Comunicadora e referência em narrativas femininas, psicanalista e doutora em psicologia
Namorar é mesmo vergonhoso ou ainda estamos apagando as mulheres?
Nossa colunista Manu Xavier faz uma reflexão sobre a ideia de que namorar, hoje em dia, já virou cafona
Recentemente, uma matéria publicada pela Vogue UK reverberou na internet. Na chamada, uma pergunta incomum: namorar é vergonhoso? O questionamento abriu uma discussão produtiva nas redes sociais, que deu ênfase à independência feminina, uma vez que, hoje, as mulheres não têm mais como objetivo prioritário estar num relacionamento. A matéria também contempla um contexto atual, já que, com o avanço da pauta feminista, colocamos nomes nas coisas que vivíamos sem saber que eram microviolências. As mulheres, hoje, sabem o que não é mais aceitável ou negociável para estar numa relação.
Entretanto, eu tenho questões sobre a problemática oculta por trás dessa matéria e o perigo da disseminação de um engodo para as mulheres. Como mulher, psicanalista, feminista, sobrevivente de uma relação abusiva e doutora em psicologia, não vou negar a realidade e o contexto social. E por isso mesmo é preciso que a gente faça os recortes necessários.
Namorar é vergonhoso para quem? Pego carona na matéria da gringa pra que estejamos na mesma página: a matéria fala que as mulheres não estão mais ostentando seus relacionamentos online porque, em um cenário de heteropessimismo - em que temos falado tanto sobre o pouco repertório afetivo dos homens e sua pouca destreza como adultos funcionais -, ostentar um companheiro não seria um grande troféu. Pelo contrário: ter um parceiro pode, inclusive, denunciar fragilidade e vulnerabilidade. O que essa mulher secretamente tolera para se manter numa relação? O que ela está negociando ou abrindo mão? Seguindo o fio dessas perguntas, a gente entende que, na atual conjuntura, ter um companheiro fragiliza a imagem de forte e independente que construímos de uma mulher. Mas de qual mulher?
A matéria foi escrita numa revista do Reino Unido, um país com estruturas políticas, econômicas, sociais e culturais diferentes do Brasil. Aqui, os dados mostram que namorar não saiu de moda e não ficou cafona. Recentemente, uma grande influenciadora, a terceira brasileira mais seguida do mundo, postou em suas redes sociais a foto do pedido de namoro feito por seu namorado, um jogador de futebol. Apesar do pedido de namoro ter acontecido logo depois de uma descoberta de infidelidade do jogador de futebol, a foto postada nas redes demonstra que o interesse na imagem do casal que namora segue em alta: em poucas horas, o post ultrapassava a marca de um milhão de comentários e dez milhões de curtidas.
Como eu leio esses dados? Num país com uma desigualdade social absurda como o Brasil, com tanta gente em situação de pobreza extrema, qual é o lugar das mulheres? Dados do IBGE de 2022 apontam que a maioria das pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza e em extrema pobreza são mulheres, com o agravante de que a maioria delas são pretas e pardas. O IBGE de 2024 mostra, também, que a maioria dos lares brasileiros é chefiado por mulheres: em 52% deles, é uma mulher que está em posição de provedora e responsável, e em sua maioria, são pretas e pardas. O Censo Demográfico de 2022 também atestou que 86,4% de todos os adultos brasileiros que moram com os filhos são mulheres. A realidade das mulheres brasileiras indica que nós sofremos mais violência dentro do campo íntimo do que as de outros lugares do mundo: 32,4% contra 27% que é a média global - são os dados da OMS.
O que esses números indicam? Que as mulheres estão exaustas. Cansadas. Sobrecarregadas. Sozinhas. E quando porventura entramos numa relação esperando companheirismo e afeto, corremos o risco de ser violentadas. E como isso se relaciona com a foto de 10 milhões de curtidas da influenciadora e do jogador de futebol? Diante de uma realidade que exaure as mulheres, no fim do dia, depois de cumprirmos as performances de excelência, estamos vulneráveis e suscetíveis à secular fantasia do amor romântico como salvação. Sabemos que ele é uma mentira? Sabemos. Mas onde mais podemos nos agarrar? O que mais pode nos operar como esse bálsamo que nos suspende da realidade e faz a gente sentir que a vida vale a pena ser vivida? Eu tenho respostas, mas infelizmente essas saídas não estão disponíveis para todas.
O que nos salva da exaustão, do cansaço e da solidão é o afeto, o prazer e o descanso. Estar rodeadas de amigas, ter tempo pra si, fazer terapia, desenvolver habilidades que não sejam úteis, mas prazerosas: seja aprender um novo esporte, um idioma, viajar, ou fazer uma aula de crochê ou de cerâmica. E além de tudo isso, ser amada. Não útil, amada. Ser amada, não servil. Ser amada, não adequada. Ser amada, não boazinha. Ser amada mantendo a nossa integridade psíquica, física e social, sem ter que abrir mão de um pedaço de nós. Mas quem é que pode ser amada sem abrir concessões?
E é aqui que eu aponto a minha segunda crítica à matéria inglesa, uma vez que, ao questionar se namorar é cafona hoje em dia, resta oculto ou em segundo plano o revolucionário e raro exercício da independência feminina. Não somente a independência financeira, mas a independência psíquica e social. O revolucionário e raro ato das mulheres descobrirem prazer, satisfação e realização em outras coisas que não apenas num relacionamento. O revolucionário e raro ato das mulheres desenvolverem autoconhecimento, autoconsciência e formarem redes fortes e seguras entre mulheres. Ainda assim, apesar de todos os avanços, mesmo quando uma matéria quer lançar luz ao fato das mulheres estarem mais conscientes e independentes, ainda há uma penalização: para ser livre, é preciso não ter um relacionamento.
Será que devemos sempre estar em posição de escolher entre uma coisa e outra? O casamento ou a carreira? O corpo ideal ou a maternidade? Será que não é possível que uma mulher independente e livre seja amada e possa amar fora das amarras da farsa do amor romântico? Será que, ao invés de acharmos muito revolucionário um relacionamento ser cafona em 2025, não deveríamos todas desejar que mulheres pobres, vulneráveis tenham também acesso a mais tempo livre para desenvolverem outras atividades? Para que essas mulheres tenham segurança em seus bairros para que possam frequentar parques e praças? Para que essas mulheres tenham acesso a terapia, lazer e educação?
Eu, honestamente, estou cansada de ver o amor ser um prêmio ou uma penalidade. Assim como estou cansada de ver as narrativas que enaltecem mulheres que se sacrificam e precisam vestir armaduras que as protejam. Nem boazinha, nem guerreira, nem carente nem amargurada: a gente quer ser livre e ter prazer. Será que isso ainda tá na moda ou a gente tem que escolher entre um e outro?
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