Burnout digital: por que o futuro do wellness é analógico?
A hiperconectividade e dependência do celular criaram a sensação de profundo cansaço em relação às telas, especialmente quando falamos na geração Z, nativa das redes sociais. Entre as saídas possíveis, estão as fugas para o offline, já presentes até nas prescrições médicas
Todos os anos, o Oxford English Dictionary escolhe uma palavra que descreva como foram os últimos 365 dias — é uma espécie de captura do zeitgeist em um único termo. Para 2024, a equipe escolheu brain rot. Em tradução livre, seria algo como apodrecimento cerebral. "O conceito reitera um dos perigos percebidos da vida virtual e como estamos usando nosso tempo livre. Parece um próximo capítulo legítimo na conversa cultural sobre humanidade e tecnologia", disse Casper Grathwohl, presidente da Oxford Languages, em um comunicado na ocasião. Ainda era 2021 quando Ingra Nooyi, ex-CEO da Pepsico, viralizou em redes profissionais ao mencionar o termo "fadiga digital". Em tempos pandêmicos, ela traduzia a necessidade das pessoas de estabelecerem conexões diretas umas com as outras. Soou como a síntese de um sentimento de esgotamento em relação ao excesso de mediação digital para as nossas tarefas e relacionamentos. Passado esse período, mesmo com a retomada da vida presencial, o cenário não melhorou.
"Não temos como abandonar completamente o digital e estimular um movimento para que a nossa sociedade volte a ser analógica como um todo. A nossa vida toda já está ligada à tecnologia", argumenta a pesquisadora de tendências Daniela Klaiman. É fácil notar o que ela quer dizer: a hiperconectividade já mora nos pequenos hábitos. O despertador está no celular, assim como calendários de eventos pessoais e a agenda do trabalho. Se é aniversário de um amigo, o mais fácil é mandar um áudio no WhatsApp, enquanto o Waze mostra o melhor caminho para chegar ao escritório. Se não der tempo de fazer as compras do mês, sem problemas, alguns minutos no aplicativo do supermercado resolvem. Assim também sobra mais tempo para pagar as contas no site do banco, marcar a aula online para ir à academia, usar o smartwatch para contar as calorias e fazer o check-in no Gymrats. No fim do dia, uni-duni-tê nos canais de streaming e um aplicativo de meditação guiada para relaxar antes de dormir, com o anel inteligente para monitorar o sono, claro. Em nome da praticidade, boa parte das atividades cotidianas passaram a ser mediadas pela tecnologia. Essa é a dependência mais sutil, que soma tempo de tela mesmo para quem não passa horas no YouTube ou ama assistir a um Reels.
O agravante é quando ela também avança no espaço dos hobbies e, num pior cenário, na dependência. De acordo com um relatório global da Eletronics Hub, o Brasil é o segundo país do mundo em que as pessoas passam mais tempo em frente às telas. Em média, são nove horas e 32 minutos por dia, somando smartphones e computadores. Considerando oito de sono e 24 no total, fica fácil entender por que alguns especialistas já cunharam o termo burnout digital — referência à síndrome de burnout, que descreve uma condição psicológica causada por um estresse crônico no trabalho, responsável por exaustão emocional, despersonalização e queda do nível de realização pessoal.
"Em análise de tendências, começamos a falar em detox digital por volta de 2011. Movimentos sociais profundos precisam de tempo para se desenvolver, por isso o assunto passou a ser mais discutido nos últimos anos", introduz Iza Dezon, fundadora da consultoria e bureau de tendências homônimo. "Para começar, é importante lembrar quantos elementos do nosso entorno foram criados com a intenção de ter um caráter viciante: comida ultraprocessada, álcool, remédios, cigarro. No mesmo peso, estão as telas. A maneira como a gente usa a tecnologia e as plataformas digitais, hoje, para mim, é correspondente a um tabagismo. Subimos escadas usando telefone, jantamos usando telefone, fazemos dates via telefone", elucida.
"À princípio, o joy of logging out (ou "prazer em deslogar") vem depois do joy of missing out (ou "prazer em estar perdendo algo"). Primeiro, percebi que não precisava estar em todos os lugares ao mesmo tempo, nessa hiperatividade alimentada pela tecnologia. Depois, entendi que sair do online é um sinal claro: perdi o controle. Preciso me organizar, porque é quando estou desconectado que vivo minhas melhores memórias, meus melhores momentos, relações e versões de mim mesmo", detalha o movimento.
NEM TUDO PRECISA DE 4G
A alegria numa desconexão proposital com o mundo virtual também foi reportada no relatório anual de tendências do Global Wellness Institute para 2025. O documento apontou como número um da lista o chamado "bem-estar analógico". Segundo os especialistas responsáveis, ela responde a dois aspectos principais. O primeiro, é que cada vez mais pessoas começarão a realmente levar a sério a ideia de ficar offline, saindo de uma rede social ou restringindo o tempo de tela, ao mesmo tempo em que veremos o crescimento de diversos clubes de atividades presenciais e tecnologias analógicas — pense em clubes do livro, bares para ouvir música e ateliês para confecção de cerâmica. Beth McGroarty, vice-presidente da instituição, que escreveu a seção sobre o assunto, disse que veríamos nos próximos semestres um grande log off.
Um relatório da Mindbody de 2023 pontuou que 25% da geração Z e da geração Y nos Estados Unidos dizem que procuram atividades de "bem-estar" para se sentirem conectados uns aos outros. Em vez de maximizar, aprimorar e otimizar, especialmente lançando mão da conectividade, esses nativos digitais querem sair do campo online. Estima-se que uma pessoa consome, em média, 74 gigabytes de informação por dia. Isso é mais do que uma pessoa altamente educada consumiria ao longo de toda a vida há 500 anos. Nós nos deparamos, consumimos, lidamos e reagimos a um volume enorme de conteúdo desde a primeira hora do dia.
É por isso que o conceito do bem-estar analógico se diferencia do conceito de desintoxicação digital, pois não se trata apenas de sair da internet — o que, em muitos casos, pode parecer uma realidade surreal a depender da profissão, por exemplo. A ideia é reestabelecer as conexões analógicas com diminuição do tempo de tela. Também podemos falar em passatempos táteis, criativos, sociais, e não mais digitais para preencher o tempo.
A psicóloga paulistana Juliana Varella, de 22 anos, percebeu que a rotina estava completamente esvaziada de momentos de lazer. "Saía de casa às seis da manhã e retornava após às dez da noite. Notei que não tinha um momento fora das telas, nem tempo para mim. Consegui encaixar uma atividade lúdica para desopilar. Faço aulas de tecido circense e me conecto com meu corpo por meio do trabalho de força, mas também há a socialização com minhas colegas. Enxergo como um momento de humanidade no meu dia a dia", conta. Como psicóloga, avalia que há outros traços saudáveis no hábito. "Os hobbies que tanto ouvimos falar nada mais são do que uma forma adulta de falar do brincar, da diversão. Pessoas crescidas também precisam disso, porque, no propósito final, a funcionalidade é a mesma: autocuidado", argumenta.
No caso da estudante pernambucana Nathália Sá Teles, de 23 anos, foram quatro anos dedicados ao trabalho em uma agência de marketing, cuja rotina envolvia atividades de monitoramento de Instagram, análise de métricas digitais e criação de conteúdo. Contudo, chegou percebeu que era preciso dar uma pausa. Ela não crava que passou por um estopim, mas já somava sinais de cansaço. "Mesmo em momentos em que estava atuando presencialmente, não podia largar o celular. Chegou uma hora em que a minha vida se resumia às redes sociais e isso é completamente exaustivo", relata. A partir de então, também recorreu ao esporte. Passou a correr e a jogar tênis religiosamente. "Quando corro, a minha mente esvazia. É como uma meditação em movimento. Já quando estou na quadra, preciso me concentrar no movimento e na ação do outro para tomada de decisão, caso contrário, não tem jogo. Além disso, brinco que é lugar para networking, já que quem o pratica gosta muito do esporte e troca bastante", diz.
NATUREZA NA PRESCRIÇÃO
Imagine que em uma receita, além de vitaminas e alguns ajustes de medicamento, o seu médico também colocou "uma hora ao dia ao ar livre". Parece surreal, mas já é realidade em países como o Canadá. Além da recomendação, ainda fornecem passe com acesso anual aos parques nacionais do país, áreas marinhas de conservação e sítios históricos. Embora os benefícios para a saúde mental de estar ao ar livre sejam reconhecidos há muito tempo, as chamadas prescrições verdes estão agora sendo usadas como coadjuvantes no tratamento de condições físicas e psicológicas.
No Brasil, também chegam adeptos aos banhos de floresta, costume japonês de caminhadas em campos arborizados em estado meditativo. Já há passeios organizados pela prefeitura de São Paulo, por exemplo, de março a dezembro deste ano na Trilha do Jequitibá, situada no Parque da Previdência. Chamado Shinrin-Yoku, o método surgiu no Japão há mais de 40 anos como resposta ao estresse da população em meio à industrialização acelerada. Os projetos deram tão certo, que se tornou uma medida de saúde pública no país.
"Um médico prescrever tempo no parque é quase uma aula de bom senso. Faz parte de um movimento muito forte sobre saúde e longevidade", afirma Iza Dezon. Também podemos nos preparar para ver o turismo surfar nesta onda (literalmente). Pense em hotéis que promovem nados em mar e rio aberto, glamping (o camping de luxo) e outras atividades para férias no maior estilo retiro. "Já há influenciadores que viajam para avaliar a qualidade do sono em hotéis, porque a crise do dormir também tem muito a ver com telas", lembra.
O que precisamos levar em consideração é que a desconexão não precisa se relacionar, necessariamente, com experiências chiques. Ela pode morar nos pequenos hábitos, como não acessar os aplicativos logo ao abrir os olhos ou deixá-lo em casa na hora de se exercitar. "Não é à toa que a série The White Lotus começa com todo mundo deixando seus gadgets de lado. Há um luxo em poder se desconectar, mas precisamos entender que tempo e presença são os ativos mais caros que temos hoje", finaliza.









