Perda gestacional na gravidez avançada: por que o óbito fetal acontece e quais os cuidados com a mãe
Especialistas indicam as principais causas e fatores de risco que podem levar à morte do bebê em uma idade gestacional avançada
Estima-se que 2,5 milhões de bebês nasçam natimortos no final da gestação e 3 milhões de mortes neonatais ocorram globalmente a cada ano. As perdas gestacionais em estágios avançados da gravidez podem ser atribuídas a diversos fatores, embora, em muitos casos, a causa permaneça inexplicada.
Aline de Melo Feitosa, obstetra e coordenadora da Semi-Intensiva da Maternidade São Luiz Star, da Rede D’Or, explica que entre as causas conhecidas que levam a um óbito fetal, destacam-se as anomalias congênitas, responsáveis por 10 a 20% dos natimortos, incluindo defeitos estruturais e genéticos graves. A restrição de crescimento fetal, frequentemente resultante de disfunção placentária, também aumenta o risco de morte fetal.
"Infecções congênitas, como toxoplasmose, citomegalovírus, sífilis, HIV e rubéola, podem levar ao óbito fetal, assim como infecções sistêmicas maternas, como pneumonia, pielonefrite, gastroenterites e sepse. Anormalidades genéticas, como aneuploidias (trissomias 13, 18 e 21), estão associadas a um risco aumentado de morte fetal. Complicações placentárias, como o descolamento prematuro da placenta, ocorrem em cerca de 1% das gestações, mas representam entre 10 e 20% dos natimortos. Anormalidades do cordão umbilical, como nó verdadeiro ou prolapso, podem interromper o fluxo sanguíneo fetal. Além disso, condições maternas, como hipertensão, diabetes, doenças autoimunes e trombofilias, aumentam o risco de natimorto. Anormalidades cardíacas estruturais ou canaliculares do feto também podem contribuir para esse desfecho", detalha a especialista.
Aline de Melo esclarece que existem diversas doenças pré-existentes na mãe e no bebê que podem influenciar significativamente na ocorrência de morte fetal em idade gestacional avançada. "Condições maternas como hipertensão arterial crônica, lúpus eritematoso sistêmico, diabetes pré-gestacional, diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e trombofilias podem comprometer a circulação uteroplacentária, levando à insuficiência placentária e, consequentemente, ao óbito fetal", especifica.
"Além disso, condições fetais como anomalias cromossômicas (por exemplo, trissomias 13, 18 e 21), malformações congênitas graves e infecções congênitas (como citomegalovírus, toxoplasmose e sífilis) também aumentam o risco de natimorto. É fundamental que essas condições sejam identificadas e monitoradas adequadamente durante o pré-natal para minimizar os riscos associados", pontua.
É possível prevenir ou evitar uma perda gestacional tardia?
"Prevenir a perda gestacional tardia é, hoje em dia, um desafio muito grande para os médicos, mas a realização de um pré-natal adequado e cuidadoso, somado a identificação de sintomas, como depressão alta e diabetes são importantes. Esses são alguns cuidados que podem nos ajudar a avaliar riscos. Quando existe o risco, identificamos se existe a possibilidade de perdas tardias. É uma situação muito triste, para a mãe, recém-nascido, famílias e para o médico que está acompanhando", declara Ana Paula Beck, ginecologista do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.
Além disso, Aline de Melo ressalta a importância de manter um estilo de vida saudável com prática de atividade física e alimentação balanceada, evitar o consumo de álcool, tabaco e drogas ilícitas contribui para o bem-estar da mãe e do bebê. Também é preciso estar atenta aos sinais do corpo: alterações nos movimentos fetais, sangramentos ou dores devem ser comunicados imediatamente ao profissional de saúde ou mesmo buscar a assistência hospitalar.
"Em casos de gestações anteriores com complicações, como natimortos ou complicações maternas, um acompanhamento mais rigoroso pode ser necessário, incluindo exames específicos e consultas mais frequentes e a busca por um obstetra com especialização em gestação de alto risco", completa Aline.
Quais são os próximos passos quando a perda gestacional é identificada?
Após a confirmação de uma perda gestacional, Aline explica que é fundamental que a mulher receba atendimento imediato em um pronto-socorro obstétrico para os cuidados médicos necessários. Nesse momento delicado, é essencial que a equipe de saúde ofereça um acolhimento empático, respeitando as emoções e o tempo do paciente.
"Além dos cuidados físicos, o suporte emocional desempenha um papel crucial. O acompanhamento psicológico pode auxiliar na compreensão e elaboração do luto, proporcionando um espaço seguro para expressar sentimentos e emoções. Esse apoio deve ser estendido à família, que vivencia o luto de forma única e pode ter diferentes formas de se despedir", indica.
"É importante que as instituições de saúde estejam preparadas para oferecer um ambiente adequado para pacientes enlutadas. Isso inclui a separação física de áreas com recém-nascidos e a criação de espaços que minimizem estímulos que possam intensificar a dor da perda. A implementação de protocolos específicos para o luto gestacional contribui para evitar traumas adicionais e garante um atendimento mais humanizado e sensível às necessidades dessas mulheres", aponta.
Sobre a via de parto e o momento, Aline ressalta que a conduta deve respeitar os desejos dos pais. Se não houver contra indicações maternas, é possível aguardar até duas semanas pelo início espontâneo do trabalho de parto desde que a mãe seja monitorada e acompanhada por uma equipe de saúde. A paciente também pode optar por internação imediata, com indução do parto vaginal ou cesariana, conforme viabilidade clínica. O risco de distúrbios de coagulação é raro, mas aumenta em casos de retenção fetal prolongada, especialmente após quatro semanas.
Quais são os cuidados necessários para a recuperação física e psicológica da mãe?
"Há sempre necessidade de uma recuperação psicológica numa perda tardia, por se tratar da perda de um filho, ainda que estivesse dentro da barriga. É necessário fazer o sepultamento e passar por todos os rituais do luto para o bem-estar da mãe. A recuperação do corpo, entretanto, é semelhante a de um parto convencional", examina Ana Paula Beck.
Aline lembra que a paciente passará por transformações puerperais como mudanças hormonais ou mesmo a lactação que poderá ser inibida. É fundamental, ainda, que a mulher receba acompanhamento médico para monitorar sua saúde pós-perda. Isso inclui a observação de sinais de infecção, controle do sangramento e involução uterina e avaliação do retorno do ciclo menstrual.
"O luto gestacional é uma experiência única e profunda. Buscar apoio psicológico pode ser essencial para lidar com sentimentos de tristeza, culpa ou ansiedade. Conversar com profissionais, participar de grupos de apoio ou contar com a rede de familiares e amigos pode proporcionar conforto e auxiliar na elaboração do luto. Temos alguns grupos de apoio como Instituto do Luto Parental (ILP), Colcha,Sobreviver podem trazer o conforto do entendimento do luto", finaliza a obstreta.









