Por que estamos obcecadas pelo consumo de proteínas?
Entenda como o culto ao corpo magro e definido, a desinformação nas redes sociais e o marketing da indústria alimentícia impulsionaram uma verdadeira fixação pelo consumo de proteína e quais são os riscos para a saúde
Se você passa algum tempo nas redes sociais ou já tentou seguir uma dieta viralizada, provavelmente já ouviu ou leu a frase: “tem que ter proteína em todas as refeições”. O que antes era um nutriente importante dentro de uma alimentação equilibrada, hoje virou quase uma obsessão coletiva. Produtos com rótulos em letras garrafais prometendo quantidades expressivas de proteína com diversos sabores disputam espaço nas prateleiras de supermercados, academias estão cheias de “gurus” da nutrição amadora, e perfis nas redes sociais reforçam diariamente que a ideia de consumir proteína em todas as refeições é o caminho correto para um corpo magro, seco e definido.
Mas por que, afinal estamos tão obcecados por proteína? A nutricionista Norma Guimarães, especialista em saúde da mulher e nutrição clínica, nos ajuda a entender esse fenômeno crescente, que tem muito mais a ver com a estética do que com a saúde – e traz riscos quando levado ao extremo.
A origem da obsessão: o retorno do corpo slim
De acordo com Norma, a popularização da proteína como “nutriente milagroso” começou com a volta do padrão de corpo dos anos 2000 – o "corpo slim", que caracteriza-se por ser magro, com aparência seca e definida. “As pessoas deixaram de querer ter o corpo típico brasileiro – quadris largos, glúteos avantajados e coxas grossas – e começaram a querer o corpo slim”, explica ela.
Para chegar lá, começaram a circular dietas com baixo teor de carboidrato e alto teor de proteína, como a cetogênica e a low carb, inicialmente promovidas por seus supostos benefícios metabólicos. A promessa de emagrecimento fez essas estratégias se espalharem – muitas vezes sem embasamento técnico ou acompanhamento profissional. “A dieta low carb surgiu como alternativa para evitar picos glicêmicos, mas acabou tornando-se sinônimo de emagrecimento. E, por consequência, quando você reduz os carboidratos, naturalmente aumenta o consumo de proteína”, pontua a nutricionista.
Proteína em todas as refeições: necessidade ou exagero?
É claro que as proteínas são fundamentais na construção e manutenção da massa muscular – assim como os carboidratos –, promovendo a saciedade e evitando picos de glicemia. Mas isso não significa que precisamos de shakes e barrinhas hiperproteicas o tempo todo. “A necessidade depende da idade, estilo de vida e objetivos, e quantidade deve ser calculada individualmente, por isso é tão importante contar com a orientação de um profissional e ter uma dieta que seja perfeita para você”, afirma a nutricionista. Segundo ela, a recomendação média para indivíduos saudáveis varia de 1,2 a 1,8 g de proteína por quilo de peso corporal por dia, valor compatível com as orientações de entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere de 0,8 a 1,2 g por quilo para adultos sedentários e valores superiores para pessoas fisicamente ativas.
Ou seja, sim, é necessário e benéfico ter proteína em todas as refeições, contanto que seja distribuída da forma correta e sem transformar isso em uma compulsão.
E os carboidratos e gorduras, viraram vilões?
Um dos efeitos colaterais dessa valorização excessiva da proteína é a demonização de outros nutrientes fundamentais – especialmente os carboidratos. “Consumir carboidratos virou sinônimo de ganho de peso. Muitas pessoas passaram a cortar o arroz, pão e batata da dieta acreditando que isso vai fazer com que emagreçam. Mas o contexto alimentar como um todo precisa ser analisado”, destaca a especialista.
O problema, segundo Norma, não está no carboidrato em si, mas sim no aumento do consumo de produtos ultraprocessados e na queda do nível de atividade física da população. “Precisamos considerar que houve um aumento no consumo de fast food – deliveries, como pizza e hambúrguer – e ultraprocessados – refrigerantes, salgadinhos, doces e bolachas recheadas –, que são realmente alimentos ricos em carboidratos e gorduras, além do crescimento da população sedentária. Mas os alimentos naturais e típicos da nossa cultura, como o arroz e feijão, acabam sendo os grandes injustiçados”, aponta a especialista.
Além do carboidrato, as gorduras também entram na lista dos demonizados. “Vejo uma resistência ao consumo de lipídeos, quando na verdade eles são essenciais para várias funções vitais, como a produção hormonal e a absorção de vitaminas. O que precisamos é focar na qualidade e na quantidade das fontes”.
Estética x saúde: qual o verdadeiro motor da tendência?
Na prática clínica, Norma percebe que a motivação para a supervalorização da proteína costuma estar mais ligada à estética do que à saúde. “Constantemente, vejo pessoas relatando que já cortaram todo o tipo de carboidratos da dieta e passaram a se alimentar apenas de proteína e salada”, relata ela. “Essa prática dificilmente é ligada à saúde, visto que a falta de carboidratos pode causar indisposição, dores de cabeça e irritabilidade, sintomas que passam despercebidos por elas”. Porém, a nutricionista também percebe pessoas preocupadas com o consumo de proteína, pois perceberam que o consumo de carboidratos estava muito alto, causando alterações na glicemia e poisa saciedade nas refeições.
Embora existam casos em que a atenção ao consumo de proteínas venha por razões de saúde, como em idosos ou pessoas com doenças crônicas, a motivação predominante ainda é a estética: ganhar massa muscular, “secar”, alcançar o tal “corpo definido”. “O problema é que muitas pessoas esquecem que a definição muscular depende não só da proteína, mas sim de um conjunto de fatores – como estímulo dístico, o descanso adequado e a ingestão equilibrada de nutrientes, inclusive carboidratos”, reforça a profissional.
Com o excesso de conteúdo e influenciadores mostrando o “corpo dos sonhos”, com uma alimentação rica em proteínas – além de serem patrocinados por marcas de suplementos –, acabam influenciando o público. “E, claro, a indústria se aproveita desse hype e lança cada vez mais produtos com proteínas, já que sabem que o consumidor deseja ter o mesmo corpo mostrado na internet”, pontua Norma.
O papel (e os perigos) da indústria alimentícia
Como já foi dito, não demorou para que o mercado percebesse a oportunidade de lucrar em cima da obsessão pela proteína. Suplementos, snacks proteicos, bolachas “fit”, balas, sorvetes, farinhas e até chocolates passaram a exibir a quantidade de proteína como principal atributo. ”A indústria sempre acompanhou e se aproveitou das tendências e, claramente, não seria diferente agora”, afirma Norma. “A obsessão pela magreza faz com que as pessoas se preocupem ainda mais com a alimentação e essa fascinação pela proteína tem total ligação com a estética que os consumidores buscam”, complementa. Porém, nem sempre o que está no rótulo corresponde à realidade. “Mesmo com a fiscalização rígida desses produtos no Brasil, muitas marcas ainda passam despercebidas com informações errôneas nos rótulos. Os únicos prejudicados são os consumidores leigos”, alerta a nutricionista.
E quando o consumo de proteína é exagerado?
O consumo exagerado de proteínas pode, sim, trazer efeitos negativos. Norma relata que já atendeu pacientes que, por conta própria, passaram a ingerir grandes quantidades do nutriente e apresentaram sintomas como fadiga, irritabilidade, alterações intestinais e nos exames de sangue, e até hálito cetônico. “A longo prazo e se estiver ligado ao baixo consumo de carboidratos, pode causar risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares – caso a fonte proteica seja, majoritariamente, vinda de carnes, que são fonte de gordura saturadas. Além disso, pode gerar sobrecarga hepática e renal em pacientes com predisposição.
Afinal, estamos perdendo o prazer de comer?
Talvez o efeito mais preocupante dessa obsessão seja o impacto na nossa relação com a comida. “Vejo muitas pessoas deixando de comer algo por não ser ‘proteico o suficiente’. Olham rótulos compulsivamente e fogem de carboidratos como se fossem inimigos mortais”, diz a especialista. “Esse comportamento afeta o convívio social, gera culpa ao comer e reforça uma ideia equivocada de que só é saudável quem segue uma dieta rica em proteína”, acrescenta. As pessoas esquecem que a alimentação também é afeto, cultura e prazer, e quando deixamos isso tudo de lado por um padrão estético inalcançável, o prejuízo pode ser enorme.
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A proteína é sim importante. Porém, a saúde de verdade não se resume a bater a meta de gramas diária. A alimentação também envolve respeitar os sinais do corpo, valorizar a diversidade alimentar e, principalmente, manter o prazer de comer.









