Tetraplégica após queda, atleta recupera funções com tratamento experimental brasileiro
Hanna Ribeiro encontrou no rugby e na ciência caminhos para reconstruir sua autonomia após uma lesão medular — e hoje acompanha os avanços da polilaminina, pesquisa liderada pela UFRJ
Quando tinha 19 anos, Hawanna Cruz Ribeiro foi tentar tirar uma pipa presa na antena da janela do seu quarto, possivelmente durante um episódio de sonambulismo. O beiral do terceiro andar, que parecia firme, cedeu. A queda foi de aproximadamente 10 metros. Era setembro de 2017 e o diagnóstico foi imediato: traumatismo craniano, três vértebras cervicais fraturadas e lesão medular. A família ouviu dos médicos que ela tinha apenas 1% de chance de sobreviver e que os primeiros dias seriam decisivos.
Hanna, como gosta de ser chamada, passou sete dias em coma. Quando acordou, lembrava do acidente, mas não podia mover o corpo do pescoço para baixo. Tornara-se tetraplégica. "Eu não tinha noção da gravidade das lesões. Achava que era só fazer fisioterapia e voltar ao normal", lembra.
A ficha demorou a cair. Meses depois, ao pesquisar sobre lesão medular, entendeu que não se tratava apenas de perder a capacidade de andar, mas de uma condição que altera funções vitais, controle urinário e intestinal, equilíbrio postural, sensibilidade térmica e tátil, autonomia e qualidade de vida. Foi nesse momento que Hanna começou a dimensionar a mudança.
Milhares de brasileiros convivem com lesão medular, sendo a maioria causada por acidentes de trânsito, quedas ou violência urbana. A regeneração do sistema nervoso central é um dos maiores desafios da medicina moderna. Diferentemente de outros tecidos do corpo, neurônios lesionados têm capacidade extremamente limitada de se reconectar espontaneamente. No caso de Hanna, além do impacto físico, houve um abalo profundo em sua identidade. Ativa e esportista desde a infância, ela se viu completamente dependente de terceiros para realizar tarefas básicas.
Do futebol à cadeira de rodas
Criada no Complexo de São Carlos, no centro do Rio de Janeiro, Hanna começou a jogar futebol aos quatro anos. Chegou ao profissional ainda na adolescência e sempre associou o movimento ao senso de identidade. Depois da lesão, veio o que ela chama de "tempo de rebeldia", um período em que se recusava a aceitar a cadeira de rodas como parte da própria vida. O rugby adaptado lhe foi apresentado ainda no segundo ano de reabilitação, mas ela rejeitou. "Meu foco era voltar a andar", conta.
Foram anos emocionalmente difíceis. Até que, em 2023, decidiu experimentar. Sentou-se na cadeira de rugby pela primeira vez e não saiu mais. Hoje é atleta profissional, atua pelo Gladiadores de Curitiba, e está no segundo ano consecutivo na seleção brasileira da modalidade.
"O rugby salvou a minha vida. Ele me fez me enxergar de novo e entender que a cadeira era um detalhe"
O esporte de alto rendimento trouxe ganhos físicos evidentes, mas também funcionou como reconstrução psíquica. A cadeira deixou de simbolizar perda e passou a representar ferramenta de autonomia.
Ciência brasileira no centro da história
Foi em 2019 que Hanna ouviu falar pela primeira vez da polilaminina, substância experimental para o tratamento de lesões medulares fruto de mais de 25 anos de pesquisas lideradas por Tatiana Coelho de Sampaio, professora doutora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A laminina é uma proteína essencial da matriz extracelular, estrutura que dá suporte às células e orienta seu crescimento. No sistema nervoso, ela funciona como um "guia biológico", favorecendo a conexão entre neurônios. A hipótese que guiou a pesquisa era ambiciosa: potencializar essa proteína poderia estimular a regeneração das fibras nervosas lesionadas. A polilaminina, por sua vez, é uma versão polimerizada da laminina, desenhada para ampliar seu efeito regenerativo. Em modelos experimentais, a proteína demonstrou capacidade de reorganizar circuitos neurais e estimular reconexões.
Inicialmente, o tratamento foi pensado para lesões agudas e deveria ser administrado nas primeiras 72 horas após o trauma, antes da formação da cicatriz medular. Em pacientes crônicos, como Hanna, a fibrose atua como uma barreira física e química à regeneração.
Ela foi convidada a participar do estudo justamente para avaliar o comportamento da substância nesse cenário mais desafiador. "Eu tinha pouquíssimo movimento nos ombros e nenhuma independência real. Sabia dos riscos, mas também sabia o que significava não tentar." A aplicação ocorreu em dezembro de 2020, durante a pandemia, o que limitou o cumprimento ideal do protocolo intensivo de fisioterapia previsto pela equipe. Ainda assim, os avanços surgiram.
O primeiro sinal foi inesperado: uma mosca na canela. "Eu tomei um susto quando senti o inseto. Foi ali que vi que estava dando certo", lembra. A partir desse episódio, vieram outras mudanças graduais. Hanna recuperou sensibilidade térmica, ainda que com alguns segundos de atraso, percepção de dor e sensibilidade na bexiga e no intestino, com controle parcial dessas funções. Ganhou musculatura nos braços e nas costas, além de movimento de punho que não possuía antes.
Ela estima ter recuperado entre 60% e 70% do controle do tronco. "Não tenho nenhuma dúvida de que houve uma melhora significativa." Na prática, isso significa conseguir manter o equilíbrio ao enfrentar desníveis com a cadeira, alimentar-se sozinha, abrir uma geladeira, sair para atividades simples e viajar com a seleção brasileira. Ela ainda depende de auxílio para tarefas que exigem a parte inferior do corpo e não possui movimento nos dedos. A independência total não é realidade, mas a autonomia conquistada representa um salto funcional expressivo.
O próximo passo: enfrentar a cicatriz
Um dos principais obstáculos na lesão medular crônica é a cicatriz interna formada após o trauma. Essa fibrose impede que os neurônios voltem a estabelecer conexões eficazes. Atualmente, a equipe da UFRJ investiga estratégias para modular ou remover essa barreira antes da aplicação da polilaminina, ampliando seu potencial regenerativo. Estudos em modelos animais já indicam resultados promissores.
Ao todo, são 26 anos de pesquisa desenvolvida majoritariamente dentro de universidade pública brasileira em um cenário frequentemente marcado por restrições orçamentárias e instabilidade no financiamento científico. Durante anos, o estudo foi mantido sob sigilo acadêmico até que dados mais consolidados permitissem divulgação responsável.
Hanna mantém contato com a Dra. Tatiana e com outros participantes da pesquisa. Recebe diariamente mensagens de pessoas que acompanham sua história. "Só eu sei o que eu não tinha antes e o que tenho hoje. Sinto que a minha história é uma defesa da ciência pública."









