A cultura da produtividade matou os hobbies?
Relaxar virou tarefa — e tem que render likes, claro. Atividades como corrida, leitura e pintura se tornam mais um chamariz na busca por engajamento. Especialistas e criadoras de conteúdo refletem sobre como os hobbies se tornaram espaço para performar e o que podemos fazer para resgatar o prazer do "fazer por fazer"
O que era para ser um momento de pausa, prazer e descanso se transformou em conteúdo, estratégia e engajamento. Na corrida matinal, nas páginas de um livro pra ler ou até mesmo no simples ato de pintar cadernos de colorir, cresceu uma nova lógica, a da performance do bem- -estar. E, com ela, uma dúvida cada vez mais urgente: ainda sabemos o que é relaxar, sem sentir a necessidade de transformar o ócio em mais uma atividade obrigatória?
A cultura da produtividade invadiu até os espaços antes considerados livres das obrigações diárias. Os hobbies e práticas de autocuidado passaram a seguir os mesmos critérios de entrega, validação e estética que pautam o universo do trabalho e da construção de imagem nas redes sociais. Agora, tudo é motivo para postar, engajar — e lucrar.
Essa transformação está diretamente ligada ao modo como a sociedade contemporânea atribui valor às pessoas. "O valor do sujeito está ligado ao que ele produz, e não ao que ele é. O hobby, nesse cenário, deixa de ser um encontro consigo mesmo e um momento de descanso, tornando-se um espetáculo para o outro", explica a psicóloga e psicanalista Leninha Wagner. A consequência? Uma exaustão que não parece ter causa, mas que sem dúvidas está relacionada à pressão de "fazer valer" o horário livre na agenda somada à obrigação inconsciente de exibir com orgulho cada passo nas redes sociais, até a rotina exaustiva.
A CORRIDA QUE VIROU PALCO
Juliana Naomi, de 23 anos, começou a correr em 2023 para cuidar da saúde física e, principalmente, mental. A vontade sempre existiu, mas foi só quando ela sentiu que precisava de algo novo na rotina que decidiu investir de verdade no esporte. No começo, a influenciadora lembra que não tinha relógio, tênis adequado e mal sabia as nomenclaturas técnicas, como pace, que é o ritmo ou velocidade de um corredor, expresso em minutos por quilômetro. Ela só saía para correr e aproveitava para distrair os pensamentos.
"Depois de dois meses, participei da minha primeira corrida de rua e só lembro de sentir a energia de todo mundo junto, de cruzar a linha de chegada, e perceber o quanto o esporte estava me ajudando naquela fase. Foi nesse momento que eu tive a certeza de que não queria mais parar", conta.
A prática, que começou como um exercício de cuidado pessoal, acabou se tornando pauta para conteúdo quando um vídeo sobre sua participação em uma prova viralizou no TikTok. O post chegou a marcas e agências de publicidade da área, e Juliana passou a receber convites, propostas, produtos e até parcerias comerciais. O que era para ser um momento de conquista gerou inseguranças na influenciadora, que não sentia que corria o suficiente para ter uma resposta tão positiva e imediata de empresas-referência. Mesmo com o sentimento latente no peito, ela continuou a correr — e, claro, postar.
Os treinos compartilhados, comentados e engajados passaram a eventualmente ser cobrados por ela mesma. "No início, eu ficava muito frustrada por não ter um pace baixo ou por não conseguir correr distâncias grandes como as outras meninas. Com o tempo, percebi que buscar isso às pressas não fazia nenhum sentido. Eu não era e ainda não sou uma atleta, não posso me comparar com alguém que corre há mais tempo ou vive disso. Hoje, vejo que minha relação com a corrida é sobre conseguir aproveitar o processo e ser constante. Apesar dos altos e baixos, os resultados virão como consequência do esforço diário", diz.
Com tantos milhões de conteúdos nas redes sociais, acabamos tendo a impressão de que só nós estamos estagnados e nossa rotina parece não ter graça alguma quando comparada à que vemos por meio da tela do celular. Essa sensação cresce quando tentamos fazer algo pela primeira vez, e o que era para ser novidade, vira mais um alvo de expectativas e pressão. "Se pararmos para pensar, nunca estamos satisfeitos com nossa própria performance e isso acaba tirando toda a graça de começar algo novo. Se permita ser iniciante e comemorar as pequenas conquistas sem essa pressa de ser bom em tudo o tempo todo", aconselha a corredora.
QUANDO A LEITURA VIRA PRODUTO
Essa transformação do prazer em conteúdo não é um caso isolado, muito pelo contrário. Luana Teles, de 24 anos, sempre foi apaixonada pela literatura. Durante a adolescência e, mais tarde, na pandemia do coronavírus em 2020, os livros eram seu refúgio — uma forma de escapar da realidade e encontrar prazer nas histórias. A conexão era tão forte que, quando decidiu compartilhar seus momentos de leitura em vídeos, não imaginava o alcance que teria. No início, os vlogs eram despretensiosos, quase um diário, em que ela registrava suas reações e desabafava com o público sobre as obras.
Mas o que começou como um espaço de leveza e autenticidade, logo foi tomado pela lógica da performance. Com o sucesso dos vídeos, marcas, editoras e autores começaram a procurar Luana para parcerias e publicidades. Foi nesse momento que a relação com o hobby começou a mudar. "Assim que esses vlogs viraram uma forma de publicidade, senti a diferença entre passatempo e trabalho. Comecei a me policiar no que dizia e nas reações que tinha", conta. As gravações deixaram de ser espontâneas e passaram a seguir um roteiro mental. "Os conteúdos ficaram engessados e eu me cobrava muito sobre a qualidade, até que a experiência perdeu o brilho. Parou de ser divertido, virou apenas uma obrigação estratégica para gerar engajamento e visualizações."
A leitura, que antes era um ato íntimo e prazeroso, se tornou mais um produto para as redes. "Quanto mais choro e me desespero, melhor o vídeo performa. E eu sempre fui uma pessoa bem chorona e dramática, então, o que antes era natural, passou a ser forçado para viralizar", explica. A pressão para entregar resultados minou o encantamento que ela sentia e, por esse motivo, decidiu parar de produzir esse tipo de post.
Além da frustração criativa, veio a insegurança com o próprio conteúdo e a escolha dos livros. Luana passou a temer que mudanças no nicho afastassem seu público, o que desencadeou um estresse mental e a distanciou da literatura. "Eu não gostava do que eu estava fazendo, então simplesmente não produzia nada", desabafa. Hoje, com o apoio da terapia, ela tem reconstruído essa relação de forma mais natural e saudável. "Ainda tenho receio dessa nova fase, mas a leitura voltou a ter graça. Agora busco os meus gêneros favoritos e me reinvento no meu tempo e no meu ritmo", diz. O caminho para retomar o prazer de fazer apenas porque gosta ainda está em construção, mas, para Luana, a chave foi reaprender a se permitir e aproveitar o momento.
A ARTE COM PRAZO E COBRANÇA
O mesmo processo aconteceu com Isabela Rodrigues, de 28 anos, que viralizou nas redes sociais ao compartilhar vídeos colorindo livros e criando histórias para suas ilustrações. No início, o hobby era puro entusiasmo e diversão. "Quando descobri o universo dos livros de colorir, fiquei encantada e comprei os meus primeiros materiais por impulso", relembra a artista. O gosto por dividir suas paixões fez com que, naturalmente, ela começasse a postar os vídeos no TikTok. Isabela só não imaginava que seria um grande sucesso em tão pouco tempo. Na época, ela estava desempregada e viu na repercussão uma oportunidade de transformar o sonho antigo de trabalhar com arte em realidade.
Com o crescimento do perfil, vieram prazos, cobranças e comparações com outros criadores. "Existe uma expectativa tanto do público quanto de mim mesma, ainda mais com tantos artistas incríveis, técnicas e estilos de pintura surgindo a cada semana. É muito fácil cair na armadilha de querer sempre superar o último vídeo", desabafa. Isabela conta que pintar os livrinhos perdeu um pouco da leveza do início, porque virou uma obrigação diária de gravar e postar, mas a influencer tenta ao máximo resgatar a empolgação do começo e equilibrar a parte emocional e profissional.
Ainda assim, ela admite que nem sempre é fácil lidar com a pressão de manter a performance e que, às vezes, se cobra demais. "Quando percebo isso, tento desacelerar e lembrar que o objetivo desses cadernos de colorir é justamente relaxar e me divertir. Nem todas as páginas precisam ser uma superprodução", reflete ela.
A LÓGICA DA PERFORMANCE EM TODOS OS CAMPOS
Não é só na corrida, na leitura ou na arte, a lógica da performance se infiltra em praticamente todos os aspectos da vida cotidiana. A jornalista e escritora Daniela Arrais explica que, desde que o Instagram entrou nas nossas vidas há quase 15 anos, o nosso olhar foi moldado pela plataforma. Aos poucos, nos acostumamos a tirar fotos de um prato de comida, registrar encontros com amigos e destacar trechos de livros para compartilhar. As redes sociais deixaram de ser apenas um espaço de registro para se tornarem parte ativa da nossa identidade. "A necessidade de aprovação externa surge como uma validação do que vivemos. Afinal, até os hobbies ajudam a compor a nossa 'marca pessoal'", explica ela.
Esse culto ao lifestyle, impulsionado pelo visual aesthetic e pelas narrativas que encenam o cuidado e bem-estar, faz com que nem o lazer escape da lógica de entrega. A influenciadora literária Luana Teles também percebe esse movimento. Em sua perspectiva, tudo hoje em dia é performático, e as pessoas já não fazem nada para si mesmas. Atividades simples, como pintar um quadro ou assar um bolo para passar o tempo, precisam ser bonitas o suficiente para garantir um bom post no Instagram. "Aliás, não basta tudo ser compartilhado. Deve ser gravado de um jeito aesthetic, ser editado para manter o interesse das pessoas, e legendado para gerar compartilhamento e viralizar", reflete Luana. Como resultado, ser iniciante ou "ruim" em algo parece inviável no universo online que, muitas vezes, é um reflexo da realidade.
A psicanalista Leninha Wagner observa que esse comportamento revela uma tentativa de encenar uma completude impossível: ser excelente no trabalho, no amor, na aparência e até na meditação. Mas, no fundo, essa busca é uma defesa contra o real. Não somos tudo, nem damos conta de tudo. Em um cenário onde não suportamos ser falhos, nos alienamos em performances que não nascem do desejo, mas de uma exigência constante. É uma tentativa de ser aceito, desde que você nunca decepcione ninguém.
Os algoritmos reforçam ainda mais essa engrenagem. "Se antes era possível relaxar de maneira offline, hoje até os momentos de pausa vêm acompanhados de uma foto para o feed — tudo precisa ser bonito e 'instagramável'. As experiências devem render conteúdo, e os prazeres, engajamento", pondera Daniela. Afinal, sem engajamento, do que vale um post no feed?
Consequentemente, até a intimidade se fragiliza. Mostrar tudo é uma forma de buscar aprovação e, ao mesmo tempo, uma maneira de evitar o confronto com a própria solidão. "A crise da intimidade transforma tudo em matéria para ser mostrado, editado e exposto, dissolvendo aos poucos o vínculo consigo mesmo", aponta Leninha.
Como sair dessa lógica e deixar a autocobrança de lado? A resposta para essa pergunta não é tão simples, mas a psicanalista ressalta a importância de escutar atentamente o que ainda nos faz pulsar silenciosamente. É hora de reaprender a brincar, de fazer as tarefas sem esperar por aplausos. Em um mundo que já exige tanto da nossa atenção, resgatar o "fazer por fazer", sem a exigência de se tornar expert, pode ser um verdadeiro ato de autocuidado, até maior do que os dez passos de skincare da rotina coreana.









