Comunicadora e referência em narrativas femininas, psicanalista e doutora em psicologia
Eu não acredito em misoginia, nem em feminicídio
Nossa colunista Manu Xavier faz uma reflexão sobre o desafio de ser mulher em uma sociedade onde nossa existência e segurança (ainda) é um constante desafio
No Paraná, uma câmera de segurança de um posto de gasolina flagra uma mulher gritar "não!" por pelo menos 11 vezes, e agarrar-se na parede enquanto é arrastada para dentro de um banheiro e estuprada. Nem ela nem seu agressor sabem que tudo está sendo filmado, e nesse caso, as imagens e o áudio forneceram materialidade para a palavra dela, absolvendo a moça da clássica ameaça "é a sua palavra contra a minha".
Em Barcelona, entretanto, foi a palavra de um homem contra a de uma mulher que venceu. Daniel Alves foi absolvido por unanimidade de uma acusação de estupro, mesmo que amostras do sêmen dele tenham sido encontradas no corpo da mulher, e mesmo que a versão dele tenha mudado pelo menos três vezes, e a da mulher tenha se mantido a mesma desde o princípio. Segundo o júri que o absolveu, faltaram provas suficientes e também confiabilidade no depoimento da mulher que denunciou o caso.
Era por volta de 2011 ou 2012, eu tinha 18 ou 19 anos e tinha acabado de me mudar para uma cidade grande para fazer faculdade. Naquela época, eu era muito interessada em criminologia, e já estudava as relações entre psicologia e crime. Embora me faltasse estudo de gênero, era flagrante que a masculinidade carregava consigo uma violência e um grande potencial destrutivo e o máximo que se falava disso ficava sob uma atmosfera misteriosa e sombria dos serial killers. Lembro que era uma tarde qualquer em que eu estava no ônibus a caminho da faculdade lendo meu livro da Ilana Casoy sobre serial killers brasileiros. Eu estava concentrada, sentada na janela, mas percebi a presença de um homem se aproximar e sentar ao meu lado.
Estranhei quando ele apoiou a mochila na perna, de modo que cobrisse o corredor do ônibus, e começou uns movimentos estranhos. Me recolhi em minha postura de modo a evitar qualquer tipo de contato ou aproximação, era o meu corpo dizendo que eu estava acuada, incomodada. De repente, com os olhos ainda grudados no livro, minha visão periférica captou o que eu não queria ter visto: aquele homem estava com o pênis para fora da calça, se masturbando ao meu lado dentro do ônibus, com sua mochila fazendo uma espécie de cabana de proteção. Naquele instante, as palavras se embaralharam na minha frente, e um milhão de pensamentos me ocorreram: "ele não vai gozar, né?", "Será que eu grito?", "E se ele estiver com uma faca?", "Meu Deus, e se eu descer e ele for atrás de mim no ponto?", "Eu olho para ele e me posiciono?". Pelo que estudei de alguns serial killers, esse comportamento pode fazer com que ele se sinta humilhado e ele fique agressivo comigo!. "Faço de boba e finjo que não vi e peço licença pra descer?".
Rapidamente, comecei a rever mentalmente a minha roupa: "eu tô de decote?", "Mas eu tô de moletom, por que ele tá fazendo isso?", "Eu tô de calça jeans!". Comecei a procurar em mim onde eu tinha errado e rapidamente conclui: "que burra sentar na janela!". Eu não sabia o que fazer e tive medo de tirar os olhos do livro, como se eu quisesse entrar ali, sumir daquele ônibus. Até que a mesma visão periférica que me revelou um homem que se sentiu à vontade de se masturbar ao lado, me revelou também que o ônibus estava lotado. Fui tomada por um pensamento que me assustou: "ninguém está vendo? Não é possível que ninguém esteja vendo! Ninguém vai fazer nada?".
Se eu já estava me sentindo violada por aquele homem, a constatação de que eu estava sozinha, exposta aquilo naquele ônibus sob os olhos silenciosos de dezenas de pessoas me dilacerou. Ali, eu entendi o que era ser mulher. Não deu tempo de fazer nada que meus pensamentos elucubravam. O homem terminou o impudor de seu ato, gozou em suas próprias roupas, fechou as calças, e desceu num ponto antes do meu. Eu permaneci ali atônita, em choque, meio paralisada, sem saber como encaminhar tudo aquilo que eu tinha vivido. Desci no meu ponto, fui para aula, e nunca mais sentei na janela.
Ao longo de todos esses anos, fui estudando gênero, cultura e subjetividade, e lembro quando fui apresentada ao conceito de misoginia, que se define pelo ódio às mulheres. Ódio? Será que os homens nos odeiam? Será que aquele homem ao meu lado no ônibus me odiava? Será que meu ex marido, quando dizia que eu era burra e chata e que ninguém iria me aturar, me odiava? Eu acreditava numa outra coisa que o ódio não dava conta de falar. Depois, escrevendo meu livro e revendo o conceito de feminicídio, outro estranhamento. No código penal, o feminicídio se define por ser um crime "contra a mulher por razões da condição de sexo feminino", isto é, quando uma mulher é morta por ser mulher. Então esse é o motivo? Mata-se uma mulher por ela ser mulher?
Eu não acredito que homens odeiam as mulheres, e não acredito que as assassinem porque são mulheres. E enquanto não levarmos essa conversa para outro lugar, continuaremos precisando que as câmeras de segurança de um posto de gasolina falem por nós. Eu acredito que homens e mulheres são ensinados a performar na vida de modo que mulheres devem servir aos homens, deixando-os sempre satisfeitos. Homens não podem ser frustrados ou contrariados, e mulheres são feitas para agradar e nunca reclamar. Assim, quando um homem nega as 11 vezes em que uma mulher negou as suas investidas sexuais, o que ele está fazendo e dizendo é que a sua palavra não importa, a sua voz não vale, o seu desejo não conta: o corpo dessa mulher foi feito para o seu deleite. Assim como o meu ali naquele ônibus para aquele estranho que se sentou ao meu lado.
Quando um juizado absolveu um homem que mudou de relato pelo menos três vezes, e diz que é o testemunho da vítima que é inconsistente, o que eles querem dizer é que é impossível uma mulher não querer voluntariamente transar com um jogador de futebol - afinal de contas, qual mulher não quereria? Afinal de contas, o que quer uma mulher numa boate? Afinal de contas, o Daniel Alves é um homem casado, pai de família, ele não "precisa" estuprar ninguém. Ninguém precisa estuprar ninguém porque estupro não é sobre sexo, ou sobre prazer; é sobre poder. É sobre o irrestrito domínio, é sobre subjugar o outro, fazer dele objeto descartável.
Ou seja, a misoginia não é o ódio à mulher, é o ódio à mulher que se percebe gente, que se vive humana, múltipla, potente e dona de si. Que não é subjugada e dominada por ninguém. O feminicídio não é o assassinato da mulher por ser mulher, mas por ser uma mulher em sua voz, presença e espírito livre; por se recusar a caber onde não deseja. Nos querem presas, pequenas, descartáveis, infelizes, silenciosas e silenciadas; trabalhando para lavar, passar, varrer e parir; cuidar da casa, sorrir e acenar.
Se ser livre é um perigo, que a gente se proteja. Se ser desobediente é um risco, que a gente redefina juntas o que é ser mulher sem ter que negociar a nossa vida, a nossa liberdade, a nossa integridade e o nosso prazer.
Este texto expressa a opinião pessoal da colunista e não reflete, necessariamente, o posicionamento do veículo.
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