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Todo ano, a Flip reúne grandes e emergentes nomes da literatura brasileira e estrangeira em cinco dias de celebração da palavra como ofício. Paraty recebe turistas de diversos estados e países, que circulam pelas ruas do Centro Histórico em busca de novas histórias para escutar, autores para conhecer ou até mesmo para reverenciar – a fila de autógrafos é disputadíssima. Em 2025, mais uma vez sob a curadoria de Ana Lima Cecilio, a festa literária retorna ao calendário tradicional no mês de julho e homenageia o poeta multifacetado Paulo Leminski.

Na programação, a poesia ganha tração, colocando no radar dos brasileiros uma vertente literária importante, mas pouco difundida no País. E, claro, a bibliodiversidade se espalha para além do palco principal, ganhando destaque também nas mesas paralelas, em casas parceiras. No fim, é a oportunidade perfeita para curtir ou mergulhar ainda mais na cena cultural e viver na pele o que os livros podem fazer por alguém. Por isso, este especial que você vê nesta edição é tão significativo: são escritoras de diferentes idades, regiões e contextos, que têm suas vidas entrelaçadas pela urgência de se fazer presente na página, no texto, na linguagem – independente do formato.

Da recém-conquista de Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras até a raiva transformada em contos vívidos de Dahlia de la Cerda, reunimos nove nomes que são destaque desta edição, para conhecer, admirar e apoiar.

Ana Maria Gonçalves

Ana Maria Gonçalves — Foto: Leo Pinheiro
Ana Maria Gonçalves — Foto: Leo Pinheiro

Oitava mulher negra a publicar um romance no Brasil e a primeira a fazer parte da Academia Brasileira de Letras em 128 anos: essas duas grandes conquistas marcam a carreira de Ana Maria Gonçalves, que também teve o seu livro Um Defeito de Cor como o mais vendido do Brasil em 2024, logo depois de ter sido tema do samba-enredo da Portela.

Nascida em Ibiá, Minas Gerais, Ana Maria começou a vida profissional como publicitária em São Paulo. Mas, antes de completar 30 anos, decidiu escrever o próprio obituário e percebeu que não estava orgulhosa da trajetória que estava seguindo. Do incômodo surgiu a decisão que mudaria tudo: foi para a Bahia e, durante cinco anos, entre pesquisas e escritas, se dedicou às mais de 900 páginas do romance que conta a saga de Kehinde, sequestrada aos 8 anos no Reino do Daomé, atual Benin, para ser escravizada na Ilha de Itaparica.

A inspiração para a narrativa partiu da própria realidade da autora como mulher negra. O desejo era ler um romance que contasse a história do Brasil pela perspectiva de pessoas como ela, e que fossem personagens construídos com camadas e complexidades, longe dos estereótipos que ainda permaneciam em muitos títulos. O resultado, além de têla conduzido para um novo caminho de orgulho, pode ser medido pelos números e todo o reconhecimento conquistado. Um Defeito de Cor, publicado em 2006 pela Record, vendeu mais de 150 mil exemplares; foi premiado como Romance do Ano, em 2007, no Casa de las Américas; ocupou o 1º lugar em uma lista dos melhores livros brasileiros do século 21, feita pela Folha de S. Paulo; e, em julho deste ano, colocou a autora entre os maiores nomes da literatura com a histórica entrada na ABL.

“Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves — Foto: Divulgação
“Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves — Foto: Divulgação

Nesta edição da Festa Literária Internacional de Paraty, como não poderia ser diferente, Ana Maria Gonçalves fez parte da programação ao lado de sua editora na Record, Livia Vianna. Na esquina "Piauí + Netflix", as duas conversaram sobre sua trajetória como escritora – que, além do romance histórico, fez sua estreia no mundo dos romances com Ao Lado e à Margem do Que Sentes por Mim, publicado de forma independente em 2002. Íntima das palavras e com um tom de voz único, também marcou seu nome no teatro com Tchau, Querida (2016), que teve direção de Wagner Moura; e Chão de Pequenos (2017) e PretOperItamar O Caminho Que Vai Dar Aqui (2019), ambos com coautoria. Em 2017, junto a outros autores contemporâneos, também foi publicada na antologia Uns e Outros: Contos Espelhados, da Editora Dublinense.

Astrid Roemer

Astrid Roemer — Foto: Raúl Neijhorst
Astrid Roemer — Foto: Raúl Neijhorst

Conhecida como a escritora que deu voz à libertação feminina no Suriname, Astrid Roemer marcou presença na 23ª edição da Flip, em Paraty, ao lado de Verenilde Pereira, na mesa “Pertencer, transformar”, com mediação de Adriana Ferreira Silva. Em sua estreia na Festa Literária Internacional, a autora surinamesa compartilhou sua trajetória marcada pela luta, exílio e literatura.

Aos 78 anos, Astrid é a primeira escritora de origem caribenha a vencer os dois prêmios mais prestigiados da literatura holandesa: o P.C. Hooft (2016) e o Prijs der Nederlandse Letteren (2021) – e chega ao público brasileiro com um de seus romances mais impactantes: Sobre a Loucura de uma Mulher, lançado pela Companhia das Letras em maio deste ano.

Sobre a Loucura de Uma Mulher, de Astrid Roemer — Foto: Divulgação
Sobre a Loucura de Uma Mulher, de Astrid Roemer — Foto: Divulgação

Nascida em Paramaribo, no Suriname, em 1947, Astrid emigrou para a Holanda aos 19 anos e construiu uma obra marcada por temas como raça, gênero, sexualidade e os efeitos da colonização. Em prosa fragmentada, poética e muitas vezes experimental, a autora costura a história de Noenka, uma mulher que abandonou um casamento abusivo e, ao buscar sua liberdade, mergulha em paixões, traumas e resistências em uma sociedade marcada pela brutalidade patriarcal e colonial. “Nobre e nua, eu queria conduzir minha própria vida”, diz a personagem, cuja trajetória ressoa com tantas outras histórias silenciadas.

Publicado originalmente em 1982, o livro foi redescoberto com força nos Estados Unidos ao ser traduzido para o inglês como On a Woman’s Madnesse indicado ao National Book Award, um dos mais importantes prêmios literários dos Estados Unidos da América. A repercussão recente recolocou a autora no mapa da literatura internacional e, como ela mesma afirmou em entrevista ao The New York Times, a tradução fez o romance “florescer de novo”.

Referência para nova geração de autoras, Astrid tem seu nome ao lado de gigantes como Toni Morrison e Alice Walker – ambas, aliás, ela conheceu pessoalmente nos anos 1980. Publicada agora em português, mostra que sua literatura segue viva, política e necessária. Uma voz vinda da costa caribenha da América do Sul que, finalmente, encontra o reconhecimento merecido também no Brasil.

Giovana Madalosso

Giovana Madalosso — Foto: Renato Parada
Giovana Madalosso — Foto: Renato Parada

"A arte me coloca num lugar de certa humildade, porque não tenho controle. Ela me faz dar o tempo certo de cada coisa. Não adianta fazer cronograma, dedicar horas, se o livro não está maduro." É assim que Giovana Madalosso se sentiu após o processo de escrita do seu mais recente romance, Batida Só (Todavia), que acompanha a jornalista Maria João em uma saga para entender a sua recém-diagnosticada arritmia cardíaca. A história nasceu a partir de uma cena que a escritora viu na rua, de uma mãe cuidando de sua filha enferma, e de algo que ela própria viveu em casa – mas, de antemão, é tudo 100% ficcional. "Foram quatro anos para amadurecer o livro, ter coragem; dois deles só burilando como eu distanciaria o vivido e o ficcional”, diz.

Dessa meditação, ela trouxe as ferramentas para tratar de um assunto (ou uma junção de assuntos) que muito lhe interessa: corpo, doença, ciência e fé. A sua protagonista reencontra uma amiga de infância, com um filho em caso de leucemia grave, que busca, para além da medicina tradicional, alicerces e tratamentos espirituais. "Ouvi de um médico a sugestão de procurar um médium para a questão com a minha filha. Fiquei chocada, ‘como esse homem da ciência está me dando uma sugestão dessas!’, pensei. Mas, por conta disso, conheci lugares de curas. Quando comecei a escrever o livro, anos depois, veio tudo”, comenta. “Criei esses personagens para ter uma conversa comigo mesma sobre esses mistérios. E continuo sem respostas, e continuarei sem respostas. Ninguém as tem."

Batida Só, de Giovana Madalosso — Foto: Divulgação
Batida Só, de Giovana Madalosso — Foto: Divulgação

A atmosfera abstrata do encontro entre dois polos que parecem tão distantes em uma sociedade fincada na explicação racional para tudo, ganha uma experiência estética e metafórica na palavra. O coração, o descompasso de Maria João, se torna uma metáfora das emoções humanas – e sua busca por abafá-las também diz muito sobre o medo atual do sofrimento. Essa capacidade de sintetizar algo tão do momento presente já ronda a escrita de Madalosso nos seus Suíte Tóquio (2020), finalista do Prêmio Jabuti, e Tudo Pode Ser Roubado (2018). "Fui roteirista, mas nunca me interessei por escrever uma série de época, por exemplo. Meu objeto de pesquisa sempre foi o sujeito contemporâneo."

Os momentos de pesquisa e atenção às notícias do agora cessam quando a autora se fecha para desligar do mundo externo e focar no mundo que ela criou. Durante esta entrevista, mostra pelo Zoom a parede cheia de colagens e anotações, onde guarda elementos variados que podem (ou não) compor suas histórias. "A escrita é a forma como me relaciono com o mundo – tudo me faz escrever. Se isso vai ser publicado ou não, não importa".

Liv Stromquist

Liv Stromquist — Foto: Emil Malmborg
Liv Stromquist — Foto: Emil Malmborg

Feminismo, política, desejo, padrões de beleza e relações de poder surgem como temas das histórias em quadrinhos nada convencionais de Liv Strömquist. Formada em sociologia e ciência política, com doutorado honorário pela Universidade de Lund – e uma carreira multifacetada com experiências como radialista e apresentadora de TV –, ela une a observação acadêmica bem embasada e a pesquisa jornalística com elementos da cultura pop para construir narrativas sobre a sociedade atual.

Seu trabalho recorre frequentemente a figuras como Kylie Jenner, Marilyn Monroe e a imperatriz Sissi para exemplificar situações de pressão estética e culto à juventude, por exemplo, tema do excelente Na Sala dos Espelhos. E com a sua mágica e humor ácido, ela capta teorias como o desejo mimético (René Girard), a sexualidade como motor de consumo (Eva Illouz), o voyeurismo das imagens (Susan Sontag) e o conceito de sociedade líquida (Bauman) para mostrar por a+b como estamos vivendo tempos malucos demais.

A Astrologia, de Liv Stromquist — Foto: Divulgação
A Astrologia, de Liv Stromquist — Foto: Divulgação

Esse ideal de beleza impossível, para ela, alimenta não apenas frustrações pessoais, mas também o consumo desenfreado, reforçando sistemas que lucram com a insegurança. “A filosofia, às vezes, parece inacessível, mas precisamos questionar a sociedade da imagem — ou estaremos vendidos ao progresso tecnológico”, afirmou em entrevista à Vogue Espanha. Ela questiona, portanto, como, mesmo tendo avanços no discurso social, a coisificação e a sexualização femininas persistem sob novas formas.

Não à toa, Liv alcançou o posto de uma das mais influentes quadrinistas e escritoras suecas e, por consequência, um público apaixonado em mais de 20 países. Aqui no Brasil, a Quadrinhos na Cia. publicou A Origem do Mundo, A Rosa Mais Vermelha Desabrocha, Na Sala dos Espelhos e, o mais recente, A Astrologia. Este último é um fascinante passeio na obsessão social por explicações cósmicas desde tempos remotos – e como hoje isso se multiplica pelos discursos nas redes sociais.

O formato em quadrinhos também é uma aposta da autora na abertura de conversas mais honestas sobre temas de relevância global. Rimos, choramos, refletimos e criamos diálogos internos com situações tragicômicas – muitas vezes, só trágicas ou só cômicas – que nos despertam para um novo jeito de enxergar tudo aquilo que faz parte do nosso cotidiano.

Mar Becker

Mar Becker — Foto: Marieli Adriani Becker
Mar Becker — Foto: Marieli Adriani Becker

Nascida em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Mar Becker conta que o seu contato com a escrita remonta ao começo da sua experiência como leitora. Ela e sua irmã gêmea, Marielle, sempre tinham o hábito de pegar livros emprestados na biblioteca pública da cidade para conhecerem novos mundos. Murilo Mendes, Clarice Lispector, Virginia Woolf foram algumas dessas figuras inaugurais da curiosidade inerente dessas mentes inquietas. "Éramos um corpo leitor de duas cabeças, tentando entender o mundo pelo texto. Uma dupla que dialogava sobre esses livros e autores", conta.

Mais tarde, a faculdade de filosofia fez Mar entrar em contato com outro tipo de texto, um mais acadêmico, formal, espaço que precisou compreender também e tirar o melhor dele. "Foi importante para criar o rigor, o registro, a ideia expressa em linguagem.” Foi quando, em 2009, decidiu criar um blog para tornar disso um hábito, algo que evoluiu para as redes sociais. "Eu bebo da filosofia ainda, principalmente da filosofia da linguagem, essa que verga o texto para encostar no indizível."

Suas palavras tão poéticas transbordam para além dos versos de seus livros, que começaram a ser publicados em 2020, quando estreou com A Mulher Submersa (Urutau), finalista do Prêmio Jabuti e tido como um dos melhores do ano em listas do Suplemento Pernambuco e da revista Quatro Cinco Um, veículos especializados em literatura. Depois, vieram Sal (2022, Assírio & Alvim Brasil) e Cova Profunda É a Boca das Mulheres Estranhas, plaquete de 2024 do projeto Círculo de Poemas, uma iniciativa da editora Fósforo. “Nunca vi algo parecido com isso no Brasil, de dar tanto protagonismo para a poesia. E isso também tem a ver com os clubes de leitura no País, que têm movimentado muito a cena, têm feito chegar em mais espaços”, diz.

Noite devorada, de Mar Becker — Foto: Divulgação
Noite devorada, de Mar Becker — Foto: Divulgação

Seu mais recente, Noite Devorada (Círculo de Poemas), faz um passeio desconcertante e hipnótico pelas entranhas afetivas no corpo físico – e suas consequências no emocional. “Acho interessante pensar no arco que vem desde A Mulher Submersa, quando me questionei quem eu era enquanto mulher. Em Sal, uma escrita mais porosa, daquilo que vem do outro, uma coisa de alteridade mesmo. Aqui, vejo como um livro, um corpo atravessado por janelas: tem medo, vento, maternagem, limites, luto, dores, prazeres, brilho nos olhos. Um corpo que se abre para o amor e se vê opticamente percorrido por tudo.”

Esse mistério e a impossibilidade de escapar da escrita como existência fizeram parte da conversa de Mar Becker com Monique Melcher na mesa "Todas as Formas". Um espio nesses formatos e jeitos híbridos de enxergar a literatura – um que foge de estereótipos e caixinhas limitantes.

Rosa Montero

Rosa Montero — Foto: Asís G. Ayerbe
Rosa Montero — Foto: Asís G. Ayerbe

"Você nunca escolhe os livros que escreve, são eles que te escolhem." Com essa frase, Rosa Montero, escritora espanhola de 74 anos, começou a responder sobre a inspiração para A Louca da Casa – escrito em 2003 e lançado no Brasil no fim do ano passado pela editora Todavia. Apesar da distância de mais de 20 anos de O Perigo de Estar Lúcida – que chegou por aqui em 2023, pouco depois do lançamento na Espanha –, os dois têm em comum um dos principais pontos que permeiam a obra da autora: o que está por trás da imaginação que move todo escritor. "A Louca da Casa planta uma série de perguntas sobre o funcionamento da cabeça e O Perigo de Estar Lúcida as contesta", reflete.

Foi com A Louca da Casa, inclusive, que Rosa estabeleceu ainda mais seu gênero próprio: a mistura de ficção, não ficção, ensaio e autobiografia não confiável, que chama de Artefato Literário. "Eu acreditava que iria escrever um pequeno ensaio convencional sobre a escrita, mas acabou indo para outro lado e surgiu essa espécie híbrida que inventei. Depois, também me dei conta que o livro não era sobre escrever, mas sobre a imaginação. Como ela funciona e como pode salvar a todos os humanos", conta.

A Louca da Casa, de Rosa Montero — Foto: Divulgação
A Louca da Casa, de Rosa Montero — Foto: Divulgação

Jornalista desde os 19 anos, passando por títulos como El País, a autora também usa recursos dessa formação para investigar fatos e misturar verdades no meio das tantas camadas imaginativas de seu texto, ainda que considere que os gêneros literários e jornalísticos venham de universos completamente diferentes. Seu primeiro romance, depois das várias reportagens e entrevistas com figuras emblemáticas, foi lançado em 1979 com o título Crônicas del Desamor. Desde então, com o ofício de escritora se sobrepondo ao de repórter, mais de 30 livros foram publicados, e o conjunto de sua obra foi reconhecido pelo Prêmio Nacional das Letras Espanholas em 2017.

Presente na 2ª edição da Flip em 2004, Rosa Montero retornou este ano para a programação principal do evento, onde esteve na mesa "A Ridícula Ideia de Estar Lúcida", que brinca com a junção de dois títulos seus: A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver (2013) e o já citado O Perigo de Estar Lúcida. De volta mais de 21 anos depois de sua estreia na festa literária, ela reforça que o mais impactante em eventos como este é a comunicação entre escritores e leitores de diferentes lugares e gerações. "São uniões elétricas e maravilhosas. Esse público pode estar em contato com aquelas vozes que se identificaram; vozes que, de alguma maneira, salvam, não porque a literatura é uma janela do mundo, mas uma janela de salvação pessoal que te permite encontrar almas gêmeas."

Ryane Leão

Ryane Leão — Foto: Divulgação
Ryane Leão — Foto: Divulgação

Depois de vender mais de 150 mil exemplares com seus dois primeiros livros, a poeta mato-grossense Ryane Leão retorna às prateleiras com Ninguém Pode Parar uma Mulher Ventania, lançado em abril pela editora Planeta. A nova obra reafirma o lugar da autora como uma das vozes mais potentes da poesia brasileira contemporânea. Dividido em três partes, o livro entrelaça sentimentos, ancestralidade, espiritualidade e corpo, sem medo das contradições.

Poeta, educadora e criadora do projeto Odara – English School for Black People, Ryane construiu uma base fiel de leitores que a acompanham desde os tempos dos blogs. Sua escrita, como ela mesma diz, nasceu com ela: “Escrever sempre foi assistir meu corpo se movimentar pela descoberta de estar no mundo”. Mas foi ao conhecer os slams, saraus e poetas como Mel Duarte e Jenyffer Nascimento que percebeu que a literatura podia ser também um caminho. “Quando vi essas autoras declamando, percebi que eu também era possível.”

"Ninguém Pode Parar Uma Mulher Ventania", Ryane Leão — Foto: Divulgação
"Ninguém Pode Parar Uma Mulher Ventania", Ryane Leão — Foto: Divulgação

Em Ninguém Pode Parar uma Mulher Ventania, ela escreve sobre os ventos internos que nos atravessam, inclusive aqueles que tentamos evitar. "Este livro foi muito difícil de ser escrito. Não saía de jeito nenhum enquanto eu não olhasse no espelho e agradecesse pela minha própria estrada”, comenta. O resultado é um passeio poético por todas as fases do vento – o silêncio, a dança, a tempestade – como metáforas para amadurecimento, cura e permanência.

Com uma poética profundamente marcada pelo afeto, pela luta e pela imaginação, Ryane costura temas como amor, religiosidade, perda, autoaceitação e identidade racial. “Eu não serei uma mulher que diz não ao amor. Eu não serei definida pelos meus traumas. Eu sou carne banhada de sagrado”, afirma, reforçando sua crença de que a poesia é uma forma de cura e conversa com o futuro.

As redes sociais foram importantes para ampliar sua voz, mas ela faz questão de manter a sensibilidade da troca: “Recebo mensagens de pessoas que disseram que se salvaram pela minha escrita, que levantaram da cama, que romperam relações abusivas. Isso me emociona." Apesar dos desafios enfrentados como criadora de conteúdo negra, ela segue fiel ao seu compromisso com a palavra. "Antes de tudo, há de se ter um compromisso com o próprio nome. E esse compromisso eu já firmei há muito tempo."

Ryane escreve como quem visita abismos e retorna com as mãos cheias de possibilidades. Seus versos atravessam o tempo: entre o que fomos, o que somos e o que ainda podemos ser. É uma escuta atenta ao porvir – e com todas as mulheres que se recusam a voltar atrás: "A poesia é essa conversa com o futuro constante".

+ Mais autoras que fizeram parte do nosso Especial Flip e foram destaque na programação do evento:

Monique Malcher — Foto: Renato Parada
Monique Malcher — Foto: Renato Parada
Dahlia de la Cerda — Foto: Divulgação
Dahlia de la Cerda — Foto: Divulgação

Editora Convidada do Especial Flip: Paula Jacob

Textos: Malu Pinheiro, Nívia Passos e Paula Jacob

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Mais recente Próxima Flip 2025: Dahlia de la Cerda, autora de "Cadelas de Aluguel", reflete sobre carreira de escritora e força feminina

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