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Manu Xavier
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Por Manu Xavier (@manuelaxavier)

Comunicadora e referência em narrativas femininas, psicanalista e doutora em psicologia

Março, mês da mulher, e vimos nos jornais uma jovem de 25 anos ser esfaqueada em Vila Velha, outra, de 17 anos, ser brutalmente assassinada em Cajamar. Em Campos Elísios, uma mulher de 56 anos foi morta em frente à sua casa, se somando à triste estatística de uma mulher morta a cada 17 horas vítima de feminicídio no Brasil. Tendo em vista esse cenário, a gente poderia responder que ser mulher é ter medo. Mas se é a morte que nos assombra, eu pergunto: qual é a vida que nos espera?

A violência contra a mulher que coloca o Brasil no quinto lugar do ranking do feminicídio faz de todas nós sobreviventes, mas também projeta em nós um certo modo de defesa que mina silenciosamente as nossas grandezas. Somos desde muito novas apresentadas a uma cartilha de comportamentos que definem o que é ser mulher com a promessa de que, se seguirmos direitinho, seremos admiradas pelos outros, amadas pelos homens e protegidas por eles. Essa cartilha comportamental do feminino requer que sejamos frágeis e dependentes, enquanto o mundo lá fora requer que sejamos fortes e independentes – e nos pune justamente por isso.

Aprendemos a silenciar e temer a nossa própria potência, nos tornamos nossas íntimas inimigas e desconhecidas. A forte odeia a frágil, a independente morre de medo da vulnerável. A doce, dengosa e polida não tem ideia de como acessar a loba por baixo da pele de gata. Entretanto, todos esses fragmentos compõem a mesma mulher.

E o que nos impede de fazer o revolucionário exercício de unir as partes e assumir a beleza de ser inteira? O medo do abandono e da perda do amor.

Parece um conselho otimista, mas o “seja a melhor versão de você mesma” guarda a notícia de que há uma pior versão. Parece uma frase familiar péssima que deixa marcas indeléveis, mas o “desse jeito ninguém vai gostar de você!” é muito mais que uma ameaça de solidão e abandono, é uma sentença ao apequenamento. Nesse mesmo mês da mulher em que eu rememoro que a morte nos assombra e me questiono qual é a vida que nos espera; Fernanda Torres esteve no Oscar representando um filme que levou o troféu, Anitta foi indicada ao Grammy e nos apresentou, via documentário, Larissa.

No momento de maior glória e reconhecimento de uma atriz que já tem mais de 40 anos de carreira, a internet rapidamente resgatou uma matéria de jornal maliciosa cuja manchete exibia “Um emprego para Fernanda, por favor!” e complementava ainda dizendo que ela estava na pior: desempregada e sem marido. O intuito de resgatar essa memória era mostrar a importância de nunca desistir, entretanto, como psicanalista, devo advertir do perigo dessa polarização, que coloca para nós dois destinos avessos: a glória do sucesso ou o amargor do fracasso, ambos noticiados publicamente. A mulher que vence o maior prêmio do cinema é amada ou admirada? É amada ou idealizada? A mulher que perde o emprego e o marido é fracassada? Elas não são uma ou outra, elas são a mesma.

O filme que leva Fernanda ao Oscar e confere a ela o Globo de Ouro de melhor atriz conta a história de Eunice Paiva, uma mulher que foi resistência, fibra e firmeza. Eunice foi viúva, advogada, mãe, uma pessoa que lutou por direitos políticos. Na célebre cena em que se pede que ela não sorria, ela afirma sua existência inviolável: “Nós vamos sorrir sim!”. Uma mulher que não se apequenou a ser mulher de alguém, que não se achou velha demais para voltar à faculdade, que não se achou fracassada demais para desistir de lutar: uma mulher que estava na cena inteira, com todos os seus pedaços.

Enquanto víamos no cinema atriz e personagem muito bem definidas, vimos também nas telas uma nova personagem nos ser apresentada: Larissa. Doce, dengosa, polida, é a mulher que mora por baixo da pele de loba de Anitta, a patroa. No documentário, os olhos atentos e curiosos procuravam flagrar quem era Anitta e quem era Larissa, como se fossem duas personagens que trocam de figurino, que têm papéis diferentes a desempenhar. Embora em cada vírgula do documentário os olhos sensíveis tenham podido ver que a barreira entre Anitta e Larissa é a vulnerabilidade, os olhos nublados de uma cultura sempre pronta a punir mulheres que ousam desviar do caminho esperado delas apontam que seja como Anitta ou Larissa, veem uma mulher que não perde o controle. Será que ela não perde o controle ou, depois de anos entendendo que somos o sexo frágil, o sintoma contemporâneo do ser mulher é o fetiche de ser forte a qualquer custo?

Se Fernanda é barulho, Eunice é silêncio; e é possível ouvir as duas. Se Anitta é funk, Larissa é mantra, e as duas são músicas.

Por trás da firmeza impávida de Eunice que sustentou uma família diante de um trauma indizível, havia uma mulher que não podia chorar; por trás da esperança firme de uma mulher que buscava justiça, havia uma mulher que não pode se desesperar. Elas conviviam juntas, todos os dias. Quem elogia a força de Eunice estaria pronto para acolher suas dores? Quem secaria suas lágrimas quando elas viessem, estaria pronto para segurar sua mão em seu ato de coragem revolucionário? Por trás da desenvoltura de uma Anitta que dança, canta, dirige e gerencia, há uma mulher que não sabe pra onde ir. Por trás de uma Larissa que tem medo do que podem pensar, há uma mulher que sabe exatamente onde quer chegar e como fazê-lo. Elas não são uma ou outra. Elas são as mesmas. Quem coloca a Anitta no pedestal estará pronto para segurá-la no colo quando ela cair de lá? Quem afaga os cabelos de Larissa menina estará pronto para vê-la voar? Quem é que sustenta conviver com a gente inteira?

Ser mulher hoje é lutar contra a vulnerabilidade por medo de se machucar, é ser forte não por escolha, mas por uma habilidade extraordinária pós-traumática de sobrevivência. É querer um colo pra chorar mas não ter tempo, nem espaço, afinal; a gente é guerreira, né? É ter que ver a coragem ganhar do medo todos os dias porque esperam de nós o êxito, o sucesso, a vitória. É não poder ser criança, nem boba, nem irresponsável porque carregamos o mundo no colo, nas costas, dentro da bolsa e do bolso. E quem nos pegará no colo porque estamos cansadas? Quem celebrará conosco a chegada no topo podendo ver as cicatrizes que ganhamos no caminho?

Eu, daqui, na subida da montanha, vejo muitas mulheres carregando nas costas seus sonhos e seus pedaços. Às vezes, na subida, um sonho se torna pesado demais e elas o deixam cair; outras vezes, um pedaço de si parece fazer da subida mais difícil, e elas também o deixam pelo caminho. Paro a minha caminhada e como uma guardiã da integridade da mulher, recolho os pedaços e os sonhos deixados no caminho, faço deles as palavras que escrevo esse texto e grito bem alto pra você me ouvir daí: não abre mão do seu tamanho e nunca deixa de ser inteira porque tudo que a gente tem é a gente.

Comunicadora e referência em narrativas femininas, Manuela Xavier também é psicanalista e doutora em psicologia. Depois de uma carreira de 12 anos atuando como psicanalista e professora em universidades, Manuela expandiu sua comunicação para as redes sociais, dialogando sobre psicanálise, gênero e cultura. — Foto: Divulgação
Comunicadora e referência em narrativas femininas, Manuela Xavier também é psicanalista e doutora em psicologia. Depois de uma carreira de 12 anos atuando como psicanalista e professora em universidades, Manuela expandiu sua comunicação para as redes sociais, dialogando sobre psicanálise, gênero e cultura. — Foto: Divulgação

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