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Depois de falar diretamente com o íntimo das leitoras com Tudo Nela Brilha e Queima (2017) e Jamais Peço Desculpas Por Me Derramar (2019), Ryane Leão traz sua poesia marcante em mais um livro. É a vez de Ninguém Pode Parar Uma Mulher Ventania, que acaba de chegar às livrarias pela Editora Planeta.

Dividida em três partes - Início, Meio e Começo -, a nova publicação da autora segue com a cura como um dos temas centrais, mas sem compromisso com a linearidade. "É uma cura que fala sobre fazer festa no meio dos processos, parecida com a definição da Rupi Kaur, que diz que a cura não tem linha de chegada", explica Ryane, citando uma das escritoras que tem como inspiração dentre as outras tantas que faz questão de ler.

A mensagem dos seus textos, não por acaso, fala especialmente com as mulheres negras, como resultado do que a escritora enxerga como função da escrita: gerar identificação e funcionar como um oráculo. Como exemplo, ela cita a carta que recebeu de uma leitora, que fala sobre como seus textos a fizeram perceber que não era feita só de dor. "É um oráculo que diz que existe possibilidade nas encruzilhadas", reflete.

"Ninguém Pode Parar Uma Mulher Ventania", Ryane Leão — Foto: Divulgação
"Ninguém Pode Parar Uma Mulher Ventania", Ryane Leão — Foto: Divulgação

A seguir, em papo exclusivo com a Glamour, Ryane Leão conta sobre suas inspirações, faz uma reflexão sobre o poder de cura da escrita e divide as autoras que têm ocupado sua estante. Confira:

1. A cura é muito presente nos seus três livros - e ler seus poemas é quase uma terapia para alcançá-la. Fale um pouco sobre esse processo da escrita/leitura como cura:

Eu acredito, sim, na escrita como ferramenta de cura, mas não só. Acho que a que eu falo nos meus poemas é não-linear, bagunçada. É uma cura que fala sobre fazer festa no meio dos processos, parecida com a definição da Rupi Kaur, que diz que ela não tem linha de chegada. É sobre esse processo de ir curando, e é por isso que as pessoas se identificam tanto.

Fico feliz de você falar que é como uma terapia, mas não sei se é sobre alcançar uma meta de cura. É sobre admitir que na bagunça bonita da vida, algumas coisas se curam, outras não, e a gente segue se encantando.

2. De onde vem a principal inspiração para os seus poemas? Você reserva um momento específico para escrever ou as ideias simplesmente surgem e você precisa parar para anotar/desenvolver?

Em relação à inspiração, eu tenho outra visão. A gente não escreve só quando está inspirado; é um trabalho mesmo. Um ofício, um exercício. É um dia a dia, um olhar poético de mundo. Então, muitas coisas me inspiram: pessoas andando de mãos dadas; o pôr-do-sol; o cafuné da minha avó; cheiro de café; quando a gente conhece alguém que é muito importante e olha para essa pessoa profundamente. Eu sou muito encantada pela vida, então estou sempre buscando esses encantos e sentindo todos eles também.

A Aline Bei uma vez falou uma coisa muito interessante sobre inspiração, para a gente tirá-la desse lugar de "só escrevemos quando estamos inspirados". Eu escrevo o tempo todo. Eu tenho alguns momentos específicos para escrever, em outros momentos, surgem ideias. Tenho para mim que, na maior parte do tempo, a gente escreve sem inspiração. Com a bagagem dos dias, cansada, sentindo; escrita livre, para se encorajar... São muitas frestas.

Novo livro de Ryane Leão, "Ninguém Pode Parar Uma Mulher Ventania" — Foto: Reprodução/Instagram
Novo livro de Ryane Leão, "Ninguém Pode Parar Uma Mulher Ventania" — Foto: Reprodução/Instagram

3. O livro está dividido em Início/Meio/Começo, seguindo a teoria de Nêgo Bispo. Lendo, dá para sentir as três fases - com o primeiro começo, de dor, se contrapondo ao segundo, de cura e recomeço. Você decidiu colocar essa divisão antes ou depois de ter os poemas prontos?

Essa divisão estava definida desde antes do livro estar pronto. Eu já sabia que eu dividiria assim, porque tenho sentido que eu não tenho habitado ou feito casa nos finais. Eu estou sempre acontecendo. Como diz a Cristina Rioto, sempre tem um recomeço fazendo festa para a gente em cada despedida. E eu tenho vivido isso na pele, dentro de mim, na minha cabeça, no meu coração, eu não tenho fim. É como falei no meu segundo livro, "eu sou profunda demais para acabar".

4. Outra preocupação muito latente na sua escrita é falar diretamente com mulheres negras. Tem até um poema em que você diz "o que não consideram poesia é o que nos mantém vivas". Fale um pouco sobre isso, e como é essa troca com suas leitoras.

Acredito que as mulheres negras se identificam com o meu trabalho porque a escrita é um espelho. Você abre esse livro, vê um abebe de Oxum e sente que não está sozinha, que pode ser amada. Hoje mesmo eu recebi uma carta tão bonita de uma leitora, falando que através da minha arte ela percebe que não é só dor, que ela é possível. Então, acredito que seja essa relação: a escrita como identificação e oráculo. Um oráculo que diz que existe possibilidade nas encruzilhadas.

5. Vê sua poesia como escolha ou vocação?

Acredito como missão da ancestralidade. Me comunicar, ouvir as pessoas profundamente e falar profundamente sobre mim. É algo que já estava planejado. Foi sonhado que eu estivesse aqui. E acredito que estou cumprindo de uma forma muito bonita, com algumas falhas pelo caminho, claro, como todo mundo.

6. Nos poemas desse livro, tem muito sobre sua família, quase como cartas. Você mostra para eles antes ou é quase uma homenagem surpresa quando leem o livro?

Eu aviso. Eu falo assim "vó, escrevi um poema para você. Todo livro meu tem um poema para você", e eles vêem quando recebem o livro mesmo. A minha avó principalmente, que é uma leitora assídua de mim e de muitas outras escritoras. Estou muito feliz de poder deixar essas cartas. Tem outros poemas de família que tocam em outro lugar, mas tem alguns que são agradecimentos, porque eu sou a continuidade delas.

7. Em um dos poemas você fala sobre Rupi Kaur. Como você conheceu a escrita dela e como foi o encontro com a sua?

Conheci logo que estava lançando meu primeiro livro, entre 2017 e 2018, e é uma escrita de identificação, que me movimentou, que é parecida com a minha. Imagina: é uma pessoa que eu nunca tinha pensado em conhecer, e a gente saiu e conversou. Eu falei que ela me impulsiona bastante.

8. Se tivesse que escolher apenas um poema desse livro que mais te toca, qual seria?

Muito difícil escolher um poema só, mas tem um que está escrito há muitos anos que diz: "quando os espelhos quebram, os ancestrais se refletem neles e dizem 'não se preocupe, existe vida na fraqueza'". Eu escolheria esse fragmento.

9. Que autoras não saem da sua estante atualmente?

Eu tenho lido muito Nayyirah Waheed, Ljeoma Umebinyuo... Estou lendo agora o livro da Julia Elisa, Luz Ribeiro, Mel Duarte, Elizandra Sousa. Estou sempre em movimento com esses livros. Recentemente, também li Laura Assis, Carolina Aleixo... são muitas. Tem os livros da Lívia Natália também, que estou sempre revisitando.

10. Além da poesia, e da literatura como um todo, o que mais te cura?

Estar próxima dos meus ancestrais, Maria Padilha, Iansã. Me cura estar cheia de vida. Fazer compromissos diários comigo mesma. Me cura não fugir dos espelhos, estar com meus cachorrinhos, com os gatinhos. Me cura estar com os meus amigos e fazer um banquete onde a gente senta e dá risada alta. Me cura estar viva.

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