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Paula Jacob (@pjaycob)

Em um passado nem tão distante, era comum ouvir e ler o termo "literatura feminina" usado como aglomerador de todo e qualquer livro escrito por mulheres. O guarda-chuva, apesar de parecer amplo, na verdade, sufocava as escritoras em uma única caixinha, como se o conteúdo de suas obras não fosse importante o suficiente para dividirem temáticas com os autores homens. "É lindo ver como essa expressão desapareceu. A pluralidade do tipo de livro e interesses é reflexo de uma justiça histórica. Há ainda muito o que fazer e discutir, mas no âmbito da cultura, as mulheres ocupam espaços fundamentais com temáticas variadas", conta Ana Lima Cecilio, curadora da 22ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece entre os dias 9 e 13 de outubro.

Com mais de 20 anos de experiência no mercado editorial, entre edições, mediações, consultorias e curadoria literária, Ana trouxe dessa bagagem um olhar atento tanto para o que as editoras estão publicando quanto para o que o público está de fato consumindo. Além disso, o mapeamento dos temas mais relevantes do último ano também compõem a delicada equação para chegar nos nomes participantes do line-up concorrido. "A Flip tem uma responsabilidade dupla: apresentar autores desconhecidos do grande público e dar a chance de os leitores conhecerem (e ouvirem) quem já estão mais habituados a ler. Por isso, há a preocupação de criar espaços de diálogos, sessões de autógrafos e painéis. É um prazer imenso fazer esse trabalho", diz.

Entre as escritoras presentes na programação oficial que Glamour apresenta, a seguir, Léonora Miano é um desses casos. Reconhecida lá fora, ainda não alcançou tantas prateleiras brasileiras. Contudo, seus três novos livros traduzidos para o português brasileiro poderão mudar o cenário. "As pessoas falaram muito sobre Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves – virou até samba-enredo. Por que não linká-lo com uma obra que trata de questões similares, escrita por outra mulher, com outras experiências?", pontua. "Ela é camaronesa e vive na França, é uma autora desterrada, assunto extremamente brasileiro. Eliana Alves Cruz também conversa com essa busca contemporânea por entender a ancestralidade e a herança de um povo."

Ligia Gonçalves Diniz

Doutora em literatura pela Universidade de Brasília, a escritora, crítica literária e professora causou comoção no meio literário com a publicação de O Homem não Existe (Zahar, R$ 89,90). O livro de ensaios parte da teoria psicanalítica para costurar pensamentos acerca de autores, histórias e personagens questionando a hegemonia masculina no imaginário cultural.

Sem cair em achismos, muito menos em discussões rasas sobre sexualidade e diferença sexual, Ligia propõe uma outra ótica diante de mitos (gregos e contemporâneos), com inteligência, acidez e ternura.

Geni Nuñez

Nome por trás do badalado perfil no Instagram @genipapos, a ativista indígena Guarani se debruça sobre o ideal romântico e as relações afetivas também em suas pesquisas acadêmicas. Membra da Comissão de Direitos Humanos e graduada em psicologia, ela é mestre em psicologia social e doutora em ciências humanas, ambas pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Em Descolonizando Afetos (Paidós, R$ 51,90), Geni reflete, a partir de pensamentos anticoloniais, sobre relacionamentos, retirando-os também apenas do ambiente privado. Ela desconstrói falácias da não monogamia ao passo que oferece saídas acolhedoras para quem não se enxerga nos padrões impostos socialmente.

Mariana Salomão Carrara

Ela já foi finalista do Jabuti com Se Deus Me Chamar não Vou (Nós) e venceu o Prêmio São Paulo de Literatura pelo magnífico Não Fossem as Sílabas do Sábado. Agora, retorna ao burburinho literário com o novo A Árvore Mais Sozinha do Mundo (Todavia, R$ 69,90), romance intrigante sobre uma família que cultiva tabaco no interior do Sul brasileiro.

O tempo da natureza dita o ritmo da rotina de Guerlinda, Carlos, Alice, Maria e Pedrinho, que, entre a angústia da espera e a beleza da colheita, precisam lidar, cada um, com as suas questões internas. Não o suficiente, Mariana ainda propõe um deslocamento narrativo ao colocar objetos inanimados como os narradores dessa história que fala também sobre um País ainda cheio de ruídos passados.

Ilaria Gaspari

Filósofa e escritora, doutora pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, a italiana está interessada em dissecar os sentimentos humanos a partir da literatura e da filosofia. No Brasil, tem publicado Lições de Felicidade (2020) e A Vida Secreta das Emoções (2020), sendo este último uma maravilhosa observação de como os sentimentos (e suas imperfeições) atravessam a experiência humana.

O lançamento A Reputação (Âyiné, R$ 99,90) é ambientado em Roma, nos anos 1980, que gira em torno de Marie-France, francesa radicada na Itália que celebra a clientela de sua butique. Apesar do sotaque irresistível e dos ensinamentos sobre moda para além da frivolidade, ela acaba tomando uma decisão questionável para os negócios, causando desconfiança no bairro. Um romance sobre identidade, calúnia, aparências e maturidade.

Marcela Dantés

Interessada nos limiares da desorganização psíquica, a mineira cria histórias a partir de personagens complexos, que compartilham, sem filtros, suas vivências de maneira intensa e imersiva. Esse saber excepcional no manuseio das palavras está ainda mais evidente no seu terceiro livro, Vento Vazio (Companhia das Letras, R$ 74,90), ambientado na fictícia e minúscula Quina da Capivara – localizada a poucos metros de uma usina eólica.

O barulho do vento, assim como a sua presença constante, marcam não só o fundo dos relatos como também ditam o ritmo deste romance polifônico, narrado por Miguel, Alma, Cícera e Maura. As vidas aparentemente pacatas são marcadas, cada uma, por dores, feridas passadas e vislumbres de felicidade, tendo como evento orbitante o mistério da morte de Sebastião Ávila.

Gabriela Cabezón Cámara

Argentina nascida em Buenos Aires, ela teve experiências em veículos jornalísticos e também se aventurou no ofício da edição. É autora de diversos romances, foi residente na UC Berkeley em 2013 e fundou, ao lado de outras ativistas, o movimento Ni Una a Menos, contra o feminicídio e a violência de gênero no seu país natal. O livro que a projetou internacionalmente foi As Aventuras de China Iron, publicado originalmente em 2017 e traduzido para o Brasil em 2021, finalista do International Booker Prize 2020.

O mais recente título é Nossa Senhora do Barraco (Moinhos, R$ 60), marcado pela multiplicidade de interpretações. Nele, a travesti Cleópatra recebe uma visita da Virgem Maria após passar por uma violência extrema durante o encarceramento. A prostituição fica para trás e essa protagonista cheia de sonhos passa a cuidar da comunidade onde vive.

Léonora Miano

Radicada na França após a adolescência, a autora é também fundadora da ONG Mahogany, voltada para projetos sobre a diáspora – tema que, inclusive, perpassa as suas 14 obras literárias, traduzidas para diversos idiomas. Entre os prêmios ao longo da carreira, destacam-se o prestigiado Goncourt pelo livro Contornos do Dia que Vem Vindo (2006) e Prix Femina com A Estação das Sombras (2013).

Apesar de ser reconhecida internacionalmente, Léonora ainda não possui um público expressivo por aqui, cenário que deve mudar com os lançamentos Stardust (Autêntica Contemporânea), seu primeiro romance, engavetado por mais de vinte anos; Vermelha Imperatriz(Pallas), no qual reinventa uma federação pela perspectiva do Panafricanismo; e o ensaio A Outra Linguagem das Mulheres (Pallas), focado na potência feminina na África subsaariana.

Jazmina Barrera

Fazendo coro para as escritoras latinas, a mexicana também é crítica literária e mestre em escrita criativa pela NYU, focada em pesquisar a presença (ou ausência) feminina na literatura. Nessas investigações, faz Linea Negra (Moinhos, R$ 55), um misto de romance com diário e ensaio conectando a literatura e a história da humanidade ao ato de gestar um bebê.

Um antes e depois que encanta, ao mesmo tempo que assusta, revelando o quanto a experiência é uma transformação contraditória – e que nem sempre será tão linda e plena quanto disseram que seria. A obra foi finalista dos prêmios CANIEM, Primera Novela e National Book Critics Circles. Antes, já havia se debruçado sobre a imagem do corpo feminino na virtuosa coletânea de ensaios Cuerpo Extraño (2013).

Eliana Alves Cruz

Jornalista e escritora carioca, fez sua estreia na literatura com o premiado romance Água de Barrela (2015), protagonizado por mulheres negras que se encontram no lavar, passar e enxaguar. Também escreveu O Crime do Cais do Valongo (2018) e Nada Digo de Ti, Que em Ti não Veja (2020), romances históricos que abordam, cada um à sua maneira, sobre as consequências da escravidão no Brasil.

Em Solitária (Companhia das Letras, R$ 69,90), retoma as contradições da sociedade em uma narrativa ágil e assertiva sobre o trabalho doméstico no País. Aqui, mãe e filha se veem envolvidas em um crime cometido na casa dos patrões, dentro de um condomínio de luxo, e precisam desvendar os motivos por trás de tal acontecimento.

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