Colunista da Glamour Brasil, psicanalista e pesquisadora de relações e amor
Por que a gente tem precisado de ferramentas para criar intimidade?
Carol Tilkian, nossa colunista de relacionamentos, reflete sobre a necessidade de criar roteiros para criar conexão com alguém. É mesmo necessário ou basta viver o momento?
Depois de muitos encontros mais ou menos parece que, finalmente, você conheceu alguém promissor. Enquanto ele te serve a taça da segunda garrafa de vinho de vocês, você agradece mentalmente sua aula de yoga das 18h que te fez repetir o "entrego, confio, aceito e agradeço" e, com isso, te empurrou pra fora do modo "control freak, autocentrada prestes a preferir ficar sexta em casa, lendo Annie Ernaux, comendo saudável e dormindo cedo pra yoga do sábado" para arriscar a mudança de planos e, na última hora, aceitar o encontro com o Guto. Você nem sabe muito dele. Sabe que é recém-separado, amigo do namorado da Clara, meio intelectual, meio de esquerda…. O resto quis deixar para descobrir ao vivo, se valesse a pena. Tantas vezes a gente passa horas stalkeando para nada né? Melhor deixar ver o que vai acontecer.
E eis que… está acontecendo. E agora, como faz? Guto se levanta para ir ao banheiro. Sorri. Você sorri de volta. Olha ao redor e percebe que há poucos casais tão entrosados quanto vocês. O garçom já tá meio cansado e você não quer ser a chata que faz ele ficar esperando até tarde. E agora? Como proceder? Você tá achando Guto incríveL, mas ainda tá muito muito no papo fofo do começo. Ainda não deu para arrasar nos papos profundos, nas citações de Annie Ernaux, numa ref de Fellini jogada como quem não quer nada, numa pergunta sobre trauma de infância que não pareça invasiva, mas que crie aquela bolha de conexão maluca de "nossa… nem sei como tô te contando isso…. Nunca falei isso pra ninguém". E você responde: "louco né, parece que a gente se conhece há um tempão!" ( tá bom, essa resposta é clichê! Mas o tempo do xixi é rápido e não ta dando para pensar algo melhor…). Como faz para criar intimidade? Para criar essa bolha da conexão que deixa gosto de quero mais ; de infinito particular?
De repente, você se vê abrindo o Pinterest e digitando "Ideias para iniciar conversas profundas". Meio sentindo que está roubando no jogo, meio se sentindo num remake 2024 de Show do Milhão apelando para os universitários versão IA, você sutilmente coloca o celular no colo e vai soltando charmosamente as perguntas da listinha sugerida para construir a tal intimidade prometida. E aí, será que Guto vai abrir essas portas da esperança?
Seguindo as refs de nomes de programas anos 80, pedir essa ajuda às listas de forma tão sistemática "parece mentira, mas não é". Não só não é mentira, como é tendência. Recentemente foi lançado o "Pinterest Predicts Report", um relatório Global que aponta o que os mais de 482 milhões de pessoas que usam a plataforma andam buscando por lá, para a gente mapear algumas tendências de comportamento para o que está por vir. Se você, assim como eu, achava que o site era maravilhoso pra refs lindas de móveis e makes, saiba que tem muita gente buscando formas de hackear o amor e encontrar ferramentas para aprofundar o papo e construir intimidade. Sim, essas são algumas das buscas com maior crescimento no último ano: a busca por “Ideias para iniciar conversas profundas” cresceu 185% ; “Perguntas para casais se reconectarem” cresceu 480% ; “Perguntas criativas” cresceu 825% e o termo “Intimidade emocional” teve sua procura aumentada em 40%.
O que isso quer dizer sobre nós? Por que a gente tem precisado de ferramentas para criar intimidade? Tentando olhar o copo meio cheio, podemos valorizar o fato de estarmos cansados de papos rasos e encontros no mood "solteiros got talent", onde parece que a gente tem 1 hora e meia e duas garrafas de vinho para arrasar mostrando nossa melhor versão. Inclusive, segundo uma pesquisa do Bumble de 2023, 55% dos solteiros dizem que se sentem pressionados a procurar constantemente maneiras de melhorarem a si mesmos e 1 em cada 3 se sentem indignos de um parceiro se não investirem em si mesmos. Você se reconhece nessa lógica? Sim ou com certeza?
Sim, estamos exaustos de performarmos "nossa melhor versão" e finalmente entendemos que todo o discurso de autodesenvolvimento, na verdade, se tornou um enorme movimento de angústia e opressão. Nos vemos sozinhas, inseguras, querendo impressionar nossos Gutos e ansiosas para que essa boa impressão role rápido, porque ainda temos medo que, se a construção da intimidade não acontecer o quanto antes, nossa janela de oportunidade se perca para sempre e nós nos vejamos presas no limbo do quase íntimo, quase amor.
Lembro até hoje que um amigo repetia a história de Kairós toda vez que queria me incentivar a me guiar pelo meu desejo e também pela minha ansiedade. Para a mitologia grega, Kairós é o símbolo do momento oportuno; aquele momento indeterminado no tempo quando algo pode acontecer e mudar tudo. Kairós é representado por uma figura que tem uma trança na testa e é careca na nuca, para nos lembrar que “Só podemos agarrar a oportunidade quando ela está vindo, pois depois que passou não temos mais onde segurá-la”. Talvez esteja ficando mais claro porque a gente quer que o Pinterest e o Google respondam para nós como construir intimidade. Estamos presos nesse labirinto de pensamento de que, se não agarramos a oportunidade neste encontro, nessa conversa, nessa viagem… pode ser que um outro alguém arrebate esse coração do Guto e a gente não seja A pessoa que foi marcante; que o atravessa, que foi especial.
Percebo, também, que o desejo nobre de construção de intimidade - muitas vezes embalado num discurso de vulnerabilidade e profundidade - traz consigo boas doses de apego e medo do desconhecido, do infamiliar e do silêncio. Digo isso pois, ao consultar o dicionário Oxford, percebo que intimidade é "relação muito próxima; amizade íntima; familiaridade". A gente já quer grudar rápido para a pessoa não poder ir embora. Quer ficar bem próximo para fusionar. Quer a familiaridade para evitar o estranhamento…. Infelizmente, trago notícias duras mas libertadoras: somos todos estrangeiros e estranhos. Não existe familiaridade absoluta. Uma intimidade real é aquela que estranha o outro. Que o perde, que o deixa passar. Que acolhe o medo, se sacode por ele, transborda o medo com o outro e lida junto com esse vendaval.
Me parece contraintuitivo buscarmos fórmulas justamente nessa jornada rumo a algo tão singular. Será mesmo que as mesmas ferramentas levarão cada um de nós a intimidade uns dos outros? Ou dizemos estar corajosos rumo ao profundo, sem perceber que seguimos medrosos e no raso, pois estamos com boias nos braços e nas mentes - as tais planilhas com frases feitas e ordens prontas? Seriam essas perguntas profundas a versão 2024 dos 12 passos para conquistar um homem de alto valor vendidos pelos coaches desde 2015?! Acho que podemos ser mais corajosos para mergulharmos nas nossas profundezas e na profundeza do outro, não acha?
Buscar "mapas da mina" genéricos das intimidades humanas é querer transformar em biológico e científico algo que está mais na ordem do psicológico, do místico, do espiritual, do astrológico (para os amantes de signos).
Conversando com Marina Roale, antropóloga brilhante da Consumoteca, ela apontou que a geração Z é a geração dos tutoriais, dos hacks… Penso que minha geração millennial é a que se deslumbrou com o advento do Waze depois de passar a infância anos 90 se perdendo com os pais tentando ler os mapas do guia 4 rodas. E desse deslumbre todo a gente esquece que tem caminhos que não se perguntam, se exploram, se desbravam. Talvez perguntar sobre "qual foi a viagem mais marcante na sua vida" seja um portal para histórias incríveis para alguém e uma pergunta vista como pseudopedante para uma outra pessoa. Não dá pra saber. Para mim, lista ajuda a gente em muita moica, manual também. Mas tem áreas da vida que tem que ser feitas no improviso e na intuição. Da medo? Dá. Mas "Não existe amor sem medo, boa noite", já nos diria Djavan.
Intimidade, para mim, é assim. Algo mais construído no silêncio incômodo que vira cômodo, no assunto que surge no improviso. No instante da suspensão. Na reação depois do pum na primeira noite dormindo juntos. Num choro que vem sem querer contando uma história de infância. Num atravessar a rua de mãos dadas. Intimidade é se perder com o guia 4 rodas, sustentar o climão e rir junto do mau humor depois. É perder a oportunidade e correr atrás de uma nova.
Como diz Esther Perel: "Share life means more than tell life" ( compartilhar a vida significa mais do que falar sobre a vida ). A grande intimidade se constrói a partir de pequenos momentos. Banais. Achados e perdidos.
Respeito os gregos. Respeito o Pinterest. Mas não acho que as oportunidades passem uma vez só. Não acho que a gente precise ter listas para tudo. Dos gregos, penso que intimidade é podermos, aos poucos, irmos abrindo nossas caixas de pandora uns para os outros, lembrando sempre que quem sempre fica dentro dela é a esperança. Em nós, no outro, no amor. E na nossa capacidade de criar intimidade com menos ferramentas e mais presença, paciência, encontros e desencontros, não acha?
Topa desligar seu GPS emocional e guardar seu script no próximo encontro? Que a gente possa se abrir para mais histórias de amor "contato improvisação" e menos romances com papéis fixos, falas definidas e ganchos de conversas que direcionam, mas reduzem algo que pode ser infinitamente incorreto, mas lindo e vivo.
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