Mantra para 2025: roupa não tem idade
Perto de completar 40 anos, a colunista Carla Lemos sobre a pressão para mudar o estilo por conta da idade
Neste ano de 2025, quando chegamos ao primeiro quarto do século 21, completo 40 anos. Uma idade mítica na vida das mulheres. Idade da Loba, como essa fase ficou conhecida na cultura popular. Uma fase na qual as mulheres adquirem mais consciência sobre si, sobre quem são, quais suas vontades, desejos. E, também, uma fase que a sociedade costuma impor ainda mais estigmas sobre elas: como devem se portar e se vestir. Mas esses estigmas que acompanham o envelhecimento das mulheres, começam muito antes.
Meu primeiro choque se deu aos 30. Um dia, correndo para o portão de embarque em Congonhas, olhei no espelho no aeroporto e me vi com camiseta, saia curta, moletom e all star. Um look nos mesmos moldes do que eu usava quando tinha 15 anos. Quando trouxe esse questionamento pras minhas seguidoras, várias relataram os mesmos dilemas sobre o que era, ou não, adequado usar na chegada dos 30. Muitas sentiam a pressão, especialmente de familiares, para não usarem roupas curtas e peças da época da adolescência “você não tem mais idade pra isso”. E roupa lá tem idade?
Segundo os guias de estilo do século passado, sim. Eram eles que ditavam regras de “bom gosto” para mulheres depois dos 40. A regra era cobrir os braços e as pernas. Nada de minissaia ou vestido de alcinha, muito menos cabelos longos. Mulheres nos “enta” tinham que ter a sua sensualidade, seus corpos e seus desejos camuflados. Mas isso não condiz mais com a realidade das mulheres do século 21.
Nas minhas aulas de Cultura de Moda no IED (Istituto Europeo di Design), quando falo de etarismo na moda, sempre dou exemplo de duas séries: Golden Girls dos anos 80 e a recente And Just Like That, a continuação de Sex and the City. As duas retratam as histórias de amigas na faixa dos 50 anos. No cartaz de divulgação da primeira, todas as mulheres têm cabelos curtos, roupas largas, mangas compridas, sem decotes ou pernas à mostra. Na segunda, temos braços e pernas de fora, decotes e cabelos longos.
Nós, nascidas no século 20, crescemos com a estética de Golden Girls no nosso imaginário de como uma mulher acima dos “enta” deveria se parecer. Romper com isso, é mais que uma urgência: é uma necessidade latente.
O reality “Amor sem Idade”, produzido pela ex-primeira dama estadunidense Michelle Obama, que estreou no final de 2024 na Netflix, mostra pessoas 50+ buscando romance. Uma das participantes, de 62 anos, se arruma para o primeiro encontro e coloca um vestido super justo e curto. Minha primeira reação foi de choque. Não um choque negativo, veja bem. Um choque positivo, vibrando por ver aquela mulher tão plena e segura de si, sem amarras para usar o que favorecia o seu corpo e seu espírito.
Uma mulher segura de si é uma mulher que muda o mundo. Então, sempre foi uma estratégia de controle social impor regras de “bom senso”, para condicionar as mulheres dentro de caixinhas que contribuíssem para que elas não questionassem seu lugar no mundo. As roupas, que influenciam diretamente na forma como nos sentimos, nos vemos e somos vistas, têm papel importante nisso. Como eu digo no meu livro, Use a Moda a Seu Favor, controlar a roupa das mulheres é controlar sua identidade, seus sentimentos, sua sexualidade e seu pensar.
Enquanto essa onda de empoderamento bate forte em mulheres da geração X e Y (também conhecidas como millennials), uma onda de conservadorismo atinge jovens da geração Z nas redes sociais, especialmente no tiktok, onde viralizam vídeos de “consultoras” ditando regras que parecem ter saído de livros de 1920, querendo determinar o que é de “bom gosto” ou não.
Essas jovens crescem em um mundo tão diferente, com tantas barreiras derrubadas. E, ainda assim, parecem querer criar muros em torno de si mesmas – talvez, por não saberem o que fazer com o poder de escolha que lhes é dado.
Uma coisa, no entanto, é certa: Não vamos recuar. E não vamos mais aceitar que ninguém, além de nós mesmas, determinemos se temos idade ou não para usar roupas curtas, justas, coloridas, do jeito que for. Ninguém vai nos dizer se se temos idade ou não para vivermos nossas vidas do jeito que bem entendemos -- e tampouco irão ditar quais looks usaremos pra expressar nossa liberdade.









