John Flügel em 1930. Nesse momento, as cores mais claras foram deixadas às mulheres. Aí surge a ideia de que se a moda está ligada ao feminino, logo, é fútil.
Por outro lado, elas se tornam a propaganda da riqueza de seus maridos, sempre adornadas, mas de forma respeitosa. As duas grandes guerras marcam, então, uma nova fase do vestuário, quando as mulheres precisam tomar os postos de trabalho nas fábricas enquanto os homens lutam. Além dos recursos escassos, com disponibilidade reduzida de roupas em lojas, elas também precisavam de calças e peças que não limitassem seus movimentos, caso das saias longas. Ao final dos combates, houve uma tentativa de retorno à moda anterior, mas foi cada vez menos aceito devolvê-las ao ambiente doméstico, pois já havia um movimento social de emancipação feminina.
Na luta pelas liberdades física, política e intelectual, a moda foi instrumento político de posicionamento, quando se expressou e ressignificou padrões por meio dela. Parte disso inclui rebater os estereótipos de gênero, que vão contra a independência feminina e ocupação dos espaços públicos e de poder por elas. Por esse motivo, há uma divisão entre o campo progressista e conservador, inclusive simbólica, até hoje.
IMPACTO NAS MAIS JOVENS
A maioria dos vídeos do viral reforça esses padrões ligados à fragilidade, à ingenuidade, à delicadeza e, consequentemente, a menos inteligência. "Girl dinner" e "girl math" nasceram daí. A primeira mostra refeições minúsculas ou pratos que têm apenas salada ou pipoca justificados como "jantar de menina". A segunda faz um tipo de piada com o fato de que mulheres têm uma lógica própria para lidar com orçamento — em quase todos os casos, financeiramente inconsistente. "Se eu comprei uma roupa nova, fui até o caixa e paguei com dinheiro em espécie, eu não gastei dinheiro, aquilo foi de graça", diz um dos vídeos em português que fala sobre a "matemática das garotas".
Há, ainda, vídeos que mostram a rotina de corporate girls, ou seja, mulheres jovens que trabalham no mundo corporativo dividindo seu dia a dia. Muitos começam com "itens que toda corporate girl deveria ter" e citam planners organizados com adesivos coloridos, presilhas fofas e uma garrafinha térmica que custa mais de R$ 300. O mesmo para cafés superfaturados ou, caso a prática aconteça em casa, uma cafeteira diferentona é item de primeira necessidade para completar o kit de escritório.
Qual é o impacto dessas repetições na cabeça de quem as acompanha? Um artigo publicado na Indonésia, em 2024, pelo movimento Girl Up, levanta a bola: "E quanto às crianças, que se apropriam dessas tendências e entendem que está tudo bem promover um estereótipo de que as mulheres são incapazes de fazer determinadas coisas?", questiona.
O que publicamos e disseminamos no TikTok tem efeito direto em mulheres muito mais jovens — pessoas entre 13 e 20 anos representam um quarto dos usuários da plataforma, isso sem considerar crianças ainda menores. Estudos mostram que é essa parcela a mais propensa a desenvolver bloqueios em relação às ciências exatas e também a desenvolver transtornos alimentares, o que microtendências como "girl math" e "girl dinner" podem incentivar. Além, é claro, de também alimentar o machismo e a misoginia ao entregar essas ferramentas aos meninos da mesma faixa etária.
QUEM GANHA COM ISSO?
Entre o alto escalão da política e a trend do TikTok, esse comportamento causa mudanças importantes na indústria da moda e da beleza — não por acaso, dois pilares responsáveis por, durante décadas e décadas, reforçar padrões inatingíveis, desafiando a nossa autoestima e os nossos corpos; veja criações como o corset e o salto alto, por exemplo, que dificultam os movimentos. Se esse controle explícito ficou para trás, hoje pode se traduzir não na imposição de usar determinadas peças, mas no que é cool e no reforço do ter para pertencer.
A professora Hildete Pereira de Melo, especialista em economia feminista e autora de pesquisas sobre a divisão de gênero do trabalho, lembra que, além de ganhar menos, as mulheres gastam maior porcentagem de sua renda em produtos de moda e beleza por dois motivos. Primeiro, porque somos mais pressionadas a investir na nossa aparência. "A ideia de que as garotas devem ser delicadas, amáveis e desejáveis nos leva de volta a um passado em que elas se casavam muito cedo, porque não tinham outra opção. E esses atributos estão diretamente ligados à beleza. Cultivamos isso até hoje e ainda cobramos a beleza das mulheres, especialmente das mais jovens", elucida.
Segundo, porque produtos vendidos para mulheres, em geral, custam mais caro. Trata-se da "pink tax", um preço mais alto atribuído a itens direcionados ao público feminino, ainda que sejam idênticos à versão masculina. O exemplo mais clássico são as lâminas de barbear, cujas versões "femininas" chegam a custar o dobro em comparação às "masculinas" quando, na prática, a única diferença é a cor da embalagem.
Um levantamento feito em 2018 pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) constatou que os itens cor-de-rosa são, em média, 1 2% mais caros que similares para o público masculino; nas roupas, podem custar até 1 7% a mais. Pense então naquele lifestyle de comprinhas, cafés superfaturados… Pois é. O ar lúdico, enquanto isso, esconde que as mulheres também recebem 20% a menos que os homens no Brasil, segundo os ministérios das Mulheres e do Trabalho.
"ELES JAMAIS ENTENDERIAM"
Em contrapartida, não dá para negar que há também um senso de comunidade a partir de experiências compartilhadas por mulheres — ainda que reforcem alguns estereótipos, representam o gosto e os hábitos de muitas de nós. Além disso, é muito fácil, no senso comum, associar tudo que é "de mulher" ao ridículo. "Também me chama a atenção de que existe nesse movimento um certo orgulho dos códigos que entendemos como femininos. Talvez a gente esteja entendendo que não é necessário mimetizar modelos masculinos para sermos valorizadas em espaços públicos, como o ambiente de trabalho", fala Thais Farage, se referindo aos vídeos das corporate girls.
Também derivam do movimento microtendências como "girlhood" (irmandade, em português) e "girl's girl", termos que se referem a demonstrações de sororidade entre mulheres. Em vídeos, citam atitudes como elogiar umas às outras, incluir a nova namorada do seu amigo ao grupo, emprestar absorvente, avisar caso a maquiagem esteja borrada, entre outras pequenas gentilezas, mesmo que com desconhecidas. "Se outra mulher sorri para você na rua, você sorri de volta, mesmo que esteja em um dia ruim", diz um dos vídeos no TikTok. Em outro, garotas cuidam umas das outras sob a legenda "homens jamais entenderiam" ao som de "What I Was Made For", composição de Billie Eilish para a trilha sonora de Barbie.
A trend pode parecer destrutiva e perigosa, especialmente em meio a uma onda global de conservadorismo, que ameaça os direitos e as liberdades que as mulheres conquistaram, assim como das pessoas LGBTQIAPN+ que não se encaixam nos conceitos binários. Vale lembrar Naomi Wolf, em O Mito da Beleza, quando relaciona os padrões de beleza à obediência feminina. "Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada", escreveu.
Ao mesmo tempo, em tags mais positivas, criam senso de comunidade e transportam para a nova geração o conceito de sororidade. Fato é que o termo e tudo que ele envolve dominou não apenas o TikTok, mas a vida real, na moda, na beleza, no comportamento e até no mundo corporativo. Reflexões assim são importantes para que a gente não repita preconceitos sem pensar. "O que é ruim é achar que só tem um jeito de ser mulher", resume Thais.









