Tecidos com infusão de ingredientes realmente funcionam? Dermatologistas opinam
Marcas como Coperni e Skims investem em tecnologias como probióticos e colágeno, mas será que os ativos podem permear a pele? Glamour investigou
Na última quinta-feira (02.10) a francesa Coperni anunciou o lançamento de uma nova coleção athleisure que iniciava a introdução da marca no universo da beleza. Batizada de C+, a linha é descrita como "carewear" ou “moda como skincare”, já que os tecidos são infundidos com probióticos (gênero Bacillus, Bacillus subtilis) e prebióticos (fruto-oligossacarídeos) a serem transferidos para a pele durante o uso.
Essa, entretanto, não é a primeira vez que a grife lança tecidos funcionais. Em 2020, a Coperni já havia apresentado peças antibacterianas. A iniciativa de introduzir ativos de cuidados com a pele em itens de vestuário vem acontecendo aos poucos, como vimos com o modelador facial desenvolvido pela Skims, marca de Kim Kardashian, com "fios de colágeno" ou até mesmo com a linha de pijamas de ácido hialurônico da PH5. Mas, será que investir nessas tecnologias realmente traz benefícios para a pele?
"O 'carewear' não é novidade. As roupas com fotoproteção são parte do mercado há algum tempo como, por exemplo, aquelas com proteção UV (química + física pelas tramas do tecido). Agora tecidos funcionais com probióticos são recentes, sim", introduz Julia Kelman Kanas, médica do corpo clínico da Inc Beauty, em São Paulo. "O microbioma é o grande foco da medicina, ou melhor, da dermatologia regenerativa nos últimos anos. Esse conjunto de microrganismos que vivem na nossa pele desempenha um papel crucial na manutenção da homeostase da pele, interagindo com o sistema imunológico local, regulando o pH da pele e protegendo contra patógenos invasores", explica.
Julia aponta que a disbiose, ou seja, o desequilíbrio na composição do microbioma da pele (que pode ser causado por fatores como o uso excessivo de antibióticos, estresse, dieta inadequada e produtos cosméticos agressivos) está associada a diversas condições inflamatórias da pele, como: acne vulgar, dermatite atópica, psoríase e rosácea.
"A ideia em manter cepas boas, em uma linguagem simples, seria evitar agressores que retiram esse manto hidrolipidico da pele, como buchas e sabonetes antissepticos, e cultivar as cepas boas com nutrientes. Já temos evidências de diversos ativos com essa capacidade, como o óleo do abacate e o própolis", aponta.
A médica acredita que explorar os tecidos como aliado nas questões de pele pode ser bastante benéfico, entretanto, recomenda investir em um skincare com probióticos ao invés de gastar cerca de mil reais em roupas com a promessa da Coperni, por exemplo. "Aguardamos mais estudos para garantir essa absorção pelo contato a curto prazo, porém parece algo novo e bastante promissor, uma vez que a empresa divulga até a cepa das bactérias escolhidas", diz.
Lilia Guadanhim, doutora em dermatologia, médica e colaboradora da Unidade de Cosmiatria da Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), concorda. "Atualmente, há alguns estudos que demonstraram a viabilidade técnica de incorporar probióticos e prebióticos e isso vem sendo explorado para aplicações potenciais em produtos de higiene (como fraldas, materiais de higiene íntima e curativos) e em tecidos funcionais", diz.
De acordo com a médica, materiais à base de polissacarídeos com atividade prebiótica foram desenvolvidos para uso em camadas superiores de fraldas, com o objetivo de promover uma microbiota cutânea benéfica e reduzir a incidência de assaduras, favorecendo o crescimento e a atividade de bactérias comensais, como Staphylococcus epidermidis. Protótipos de produtos de higiene íntima também vem sendo estudados com cepas probióticas encapsuladas (por exemplo, Lactobacillus paragasseri K7) e prebióticos (como a inulina).
As perspectivas de fato são interessantes, mas ainda inconclusivas. "A maioria dos trabalhos publicados é pré-clínica, focada em caracterização de materiais, atividade microbiológica e modelos laboratoriais. O conceito de roupas funcionais é uma área promissora de pesquisa, mas faltam dados clínicos robustos que suportem os potenciais benefícios na saúde da pele e na prevenção de doenças", destaca.
Em relação ao modelador facial da Skims, há ainda o fator de compressão e outras promessas envolvidas. "Não consegui achar absolutamente nada na literatura científica sobre isso. Na minha visão, não vejo como o uso de um tecido com colágeno poderia ter qualquer efeito clínico. O colágeno é uma molécula de alto peso que não conseguiria penetrar na pele íntegra e mesmo quando o colágeno tem penetração, não há evidência de benefício", explica Lilia.
A dermatologista ainda adiciona que o uso de modeladores não tem qualquer relação com efeito antienvelhecimento, uma vez que os parâmetros relacionados à idade, como flacidez, de dá por reabsorção óssea e de gordura, perda muscular e afinamento da pele, e nenhum desses fatores poderia ser modificado por uso de um modelador.
Além disso, a compressão em excesso pode piorar o inchaço nas pálpebras inferiores, além de gerar atrito e abafamento da face. Acne, rosácea e foliculite tendem a se complicar neste cenário.









