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Manu Xavier
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Por Manu Xavier (@manuelaxavier)

Comunicadora e referência em narrativas femininas, psicanalista e doutora em psicologia

É Carnaval no Brasil, sou eu que mando na porra da vibe, cantou Marina Sena numa musica que leva o titulo de "Carnaval". Ouvindo assim parece que Carnaval é tempo de liberdade, de desafogar tensões, colocar fogo em tudo e só pensar nas consequências quando chegarem as cinzas da quarta-feira. Por um lado, faz sentido. Estamos no Brasil, vivemos uma realidade difícil, suada, convivendo com o abismo da desigualdade em que os nossos sonhos de uma vida boa parecem cada vez mais distantes. Estamos trabalhando mais que nossos pais e ainda não conquistamos a casa própria e não sabemos sequer se iremos nos aposentar. É compreensível que chegue o Carnaval e a gente queira esquecer as dores e celebrar que temos quatro dias pra viver em suspensão, o corpo brilhando de glitter, o suor pingando de alegria. Mas, e as mulheres?

Quando é Carnaval pras mulheres? Não esse que se desfila na avenida, nas ruas ou nos camarotes. Mas sim aquele espaço-tempo onde é permitido se fantasiar de quem a gente realmente é e aposentar a roupa de mulher maravilha que dá conta de tudo e ainda consegue ser bonita e simpática? Qual é o momento em que as mulheres terão quatro dias pra ser quem são? Que o mundo da sobrecarga, da violência, das cobranças, das exigências, dos obstáculos todos que enfrentamos ficará em suspenso pra que a gente possa celebrar a beleza de sermos quem somos?

Deu zebra? Não, deu onça! — Foto: Manu Xavier
Deu zebra? Não, deu onça! — Foto: Manu Xavier

Deu zebra pra nós. E a gente precisa responder virando onça. Precisamos reivindicar o direito de tomar sol na pedra molhada pra retocar o tom, assumir o nosso lugar de bicho que mira e rasga o céu. Esse oásis musical foi cantado por Liniker, na música chamada "Charme" e me atravessou de uma forma que me deu vontade de ser onça. Eu, que sempre fui onça mostrando as garras e os dentes, defendendo a todo custo meu território e meu espaço sempre ameaçado de invasão, me recusando a ser presa mas sem a violência necessária pra ser predadora; descobri que ser onça é poder descansar na pedra molhada protegida por um carcará.

Eu, que nunca encontrei no Carnaval uma possibilidade de extravasar as tensões acumuladas do ano - quem é mulher sabe que o Carnaval também representa pra nós um perigo; decidi que esse ano seria diferente. Profundamente tocada pelo Charme de Liniker decidi virar onça. Guardei as garras, escondi os dentes, fui procurar o sol. Me conectei com o prazer, desbravando florestas em busca de onde o sol brilha mais quente. Me dediquei a não combater nada nem ninguém, a não erguer armaduras ou armadilhas. Me comprometi a não só retocar meu tom, mas achar o meu tom. Fui onde quis, fiz o que quis, sorri mais do que esturrei. Miei, ronrronei, fui felina sem mecanismo de luta ou fuga.

Deu zebra? Não, deu onça! — Foto: Manu Xavier
Deu zebra? Não, deu onça! — Foto: Manu Xavier

Mas não me esqueci que tenho garras, elas seguem aqui. Em geral elas me protegem, mas as vezes me arranham. É por causa delas que eu me sinto segura, e os meus dentes enormes, caninos de uma felina com raiva, entram em cena quando eu preciso falar mais alto pra ser ouvida. Mas o que me deixa segura mesmo é que eu sei que eu posso ser muitas: mulher e onça, potente e vulnerável, preguiçosa sobre a pedra molhada ou com os olhos fixos e as garras pra fora. Posso correr mais rápido que um carro ou caminhar elegante como um pavão, porque a dona dos meus passos sou eu.

Nesse Carnaval, eu virei onça. E acho que esse é o Carnaval pras mulheres: onde a gente pode inventar quem a gente é e colocar pra fora as nossas feras, as nossas garras, as nossas peles, as nossas muitas formas de existir. Sendo doce, dengosa, polida e também loba, onça, leoa; porque bom mesmo é ser selvagem.

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