Chefe de Economia da Rico, empresa do grupo XP Inc.
A importância da pausa: no palco, na vida e nas finanças
Rachel de Sá, nossa colunista de finanças, reflete sobre os benefícios que podem acompanhar a pausa - na vida e no bolso
- “O que é o que é: um pontinho verde no meio da sala?” – PAUSA.
- “Uma azeitona de castigo!!” – PAUSA, RISOS
Devo confessar que, quando criança, tinha uma fissura particular por piadas sobre “pontinhos”. Havia pontinhos no canto da sala, na crista de ondas, pulando de paraquedas. Enfim, de todos os tipos.
Uma pequena parte dessas piadas arrancavam boas risadas de minha audiência, composta por tios, tias, pai, mãe e irmãos que certamente não aguentavam mais o repertório infinito de histórias dos malditos pontinhos em locais inusitados. Mas, se aprendi uma coisa em minha curta carreira de comediante foi: a importância da pausa.
Explico: imagine você, o diálogo acima feito sem qualquer pausa, sem momento para a audiência se indagar “o que diabos”, seria um ponto de cor verde no canto de um cômodo da casa, simplesmente uma resposta logo após a pergunta. Perderia boa parte da graça, certo?
Pois é! E foi essa lição que fui relembrada outro dia durante um encontro do grupo de teatro do qual faço parte. “Sem a pausa, não existe comédia. Sem a pausa, não existe drama ou mistério. Sem a pausa, não existe teatro”, disse a diretora.
Saí de lá refletindo sobre o tema. Pausas... para uma pessoa ligada no 220V que sou, com 35 hobbies, um trabalho que me ocupa boa parte do dia, família grande e tantos amigos quanto cabem em todas as passagens da minha vida até aqui, sinto que tenho negligenciado sua importância.
Pausa, pra que te quero?
Essa conclusão me preocupou. Afinal, a pausa não é somente importante para os palcos.
São nos momentos de quietude, de respiro em meio do dia a dia maluco, de concretas e efetivas pausas que conseguimos pensar com maior clareza, alinhar as ideias e “os chacras” (seja lá o que esses forem), e, assim, seguir adiante – mais plenas, mais inteiras.
Não à toa, a moda do mindfullness (mente plena, em tradução livre) preencheu tão rapidamente os espaços nas redes sociais e nos livros sobre autoconhecimento e autocuidado. Não à toa, eu mesma me rendi ao tema e participei de um curso sobre meditação, que, de fato, me mostrou como uma mente inquieta o tempo todo pode se tornar nosso pior inimigo.
Tenho tentado praticar, mas confesso que preciso retomar o hábito dos 10 minutinhos diários que estavam me fazendo tão bem (ainda sigo tentando encontrar uma solução para o fato de que sempre durmo em aproximadamente 6 minutos, mas chegaremos lá, estou certa!).
Apesar do meu aparente insucesso na jornada da meditação, entretanto, me sinto capaz de compartilhar outra importante lição que aprendi em minha jornada até aqui: a importância da pausa em nossas finanças.
Pausar, para não surtar (o bolso)!
Se você é, assim como eu, uma pessoa um tanto quanto inquieta, imagino que seja comum traçar estratégias rápidas e eficazes para suas finanças (ao menos, assim você as julga de início).
Por exemplo: por que não usar aquela renda extra ou parte da reserva guardada ao longo do último ano para: pintar o teto descamado do banheiro, castrar o cachorro, congelar os óvulos, renovar o armário e comprar uma nova bicicleta – tudo ao mesmo tempo? Afinal, fazendo a conta “na ponta do lápis”, tudo cabe perfeitamente no orçamento.
Certo. Na ponta do lápis ou na planilha do Excel, tudo parece caber. E, de fato, muitas vezes cabe. E quando tudo já correu bem no passado, tendemos a ter ainda mais incentivos para tomar decisões como essas repetidamente.
Porém, você já parou para pensar que algum “pontinho em local inusitado” pode vir a bagunçar todo seu planejamento inicial?
Sim, porque imprevistos acontecem. A tinta pode dar errado, e um retoque precisar ser feito. O cuidado pós-operatório do cão pode incluir mais remédios ou tempo que você imaginou – requerendo ajuda extra. Ou mesmo a loteria biológica pode te encurralar com uma coleta de óvulos menor do que a desejada, e inferir outra rodada, essa fora do orçamento original.
Ainda, caso tudo isso (ou mesmo “um disso”) ocorra, você já parou para pensar o nível de estresse que invadirá o dia a dia dessa mente já inquieta e sem pausas, derrubando todos os pratinhos que tenta carregar de uma vez só?
Pois é! Sinto invadir sua mente a mil por hora para dizer: pode acontecer.
Assim, se você já sentiu calafrios só de ler sobre a possibilidade de tais cenários alternativos (e incontroláveis), por que não pensar diferente? Porque não separar o urgente do desejável e postergável, e a prioridade do capricho imediato?
Para isso, proponho o seguinte desafio: liste seus objetivos financeiros, um a um; entenda o que faz sentido para agora, o que pode ser adiado, e o que talvez nem precise ser feito (ou comprado) nesse momento.
O exercício parecerá um verdadeiro sacrilégio, ainda mais para mentes inquietas, para as quais o adiamento tem semelhanças extraordinárias com o verdadeiro fim do mundo.
Mas, confie, o mundo não vai acabar se todas as coisas não forem resolvidas no mesmo mês.
O resultado, na realidade, pode te surpreender: um espaço aberto no seu bolso e na sua cabeça para aquelas pausas necessárias: ir ao teatro, expirar, inspirar, rir ao lembrar de piadas de pontinhos, dormir. Pausar.
(Tudo isso, claro, sem a pausa para olhar o teto descamado do seu banheiro).









