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Gui
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Por Gui Takahashi (@guitakahashi)

Jornalista e criadora de conteúdo digital. Gosta de refletir e falar sobre beleza, comportamento e sociedade.

Strawberry makeup, latte makeup, glazed donut nails, tomato girl makeup, honey lips… A lista de virais de beleza impulsionados pelas redes sociais é longo, principalmente pulverizados no TikTok. Os bureaus de tendências já apontavam há algum tempo que os ciclos estão cada vez mais curtos. Se antes uma trend poderia levar dois anos para surgir e se consolidar, hoje ela pode acontecer do dia para noite graças à frenética internet (ou ao alto poder de influência dos posts de Hailey Bieber).

Em um mundo em que já exploramos muitas possibilidades de pintura facial à maquiagem, é cada dia mais difícil criar algo realmente novo. No entanto, o capitalismo não dorme, por isso, reembala do mais antigo viral até o mais cotidiano “arroz com feijão” com novas etiquetas, apetitosas e suculentas, sempre sintonizadas com o zeitgeist.

Basicamente, seguindo a lista que mencionei, rebatizamos o blush com cara de saúde e sardas fake, o olho marrom esfumado, a manicure com top coat cintilante, maquiagem com blush “queimadinho de sol” e boca com acabamento metálico dourado. Sim, vou concordar se você me disser que isso não é de hoje. Mas a pergunta que ressoa é: por que estamos tão obcecados em dar nome de comida a essas tendências? Pensei em algumas hipóteses.

Desde os primórdios da maquiagem, a gente usa produtos relacionados a alimentos para pigmentar o rosto, os olhos ou os lábios. Alguns registros do Egito Antigo revelam que para contornar os olhos eram usadas amêndoas queimadas maceradas com cinzas e galena (uma espécie de mineral à base de grafite). Já na China Antiga e no Japão, durante o Período Edo, as mulheres usavam pó de arroz para deixar o rosto branco.

Várias culturas indígenas também usavam e ainda usam pigmentos de plantas e sementes para suas pinturas faciais. Durante a Segunda Guerra Mundial, diante da escassez de matérias-primas, o suco de beterraba se tornou uma alternativa ao batom. Além disso, não faltam receitinhas caseiras de beleza que conhecemos até hoje e são relacionadas a alimentos, como a máscara capilar de abacate, que por ter ácidos graxos pode nutrir os fios, ou o vinagre também passado no cabelo para supostamente dar mais brilho, e daí por diante. Em outras palavras, já está culturalmente assimilado associar comidas a rituais de beauté.

Depois da revolução industrial, o cenário começa a mudar um pouco. Com o surgimento de técnicas mais refinadas de extração de ativos e até o desenvolvimento de ingredientes sintéticos, nos afastamos um pouco do uso de matérias-primas naturais para, nas últimas décadas, retomá-las sob o argumento de serem mais ecológicas, nutritivas, potentes, vitaminadas e menos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.

Com tudo isso, associamos inconscientemente de que se um alimento é bom o suficiente para ser ingerido, por que não seria bom para estar na pele? Hoje, é muito comum que as marcas destaquem os ativos naturais nos rótulos, mesmo que estejam em ínfima concentração na fórmula ou sejam responsáveis pelo benefício final do cosmético. Isso tudo para não dar crédito a algum derivado de petróleo, silicone ou outro sintético — ativos que têm dividido opiniões na comunidade de beleza.

Outro fator, acredito eu, tenha a ver com o nostálgico e o lúdico. O universo das fragrâncias já vinha, desde o lançamento de Angel de Thierry Mugler, em 1992, experimentando uma “gourmandização” dos perfumes. Ou seja, de lá pra cá, a gente tem sentido em 10 de cada 10 perfumes lançados notas adocicadas de baunilha, ou praliné, ou chocolate, ou fava tonka, ou caramelo, ou pistache, ou amêndoa doce etc. É como se o cheirinho doce nos transportasse para boas lembranças infantis, quase como o Barbiecore fez esse ano, nos levando a um lugar seguro, acolhedor e açucarado da memória.

Assim, dar nome às trends de beleza que explorem esse sentimento é sinônimo de sucesso. E não faltam collabs de marcas para validar o ponto. A Sheglam, da Shein, por exemplo, teve uma coleção de maquiagem toda inspirada pelo filme A Fantástica Fábrica de Chocolate, cujo tema geral é o doce com ar nostálgico. Era possível comprar makes com fragrância achocolatada, gloss marrom, paleta em formato de barras... E não para por aí.

O Boticário viu as suas prateleiras esvaziarem ao lançar uma linha corporal com em parceria com a Bubbaloo. Quem Disse, Berenice? apostou em maquiagens com fragrância da bala 7 Belo. A Carmed emplacou um hit com seus hidratantes labiais com cheiro de bala Fini. E a Beleza na Web se tornou case na Youpix demonstrando alcance e engajamento superiores nas redes com o quadro “Beleza à Mesa”, que alia cosméticos com receitas saborosas.

Também em termos de linguagem, para fazer uma trend virar hit de beleza, é útil trazer consigo o máximo do sensorial, do satisfatório. E a comida faz isso com seu visual, cheiro, sabor e textura. Não à toa, no Brasil usamos o termo “gostoso(a)” para demonstrar um apreço de atração (até sexual). A palavra ultrapassou o saborear e hoje, usamos para o que pode ser bom de se ver, tocar ou cheirar.

Quando pensamos na strawberry makeup, ela combina o visual glowy suculento de um morango com a pele lisa com turgor de fruta madura, o avermelhado saudável com o sabor doce invariavelmente associado... Assim, digo que é possível entender a causa da onda de trends com nomes de comidas. Mas acho que a brincadeira já deu. Podemos ser mais criativos ao batizarmos as próximas makeups. O que você acha?

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