Comunicadora e referência em narrativas femininas, psicanalista e doutora em psicologia
Inveja do pênis e o fenômeno do masculinismo
Será que hoje, em um momento em que homens e mulheres adoecem pela masculinidade, é preciso que os homens sejam 'mais homens'?
Você teria inveja disso que, para Freud, é a marca da falha? Disso que é o significante do que falta? Da força da farsa, como disse Lina Pereira, mais conhecida como Linn da Quebrada, na música "I Míssil"? E não é a masculinidade a própria força da farsa?
Freud fundou o conceito de falo para se referir ao genital masculino. Não para exaltar sua potência, mas para marcar sua desimportância, sua falência – e essa é a grandeza da psicanálise. Erra quem acha que Freud partia de uma perspectiva genitalista que achava que meninas tinham inveja do que meninos tinham entre as pernas, quando todos os motivos nos levam a crer no contrário: são eles que precisam se esconder por trás da farsa de uma força, que devem invejar as mulheres que fazem de suas fraturas grandes estruturas.
Uma prova disso nos dias de hoje são os masculinistas, ou os redpills. Homens ressentidos e parados no tempo. Enquanto as mulheres, agora, estão de olhos abertos, com os horizontes ampliados, eles, no auge de uma crise financeira e econômica, já não são mais os chefes da casa – podem ser, inclusive, chefiados por outras mulheres, por quem nutrem enorme desprezo e inveja por estarem na posição de liderança.
Homens que se assustam com mulheres que se negam a estar em sua companhia. E que quando se percebem em uma posição que não seja a do centro de seu próprio universo… desmoronam. Não caem em si por isso, mas explodem, nutridos por um ódio ancestral.
O masculinismo é o reforço perverso e cruel de uma performance de masculinidade sem qualquer senso crítico. Parte da perspectiva de que existe um homem ideal, chamado por eles de "alfa", e de que todas as mulheres seriam uma massa acéfala e homogênea interessada na beleza, na força e no poderio financeiro deste ser fictício ideal. Assim, os que não estão nessa posição de poder realizam o ditame freiriano de que o sonho do oprimido é ser opressor. E, ao invés de se levantarem contra uma cultura que requer dos homens uma performance dura de masculinidade, passam para frente uma violência da qual eles mesmos também são vítimas.
E se houvesse, ainda, um grupo capaz de fazer a mesma coisa, mas em nome de Deus? E se criassem um espaço que promovesse a redenção de homens antes e depois do pecado, revestindo-os da força, da farsa e do falo? Um local em que eles podem ser heróis, escalar montanhas, atravessar a noite e o frio, ser soldado de uma guerra espiritual contra a fraqueza e se tornar um… legendário? Um mito, uma lenda, uma farsa… um homem.
Será que hoje, em um momento em que a sociedade adoece pela masculinidade, é preciso mesmo que eles sejam "mais homens"? Os efeitos negativos já existem depois do bar em que se intoxicam de álcool e colocam em risco a si mesmos e as suas companheiras. Estão também nas mesas de podcast dos masculinistas que, sob milhões de views de espectadores adolescentes, proferem absurdos e estimulam crimes que são cometidos depois, em fóruns na deep web, ou nas montanhas do grupo Legendários em que o arquétipo de herói é reforçado sob lágrimas.
E, mais uma vez, em todos esses ambientes, fica de fora não só a autocrítica, mas a sensibilidade, a empatia, a fragilidade, o medo, a noção da própria pequenez – coisas tão necessárias para que sejamos humanos. A nossa humanidade vem do vazio, e nós, mulheres, ainda não entendemos que não é um marido, um filho ou um corpo magro que vai preencher esse espaço. E os homens também não entenderam que não é mais um copo de cerveja, um carro zero quilômetro, uma mulher mais nova ou obediente, ou um episódio de violência em que ele sai vencedor que fará o mesmo.
É o reconhecimento da farsa que faz a gente estar em paz com essa ausência interna, podendo desempenhar um personagem sem ser fiel a ele. Despir a armadura da força e poder ser homem e mulher numa outra gramática.
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