Minha cicatriz: como um câncer na tireoide me fez renascer
Uma perda excessiva de peso fez com que Mariana D'Ávila descobrisse um tumor – ela teve a glândula retirada e ainda dribla os efeitos pós-operatórios
Por Mariana DAvila em Depoimento A Camila Sawamura / Texto: Helena Moro
Moro sozinha em São Paulo há alguns anos. Saí de Taubaté para cursar jornalismo e seguir carreira. Se as coisas aconteceram como planejei? Não muito. De dois anos para cá eu comecei a engordar sem nenhum motivo aparente. Isso era estranho para mim, pois tenho 1,68m e nunca pesei mais de 52 kg. Minha alimentação sempre foi das mais regradas. Esse ganho repentino de peso me fez ir à ginecologista, que acabou me pedindo um exame de tiróide, pois as suspeitas dela eram de hipotireoidismo.
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Fiz o exame e o médico, nem um pouco delicado, disse: "Você está acompanhando esses tumores que você tem?”. Congelei. Eu nunca havia nem feito esse exame de tireóide antes! Depois disso, fui a um endocrinologista e repeti os exames. Ficou constatado um tumor grande na tireóide. Já tinha ouvido falar nesta doença, mas nunca tinha me aprofundado – nem me preocupado.
Existem seis tipos de câncer, o meu era o papilífero e já estava no último nível de gravidade. Por ele ser silencioso, o único sintoma que tive foi o ganho de peso. Além de ser assintomático, ele é lento e por estar naquele estágio já deveria estar no meu corpo há anos.
Continuei a realizar exames para entender e foi constatado que eu teria que remover a tireóide. Foram três meses indo aos hospitais e clínicas só para isso. Neste meio tempo, tive que trancar a faculdade, pois estava no último semestre a demanda de trabalhos era grande. Além disso, minha imunidade ficou péssima e eu mal conseguia sair de casa.
Para curar um tumor na tireóide há dois caminhos: tirar a glândula ou fazer o esvaziamento da cervical. E, se necessário, ainda complementar o tratamento com iodoterapia. Nesta fase, são 30 dias de dieta e isolamento no hospital. No meu caso, a doença não exigia quimioterapia nem radioterapia.
Meu médico foi querido e me ajudou a entender a doença. Minha operação foi no dia 14 de maio deste ano. Eu estava tão nervosa, que tive que tomar três doses de anestésico – normalmente as pessoas já apagam no primeiro. Me lembro de chorar muito na salinha do pré-operatório. Quando acordei, após o procedimento, senti uma dor insuportável na região da garganta. Mas a glândula havia sido removida com sucesso.
Fui para casa para o pós-operatorio. Não sabia ao certo como ficaria a cicatriz por conta do adesivo no local. Quando tirei, sangrou bastante e vi o corte na garganta. No começo, fiquei assustada porque nunca tinha tido uma marca tão visível assim. A primeira coisa que acontece quando chego num lugar é as pessoas olharem a cicatriz e só depois meu rosto. É instintivo, sabe? Incomoda um pouco isso... Parece que ela revela quem eu sou, sem as pessoas me conhecerem. Conheci meninas que passaram pela mesma cirurgia e escondem a marca porque acham feio. Mas eu prefiro não fazer isso, afinal seria como esconder uma parte de mim.
Quando você tem uma doença, seja ela qual for, você fica refém dela. Minha vida agora é diferente. Por conta da ausência da glândula, vou ter que tomar remédio pelo resto da vida. E é um remédio que não faz muito bem, dá muito enjoo e o corpo fica muito cansado. Fora o fato de eu ter engordado 23 quilos por conta dele.
Durante o banho, tenho que massagear a região. Toda essa área minha do pescoço é paralisada, não sinto. Em cima da cicatriz eu sinto, mas em volta não. É estranho porque você está acostumada a ter seu corpo respondendo todos os sentidos, né?
Mas uma coisa ainda me preocupa muito no pós-operatório. Tenho que fazer um exame chamado PET Scam, que analisa se você ainda tem alguma célula cancerígena no corpo. A iodoterapia mata o restante dessas células, mas pode não solucionar. Então ainda é possível ter metástase. Meu medo maior é que eu ainda não resolvi o problema. São mais cinco anos para "acompanhar" e fazer exames periódicos.
Ainda me sinto muito fraca, afinal é muito recente e ainda estou me recuperando. Voltei para São Paulo no comecinho de agosto. Tinha combinado com a faculdade que eu entregaria os trabalhos e as atividades, e eles super compreenderam. Apresentei meu TCC mês passado e finalmente peguei meu diploma. Por enquanto, sei que minha vida vai estar comprometida, mas não vejo a hora de começar a trabalhar e seguir o jogo.
Edição de beleza: Helena Moro e Camila Sawamura. Direção de arte: Bruna Bismara. Styling: Luiz Bonassoli. Produção executiva: Camila Sawamura. Manicure: Aline Silvério (Jacques Janine Center Norte). Assistente de beleza: Janaína Marques.
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