Suicídio: precisamos falar sobre o tema -- e acabar com este tabu
Segundo a OMS, 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados. Como? Sem julgamento, com acolhimento e com humanidade
Por Renata Gonçalvez Piza
"Oi, tudo bem? Nossa, como você está magraaaaa! Que linda! O que você está fazendo para eu fazer também?” Pode confessar: quando você faz essa pergunta, espera receber como resposta algo do tipo: “menina, estou ótima mesmo. Perdi uns quilinhos porque virei vegana, voltei para a ginástica, estou super na correria e, sabe como é, o verão tá logo ali...”.
Mas e se eu, sua amiga, sua chefe, sua namorada, sua vizinha pudéssemos ser realmente sinceras e falar o que estamos sentindo – sem maquiagem, sem o filtro maravilhoso das selfies? Talvez, a resposta fosse essa: “perdi 7 kg em uma semana por conta de um transtorno de ansiedade. Não consigo comer, dormir, nem mesmo me concentrar no trabalho. Taí a verdade sobre a minha magreza. Vivo à beira do abismo”.
Difícil de ouvir, mais difícil ainda de falar: suicidio. Em um mundo com relações cada vez mais superficiais e com muita gente disposta a entrar nos ruídos das mídias sociais para defender apenas seu próprio ponto de vista, o que resta, na maior parte das vezes, é calar-se. Guardar a dor e sorrir num palco de horror, mais ou menos como canta Peter Gabriel em “My Body Is a Cage”. Morrer de palavras não ditas, como escreveu no Facebook uma conhecida minha, para quem liguei assim que comecei a escrever esta matéria.
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“A ansiedade só aumenta porque eu tento controlá-la. Prendê-la. Reprimi-la. Ela só quer ser ouvida, ela quer sair por todos os poros. Ela é um par de asas que você não deixa sair, vai crescer cada vez mais até que você seja sufocada por ela. E morra de palavras não ditas, de prazeres não satisfeitos, de gritos não dados.”
Veja só. Eu também estou nas estatísticas daqueles que leem, mas não veem. Foi preciso uma pauta para eu pegar o telefone dela e simplesmente perguntar, de verdade: “como você está, Pri? Me conta o que aconteceu?”. A tristeza também é uma velha conhecida minha. Ou seja, eu deveria ter mais empatia. Deveria estar mais disponível, mais disposta a trocar e mostrar minhas fragilidades, assim como as tantas que todos nós carregamos. Mas calei-me.
“As pessoas não costumam saber o que fazer diante da tristeza. É normal, por exemplo, elas começarem a comparar, a dizer ‘eu também já passei por isso, você tem que ser forte etc e tal’”, diz Carlos Correia, voluntário do Centro de Valorização da Vida desde 1992. “O que fazemos é ouvir muito e falar pouco. Acolher, sem julgar. E fazer o máximo de palestras e materiais informativos para educar as pessoas, desde a escola.”
Sim, suicídio é tabu. É ir para o inferno sem escala ou, pior, para o limbo. É ser covarde. Fraco. É querer chamar a atenção. São tantas as ideias preconcebidas que quebrar esse padrão requer um esforço coletivo. Requer encarar o suicídio – e suas causas – como doença; um problema de saúde pública, reconhecido pelo Ministério da Saúde; e deixar de ser visto com maus olhos até por alguns médicos e enfermeiros. “Nos hospitais, alguns profissionais têm preconceito. Eles estão lá em plantões intermináveis, tentando salvar vidas e deparam com alguém que tentou tirar a própria vida. Não entendem e podem ser pouco tolerantes”, acrescenta Carlos. “O suicídio não é aceito socialmente, é um movimento antinatural e não de preservação da espécie, portanto, as pessoas acabam tendo dificuldades em falar no assunto, seja por ignorância, preconceito ou estigma”, diz o médico Ricardo Moreno, diretor do Grupo de Pesquisa em Transtornos do Humor, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
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Reasons why
Nos Estados Unidos, uma em cada cinco pessoas em idade produtiva foi diagnosticada com depressão, uma das maiores fontes de angústia de quem cogita tirar a vida. Por aqui, terra do Carnaval, samba e sol, mais de um brasileiro se mata a cada hora, e outros três tentam se suicidar sem sucesso – são 32 vítimas por dia. E esses, vale lembrar, são apenas os números contabilizados.
“Mesmo pacientes em depressão leve podem cometer suicídio. Por isso, é fundamental fazer um diagnóstico o mais preciso possível, porque isso implica planejamento e escolha dos tratamentos na fase aguda e a longo prazo. Por exemplo, é preciso diferenciar depressão unipolar ou clássica (tristeza, pesar e/ou a perda de interesse por atividades do cotidiano) de depressão do transtorno bipolar (depressão em pessoas que enfrentam oscilações rápidas de muito bom humor e irritação), do transtorno de personalidade borderline (condição mental grave, que provoca medo irracional, mudanças súbitas de humor e problemas de autoimagem) ou da esquizofrenia (transtorno psiquiátrico complexo caracterizado por uma alteração cerebral, que dificulta o julgamento correto sobre a realidade)”, afirma Ricardo.
E vale ressaltar que a tristeza impossível de se lidar sem ajuda, aquela profunda – bem diferente de ter um dia ou uma semana ruim – é provocada por um misto de fatores, incluindo os genéticos. Em julho passado, por exemplo, Getúlio Vargas Neto se suicidou, aos 61 anos, trilhando os mesmos passos do pai e do avô, o ex-presidente Getúlio Vargas. “A depressão unipolar tem 20% de hereditariedade, enquanto no transtorno bipolar a taxa fica entre 70% e 80%. O que não sabemos ainda é quais são os genes ou sítios genéticos comprometidos e como se processa essa hereditariedade, uma vez que ela pode pular gerações, com proles sem a doença”, explica Ricardo.
Somado ao histórico familiar, situações de estresse funcionam como fermento e podem servir de gatilhos para aqueles que já estão vulneráveis. Foi o que aconteceu com a escritora Helena Gayer, autora do livro Me Diga Quem Eu Sou (Cia das Letras). Na obra, ela narra sua luta contra a personalidade bipolar, com altos e baixos, que lhe rendeu dez internações em hospitais psiquiátricos. A primeira crise começou na época da faculdade de Oceanografia e, até hoje, prestes a completar 51 anos, Helena ainda se vê envolta pela neblina verde da depressão, como dizia outro escritor, o americano F. Scott Fitzgerald. “Apesar de todas as internações, nunca tinha pensado em me matar. Mas isso mudou neste ano. Depois de uma discussão no trabalho, fui para a casa e me enchi de remédios. Quando meu marido chegou, me encontrou desacordada e me levou para o hospital”, conta ela.
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Para Pri, minha amiga do Facebook, o empurrão que faltava foi a doença de seu pai, que faleceu em 2015. Diagnosticada com síndrome do pânico desde os 22 anos, aos 35 ela enfrentou uma depressão seguida de despersonalização. “Me olhava e não sabia quem era. Parecia que estava num filme, que aquilo não era a minha vida. Cheguei a me bater e beliscar para ver se sentia algo. Tudo era tão ruim que fiquei egoísta. Mesmo tendo uma filha, queria acabar com aquilo, e a única maneira que via para conseguir isso era me suicidar.”
Linda, com trabalho, uma filha, o sonho da casa própria realizado, Pri segue a lista de itens que repassam para nós como seguro-felicidade, como se nada de ruim pudesse acontecer, nenhum bug no sistema. “Só quem passa por isso sabe o que é. Até hoje não consigo falar abertamente nem com a minha mãe. Faço terapia, tomo remédios, frequentei do espiritismo à umbanda. Mas, em alguns momentos, só penso em me livrar desse inferno.”
Como John Milton escreveu há centenas de anos, em O Paraíso Perdido, a verdadeira batalha entre o céu e o inferno é travada na mente humana. E muitas batalhas poderiam ser evitadas, se falássemos mais sobre isso – segundo a Organização Mundial da Saúde, 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados. “É preciso ter mais campanhas de conscientização, a exemplo das Doenças Sexualmente Transmissíveis e do câncer”, acredita Carlos, do CVV. “Quando esses temas passaram a ser falados, a prevenção se tornou bem-sucedida.”
Efeito Werther
Sim, falar sobre o suicídio é preciso. Porém, a fronteira entre informar e incentivar pode se mostrar tênue. O consenso entre os profissionais especializados é não reforçar métodos, muito menos glamourizar a ideia, transformando o suicídio em um ato Romeu e Julieta.
Em abril de 2017, por exemplo, os estudantes Kaena Novaes Maciel, 18 anos, e Luís Fernando Hauy Kafrune, 19, foram encontrados mortos em uma suíte do hotel Maksoud Plaza, em SP. Uma possível separação à vista (a família de Luís estaria se mudando de país) somada a uma falta de inadequação social são apontadas como combustíveis – Kaena já tinha dito a amigas que se identificava com a personagem Hannah Baker, da polêmica série 13 Reasons Why.
A série adaptada do livro homônimo de Jay Asher (2007) pela Netflix, aliás, reacendeu o debate sobre o chamado Efeito Werther: quando uma obra ficcional é apontada como percursora de tentativas contra a própria vida – o termo vem do livro Os sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, publicado em 1774, que teria levado um grupo de jovens a se suicidarem, inspirados pelo protagonista da história.
Em 13 Reasons Why, Hannah, uma adolescente que não é entendida pelos colegas nem professores, deixa 13 fitas cassetes narrando os motivos pelos quais se suicidou. Momento spoiler: se por um lado a série contribuiu para popularizar o assunto – a busca por auxílio no CVV aumentou em 455%–, por outro, é apontada como prejudicial, já que mostra cenas de estupro e de Hannah na banheira com os pulsos cortados. “Filmes, séries, biografias, livros, documentários ou qualquer material podem ser benéficos desde que contenham informações claras, baseadas em evidências, e que evitem discutir métodos de suicídio ou incentivem o ato como solução final”, ressalta o médico Ricardo Moreno.
Outros indutores sutis, mas emblemáticos, são a morte de astros da música, como Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, que se enforcou em julho passado, aos 41 anos, e de Chris Cornell, do Soundgarden, que se suicidou em maio. Famosos, ricos, bonitos, eles quase romantizam a ideia do suicídio, tal como os poetas do século 19 faziam com a tuberculose.Vamos deixar claro: tirar a própria vida não tem nada de glamouroso. É o último passo rumo ao abismo de quem nunca encontrou socorro, tampouco conseguiu se ajudar.
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