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Pele
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Por
Isabella Depalo*

No filme De Repente 30, a protagonista Jenna Rink acredita que os 30 anos são a idade do sucesso. Ela deseja tanto saltar da adolescência para a fase adulta, que desbloqueia uma espécie de viagem mágica que a faz acordar na terceira década de vida. O desejo de atravessar o tempo guiada pela certeza de que o melhor está por vir é tão ficcional quanto o filme. Nos últimos anos, o envelhecimento se transformou em um acontecimento dúbio. Em 1991, a expectativa de vida da mulher brasileira era 70 anos. Já aumentou nove desde então. Estamos expandindo horizontes, tendo filhos mais tarde — ou mesmo não tendo —, realizando sonhos a qualquer momento, invertendo padrões relacionados à idade construídos por outras gerações. Vemos mulheres envelhecendo sem diminuir o ritmo no trabalho, sendo reconhecidas pelos seus feitos enquanto viajam o mundo e se aventuram — Fernanda Torres, premiada internacionalmente aos 59, não nos deixa mentir. O problema é que os novos parâmetros da maturidade se embolam: você até pode conquistar o mundo a qualquer idade, mas não pode aparentá-la. Atire o primeiro retinol quem nunca elogiou que o corpo de Jennifer Lopez "chegou assim aos 55".

Na outra ponta da vida, jovens mulheres com seus vinte e poucos anos evitam pensar no assunto de modo prático. Envelhecer é um ato contínuo, que se inicia a partir do nascimento e, mesmo sabendo que nossas células vão dia a dia se modificando, nos recusamos a falar sobre ele até que já sejamos o que entendemos como velhos. "A velhice ainda é um tabu, porque segue sendo associada à morte. Mas, além disso, ainda existe a premissa de que ela vai contra o pensamento vigente da produtividade. Ficar mais velho é desacelerar e, num mundo que valoriza o dinâmico e o ativo, essa perspectiva é negativa; se torna uma fraqueza moral", explica Joana Vilhena Novaes, psicóloga coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio e professora da pós- -graduação em psicanálise, saúde e sociedade na Universidade Veiga de Almeida.

Imagine uma mulher de 62 anos. Como é sua aparência? Ela trabalha? Tem filhos? Frequenta a academia? Sai com as amigas? Quando minha avó tinha 62 — 24 anos atrás —, ela pintava os fios brancos e curtos com coloração loiro acinzentada. Seu rosto tinha flacidez visível debaixo dos olhos e as rugas eram aparentes. Ela não trabalhava em uma empresa, mas era responsável pelas compras e limpeza da casa e por cozinhar para o meu avô. Sua vida era, aos olhos atuais, monótona. Aos 62 anos, minha mãe tinha assumido os cabelos grisalhos há algum tempo, e ela os ostenta com orgulho até hoje! Trabalhadora apaixonada, atuava na linha de frente em meio à pandemia. Seus dias não tinham marasmo algum. Duas décadas separam essas realidades completamente distintas para mulheres consideradas idosas, de acordo com a lei brasileira. Um número que era associado ao fim da vida passou a ser apenas mais uma etapa com outras demandas e realizações.

Foi também aos 62 anos que Demi Moore subiu ao palco do Globo de Ouro para receber o prêmio de Melhor Atriz de Comédia pelo filme A Substância. Mesmo com seus 45 de carreira e papéis memoráveis, esse foi o primeiro prêmio de Moore e, em seu discurso, ela criticou a crueldade na cobrança exercida sobre as mulheres, especialmente se referindo aos padrões de beleza em Hollywood. "Uma mulher me disse: 'Apenas saiba que você nunca será suficiente, mas pode conhecer o valor do seu próprio mérito se simplesmente largar a régua de medir'", declarou. No longa, Moore é uma celebridade em decadência, justamente pelo seu envelhecimento. Desesperada, ela consome uma substância que promete o rejuvenescimento sonhado. Não preciso dar spoilers para dizer que a situação toda dá muito errado. Mas o ponto é que Demi Moore aceitou o prêmio pela atuação num vestido dourado bem ajustado ao corpo, revelando a magreza típica hollywoodiana. Seus longos cabelos pretos característicos, que ela mantém desde que estourou na indústria, estavam soltos e emolduravam um rosto com pouquíssimas linhas de expressão ou flacidez. Ela se passaria tranquilamente por uma mulher com até 20 anos a menos — nada como a ironia e a autorreferência na indústria do cinema.

Fazendo justiça aqui: Demi Moore tem um patrimônio estimado em 200 milhões de dólares e uma realidade diária completamente diferente da minha mãe ou da minha avó, por exemplo. Mas é justamente ela — assim como outras mulheres que são figuras públicas — que dita o padrão estético e cria desejos inalcançáveis em muitas gerações. "Essa é uma cultura narcísica, vivemos uma ode ao espelho e não temos tolerância para o que não é semelhante", acrescenta Joana. "Somando a recusa da lentidão a esse fato, criamos grupos de pessoas que não cumprem com esses parâmetros e são jogadas para escanteio, como os mais velhos e os gordos. Os recursos estéticos entram como artifícios para não ser excluído."

Assim, termos que antes não faziam parte do vocabulário diário passam a ser recorrentes: lipo LAD, lifting, preenchimento, radiofrequência, bioestimulador de colágeno, entre outros. Para a antropóloga Mirian Goldenberg, a juventude é o verdadeiro capital atual e a sociedade é velhofóbica, termo cunhado por ela. "As mulheres investem tempo e dinheiro para manter o corpo jovem, perfeito e sensual, algo que provoca enorme sofrimento. Como não conseguem, deixam de sair de casa, consomem moderadores de apetite, ansiolíticos, antidepressivos e remédios para dormir", relata. A pesquisadora, organizadora de Velho É Lindo! (Civilização Brasileira) e autora de A Bela Velhice e, do mais recente, A Arte de Gozar: Amor, Sexo e Tesão na Maturidade (ambos da Record) ressalta que seus estudos reafirmam a ambiguidade dos tempos que vivemos. "É um paradoxo: é a primeira geração de mulheres de 50 a 60 anos que descrevem essas décadas como libertadoras. Elas não precisam mais priorizar e cuidar de outras pessoas, podem olhar para si mesmas. Param de ligar para o que os outros pensam delas e se descrevem como verdadeiramente felizes. Ao mesmo tempo, somos consideradas velhas cada vez mais cedo, isso significa que perdemos valor para a sociedade, nos sentimos invisíveis e descartáveis", entende.

Prejuvenation, entre a prevenção e o medo

Neste cenário, ganha amplificação o termo prejuvenation, que une as palavras prevention e rejuvenation (prevenção e rejuvenescimento em inglês, respectivamente). O termo se popularizou no início da década de 2000 nos consultórios dermatológicos e voltou a ser usado nos últimos anos, resgatado principalmente pela geração Z. A prerrogativa dessa linha de tratamentos é antecipar alguns cuidados para evitar intervenções maiores no futuro. É a combinação de uma rotina reforçada de skincare com procedimentos não-cirúrgicos, como bioestimuladores de colágeno injetáveis, radiofrequência e microagulhamento. Afinal, ouvimos dizer o tempo todo que, quanto antes se começa a tratar a pele, melhor. "O mercado oferece tantas soluções medicamentosas, dietéticas ou na medicina preventiva que as pessoas são responsabilizadas por não alcançarem padrões. Parece que você não precisa conviver com o 'defeito', se não quiser", acrescenta Joana.

É uma armadilha relativamente fácil de cair: comprar o discurso que somos empreendedoras de nós mesmas — outro termo que anda circulando por aí. Em suma, tudo está ao nosso alcance, basta querer. Alcançar é meritocrático. Esse discurso é reiterado constantemente na internet, um ambiente que ocupa grande parte do nosso tempo atualmente e, é claro, desperta vontades. Você vê uma imagem de "antes e depois", compara cada traço e imediatamente pensa no que gostaria de fazer em si. O ciclo se repete muitas vezes. Quando percebe, já tem uma wishlist de procedimentos a fazer em nome da prevenção.

"Nessa ânsia de produtividade e controle, nos apegamos a uma falsa ideia de que se fizermos a nossa parte, teremos o retorno esperado. Eu malho, como proteína, faço os passos do skincare e ganho meu passaporte para a vida eterna e confortável. Mas nada é garantido, não tem fórmula", reflete Daniela Arrais, jornalista e sócia-fundadora do veículo digital Contente, que leva questionamentos à internet para romper com discursos massificados e opressores. Joana complementa: "A rede social veicula superação, sentimento que é primo da intolerância. Nas redes, nos dividimos em bolhas que nos legitimam ou nos tornam fracassadas — e sentimos que precisamos fazer tudo que os outros fazem para mudar isso." Se antes as millennials estavam no topo da cadeia alimentar da juventude, aquele momento da equação em que somos as mais novas e a sociedade se interessa pelo nosso comportamento como ditador de tendências, agora perdemos esse bastão, transmitido pelo zeitgeist para a geração Z. O que isso significa? Entre muitos pontos, que as imagens e hábitos que consumimos na publicidade, no algoritmo do TikTok, na protagonista do musical viral e no feed da nossa marca de skincare favorita, refletem mulheres mais novas do que nós.

Quão longe é demais?

Não ser excluído ou se sentir excluído do aesthetic é tão importante que adotamos comportamentos sem questioná-los. Isso pode acontecer com uma rotina de práticas físicas intensas para manter uma posição vantajosa num app (já ouviu falar no GymRats?) ou com o uso indiscriminado de remédios que levam ao emagrecimento, revelando o desejo de entrar na tendência de corpos famélicos que voltaram à moda diretamente dos anos 2000. Não dá para generalizar, é claro. Existem casos de recomendação médica e benefícios para o uso de remédios que levam à perda de peso, como os mais falados ultimamente, Ozempic e Mounjaro. Mas quem usa só pela estética, está pensando em como vai compensar a massa magra perdida que vai ser tão necessária na terceira idade? "Desejo ser uma velhinha com autonomia e autoconhecimento. Corro e malho hoje para ter músculos e conseguir sentar e levantar da privada ou tomar banho sozinha quando estiver bem velha. Não acho que todo mundo pense nesse futuro, nessa fase que tem desafios físicos", afirma Daniela.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a procura por procedimentos com toxina botulínica cresceu 300% entre jovens de 18 a 30 anos desde 2022. Alguns experts estão chamando o movimento de minirretoques pontuais como baby botox — termo assustadora para uma tendência questionável, quando pensamos em outro tema recente: as Sephora Kids. Em 2024, milhares de vídeos de garotas de 10 a 15 anos cujo passeio favorito era a gigante varejista de cosméticos foram postados no TikTok e renderam acima de 330 milhões de visualizações. Suas marcas favoritas eram as de skincare com um custo alto e cremes com ativos poderosos para reduzir sinais da idade pensados para mulheres mais velhas, que viraram obsessão infantil.

"Nessa mesma linha, vi um vídeo de uma mulher de 20 anos fazendo procedimentos cosméticos na Coreia do Sul com aquela imagem aesthetic que essa geração busca.", descreve Daniela. "Estamos errando nas conversas que precisamos ter para fazer as pazes com o tempo. Quem está à frente do debate agora é a rede, que só reforça o que você acredita, porque o algoritmo organiza os conteúdos que você vê por interesses semelhantes. É fundamental termos um letramento da internet para não deixar futuras gerações à deriva", conclui.

Perceba que esse texto utiliza exemplos e dados relacionados às mulheres, porque todos envelhecemos juntos, mas o gênero feminino é o mais cobrado para que isso aconteça dentro de padrões rígidos e olhar atentdo da sociedade. A pressão para se olhar no espelho e amar o que vê é sufocada pela ideia de que você é a única que não fez nenhuma intervenção contra a diminuição do colágeno. O perigo que corremos é do futuro em desconstrução, porque, numa sociedade imediatista, o agora é a única coisa que importa e não se pensa nas consequências do amanhã.

Estamos nos preparando para sermos velhos e parecermos velhos? Cuidamos da alimentação e da nossa cabeça ou vamos arrancar o primeiro fio de cabelo branco? Sabemos os nossos limites para intervenções estéticas, de acordo com nossos valores, ou vamos nos deixar levar pelas tendências que surgem sem parar? Talvez essas reflexões devessem ser mais recorrentes e mais discutidas entre amigas para espantar a fobia de envelhecer. "O que vai tirar a gente dessa situação também é o lastro social: debates públicos em que a diferença volte a ser contemplada, para que voltemos a nos acostumar com a diversidade", indica Joana. Quem vai levantar a mão primeiro? A gente começa por aqui.

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