Comunicadora e referência em narrativas femininas, psicanalista e doutora em psicologia
Para Carol, minha irmã, e também para Juliana e Mariana
Nossa colunista Manu Xavier faz uma reflexão sobre a relação entre irmãs a partir da dor de Mariana, irmã de Juliana Marins, jovem que perdeu a vida em uma trilha na Indonésia
Eu tinha três anos quando minha irmã nasceu; mas acho que era ela quem tinha 300 anos quando eu nasci, porque, desde sempre, ela foi meu farol, meu guia, meu ponto de referência, meu lugar seguro. Embora a gente seja completamente diferente - eu, furacão e ela, calmaria -, é ela a família mais família que eu tenho, porque é a única capaz de conhecer o meu aspecto mais humano, mais estranho, e também mais familiar.
Como toda criança, fantasiei com a ideia tenebrosa de perder meus pais, mas o que sempre me aterrorizou foi a possibilidade de perder minha irmã, muito mais do que um pedaço de mim. Lembro de duas cenas infantis, uma que não sei se inventei ou se aconteceu mesmo, de uma aula de natação em que pensei que vi Carol afogada debaixo d'água, como se o cabelo tivesse ficado preso naqueles filtros da piscina. Outra, quando Carol era ainda menor, talvez tivesse três ou quatro anos, e eu cerca de sete, em que ela se engasgou com uma bala e foi ficando roxa, e eu me vi viver o ápice do desespero e do alívio quando ela finalmente conseguiu cuspir a maldita bala.
Anos mais tarde, nós duas já adultas, ela passou por uma situação de violência no trabalho e eu joguei meu feminismo no lixo, rasguei meu diploma de psicologia e, como uma espécie de mãe sem compromisso com a compostura, fui tomada por um empuxo não de defendê-la - porque alguém do tamanho dela não precisava de defesa - mas de preservá-la. Me vi querendo mostrar os dentes, as garras, as unhas, perder o réu primário, ser eu apedrejada em praça pública pra que ela permanecesse protegida, como deve ser.
A minha relação com a minha irmã é a relação de amor mais rica que eu tenho na vida, e embora a gente não tenha uma experiência de afeto e carinho nem nas palavras ou nos abraços, a gente se ama nas apostas que a gente faz na nossa vida e no nosso direito de vivê-la com gosto. E por isso mesmo, nos ultimos dias, junto com todo um país que se reuniu em pensamentos e oração na expectativa de encontrar protegida, em segurança, e com o direito de viver preservado, uma mulher curiosa que foi desbravar o mundo, eu não tirei do pensamento por um minuto sequer a sua irmã
Eu poderia escrever um texto sobre como o mundo é cruel com mulheres livres, ao mesmo tempo em que a existência de uma mulher que se compromete com o seu desejo de ser maior que si mesma, de investigar o mundo e suas possibilidades, de se permitir pequena diante do universo e enorme diante da vida, como Juliana é. A existência de uma mulher assim é farol para todas nós, porque nos lembra que não precisamos nos encerrar em casamentos que nos violentam, em trabalhos que nos diminuem, em espaços que aniquilam a nossa criatividade e o nosso prazer. A existência de Juliana fecha as portas do absurdo e escancara os portais das possibilidades de uma vida plena para mulheres independentes, livres e autônomas. Eu não conheci Juliana, mas conheci Julianas. Minha irmã é Juliana, eu sou, em certa medida, Juliana.
Mas o que me capturou desde o primeiro instante foi a mulher que falou da irmã o tempo inteiro no presente, desde o dia um até hoje. Lembro quando perdi meu padrinho, de quem herdo o nome e a desobediência, ter uma estranheza abjeta ao ouvir a tranquilidade das pessoas falarem, horas depois dele ter morrido: “o corpo de Manel”. O corpo? Em que momento Manel deixou de habitar o próprio corpo deixando apenas a matéria para trás? Seu corpo era o que menos importava. Naquela cama de hospital não estava o corpo de Manel, naquele caixão não estava o corpo de Manel, estava ELE; e parafraseando quem entende isso, “naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim”. Mariana sabe disso. Mariana sabe que era Juliana naquele vulcão, era Juliana naquele país, era Juliana naquele avião, é Juliana hoje, amanhã e depois, e naquela mesa faltará ela, e a saudade dela vai doer em Mariana.
E Mariana, durante todos esses dias, se pôs de pé na difícil tarefa de comunicar firmeza, de manter viva a irmã, de buscar por ela justiça, porque a vida de Juliana é do tamanho do amor que Mariana tem por ela, e ele é infinito. Todas as vezes que vi Mariana na televisão a música de Ava Rocha me invadia os ouvidos, o nome da música é "Lilith", a mulher que se recusou o papel da Eva, de Adão, e Ava canta: “Nasce uma noite com sol na escuridão quente. O coração da minha irmã derrama muito leite. Ela é minha irmã de cor, irmã de corpo, irmã de santo, mana de sorte. Gigantesco parentesco, quero ser que nem ela”.
Mariana é enorme, eu vejo o leite derramando do coração dela, eu vejo uma mulher que constrói, fertiliza, alimenta e nutre os afetos e os efeitos, que como Juliana, é o sol nascendo na escuridão quente. Eu sinto o gigantesco parentesco, também sou como Mariana, a voz da minha irmã, porque as minhas cordas vocais aprenderam com ela a gritar.
Que nenhuma mulher seja punida por existir livremente, que nenhuma irmã viva a dor de ser separada de sua metade mais inteira, seja você Manuela, Carol, Mariana, Juliana ou Lilith. Que o seu coração derrame sempre muito leite e que, na vida, você tenha uma irmã. De cor, de corpo, de santo, de sorte. E que haja justiça por Juliana e acalanto para Mariana.
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