Jornalista e criadora de conteúdo digital. Gosta de refletir e falar sobre beleza, comportamento e sociedade
"Procedure shaming" e o sadismo em falar do procedimento estético alheio
Beleza é virtude, vaidade é pecado. Quem é você na discussão sobre procedimentos estéticos?
"Realmente, tem gente que perde totalmente a noção dos procedimentos estéticos, exagera, perde a naturalidade, fica vulgar e com cara de mexida", alertava a mediadora de um talk sobre beleza, em meio a cirurgiões plásticos e dermatologistas no palco, em um auditório cheio. Era um evento organizado por uma farmacêutica para falar de estética médica. Logo em seguida, não satisfeita, ela entoou uma lista de celebridades, nominalmente, que, segundo a sacra opinião, tinham errado a mão nas intervenções.
Fiquei um pouco espantada com a falta de pudor de nomear publicamente pessoas assim, como lista de chamada dos maus alunos. Foi aí que pensei no termo "procedure shaming". Ele seria análogo ao body shaming por imputar à pessoa que é alvo das críticas a vergonha, fazendo com que ela se sinta constrangida, mas não por seu peso, altura, tipo corporal e, sim, pelas intervenções estéticas que resolveu fazer.
Quem nunca ouviu esses comentários sorrateiros sobre a imagem de alguém, sobretudo falando de pessoas públicas? Parece que existe uma satisfação naqueles que tecem essas críticas por terem conseguido desvendar com olhos biônicos que procedimentos foram feitos e que, em tese, deveriam passar despercebidos. Além de se colocar em um patamar acima no bom senso estético pra poder falar dos outros sem medo de terem teto de vidro.
E nessas horas, pra fundamentarem o julgamento alheio, a "naturalidade" é o argumento-bala-de-prata. Chega a ser engraçado perceber que o “procedure shaming” raramente se autoriza falar em alto e bom tom "ficou feio", mas recorre ao eufemismo "não ficou natural" como se fosse indiscutível e até mais técnico pra envergonhar alguém. Além disso, partir da premissa de que todos buscam a naturalidade ao fazer algum procedimento é presumir algo que pode ser falso.
O gosto e o desejo do outro pode fugir à vontade de um resultado harmônico, equilibrado e tido como natural. Até porque, afinal, o que é natural? E natural pra quem?
Mais uma vez, um discurso que tenta controlar os corpos alheios para que sejam medidos com a régua do padrão, desta vez do que lhe é dado pela natureza e, logo, livre de pretensões. Normalmente, o procedimento estético já é feito na busca de se alcançar uma aparência mais harmônica, equilibrada, simétrica, proporcional e até jovem. Tudo isso, inundado pelo pack do que entendemos que seja o belo. Mas não basta fazer as aplicações, injeções, é preciso que além de atender a esse padrão estético, também atenda ao padrão de naturalidade. Lembra daquele discurso de que você precisa ser sexy, mas não pode ser demais porque senão fica vulgar? E se trocarmos para: você precisa ter um rosto harmônico, mas não pode ser demais, porque não fica natural? Não te soa familiar?
Outro argumento que acho interessante, que se repete pra fazer o “procedure shaming”, e que também surgiu no evento que citei, é: "Esse exagero de procedimentos acontece, porque a pessoa não tem quem diga que precisa parar!" Acho que isso revela o quão auto-intitulada de uma consciência superior certa galera está, a ponto de acreditar que precisam realizar uma intervenção que remove a autonomia, a autodeterminação sobre o corpo de alguém em nome do que acham ser esteticamente aceitável. Chegam a pensar em tratar como incapazes ou como crianças, adultos que pagam pelos seus próprios procedimentos. É claro que aqui, não estou descartando os benefícios de um paciente se consultar com bons profissionais, médicos, e também pedir a opinião de amigos próximos. Mas estou apontando onde chega o “procedure shaming” que desconsidera a escolha de alguém pra torná-la alvo de chacota.
Sem falar que esse intervencionismo sugerido, por si, também revela que procedimentos estéticos podem se tornar um escape pra inseguranças e, assim, sintomas de uma compulsão. E quem está passando por isso poderia precisar de uma intervenção como fazem com pessoas em casos críticos.
Mas me pergunto se, nesses extremos, ao invés de constrangimento, as pessoas que, de fato, sofrem de questões psicológicas relacionadas à autoimagem não precisariam mais de acolhimento, apoio e ajuda psicológica do que constrangimento social.
Sinto ainda que paira no tom de quem profere o “procedure shaming” um entendimento de que se o outro decidiu fazer procedimentos, ele assumiu conscientemente o risco de não ter um bom resultado ou não agradar o outro e, portanto, pode ser alvo de críticas. Quase como quem diz "fez porque quis, então, agora aguenta". Afinal, vaidade não é virtude, é considerada pecado e, portanto, poderia ser vigiada e punida quando o mito da beleza natural não é alcançado.









