Flip 2025: uma verdadeira festa literária
Sob sol e céu limpo, amantes da literatura lotaram cadeiras e ruas para ver e ouvir seus autores favoritos em uma celebração emocionante de presenciar
Há 23 edições, a Flip comanda a agenda cultural literária no Brasil com muita autenticidade, mas, desde a pandemia, as coisas ainda estavam caminhando a passos lentos e tropeços, tentando ajustar as demandas do agora ao calendário ainda tortuoso no final do ano. Para a felicidade de muitos, a programação de cinco dias volta para o mês de julho, com menos perrengues climáticos e muita (muita!) gente nas ruas de Paraty.
Amigos, casais, crianças, famílias inteiras, pessoas sozinhas que encontram novos amigos pela cidade: assim se fez o público deste ano. Casas paralelas lotadas, que faziam das calçadas as cadeiras invisíveis de um público ávido por acompanhar seus escritores e pensadores de perto – às vezes nem tão perto, mas isso pouco importa. No auditório da praça, jovens se amontoaram para assistir às transmissões gratuitas do auditório principal, que também teve todos os assentos ocupados na maior parte das mesas.
Os burburinhos nas janelas, as conversas paralelas, os cafés no meio da tarde foram essenciais para pescar de quando em quando as impressões de pessoas que estão fora da cadeia do livro ou da crítica especializada. E coisas muito boas foram ouvidas pela jornalista que aqui escreve. Claro, nem tudo são flores, até porque Paraty é naturalmente desafiadora para locomoção e até protestos contra os cavalos sendo usados nas charretes rolou. Mas o balanço geral é positivo – e inspirador.
Devo começar dizendo que a mesa da Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi surpreendente. Diante de uma capacidade máxima de lotação, ela teve uma calorosa recepção do público. A conversa, muito bem conduzida pela jornalista Aline Midlej, tocou em temas caros para o Brasil e o mundo: as ações necessárias para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, colocando a COP 30 como um ponto de atenção essencial para a conversa, enfim, sair do papel. Como apresentou Ana Lima Cecilio, curadora mais um ano da Flip, em um país que mais mata ativistas ambientais e povos originários protetores da terra, celebrar a presença da Ministra “é também homenagear todos aqueles que deram a vida por um Brasil que respira”.
Outra rockstar da edição foi Rosa Montero, que ficou autografando edições de leitores queridos até depois da meia noite – quatro horas após o término da sua apresentação no sábado (2). Na mesa “A Ridícula Ideia de Estar Lúcida”, a espanhola vencedora de inúmeros prêmios e autora de mais de 30 obras falou sobre os processos de escrita dos títulos publicados por aqui pela editora Todavia e a diferença entre os ofícios de jornalista e autora – ela começou a carreira no El País, para onde colabora semanalmente com uma coluna. Temas recorrentes em suas histórias cheias de hibridismos literários, a morte e a loucura ganham outros contornos na sua percepção de mundo. “O que a gente chama de loucura é a ruptura da narrativa coletiva”, disse.
Entre os nomes esperados deste ano, havia ainda Valter Hugo Mãe, espirituoso português que fez do Brasil a sua segunda morada. Por aqui à convite da Netflix, que deve lançar ainda este ano a adaptação de Daniel Rezende da obra Filho de Mil Homens, o autor de outros tantos sucessos (publicados pela Biblioteca Azul) compartilhou sobre como conseguiu ressignificar a morte de duas pessoas queridas – tema que aparece no recente Educação da Tristeza. “A tristeza não pode se sobrepor ao amor”, disse em conversa mediada pelo jornalista Walter Porto, da Folha de S. Paulo. “Não estou interessado em transformar meu patrimônio em uma coisa triste. Minha memória, meu passado, meus mortos, minhas pessoas vão ser muita felicidade na minha vida sempre.”
Um continente, muitas histórias
Autoras latinas formaram o corpo do maior subgrupo da Flip deste ano. Segundo a curadora, “ler essas autoras diz muito mais sobre nós do que os livros que costumávamos ler 20 anos atrás”, enaltecendo ainda o trabalho das tradutoras que fazem possível esse intercâmbio de línguas.
Dahlia de la Cerda e Dolores Reyes se destacaram na ótima mesa “Ser Mulher na América Latina”, com condução de Gabriela Meyer, do Café da Manhã da Folha. Ali, as histórias de desaparecimento, violência de gênero e silenciamento sistêmico ganharam dimensões ricas. Dahlia comentou, inclusive, sobre o dilema da vingança que permeia os contos do lançamento Cadelas de Aluguel (DBA). “Eu sou uma ativista feminista, mas ouvir de mulheres vítimas que elas desejam matar seus agressores esbarra em questões éticas e morais. A literatura se fez perfeita para explorar esses espaços de conflito dentro de mim.”
Com um olhar menos politizado, mas talvez mais radical da palavra, Mar Becker e Monique Malcher se uniram na conversa “Todas as Formas”, para falar justamente sobre a gama de possibilidades que a poesia, a prosa, a prosa poética, o romance, os diários e contos podem trazer para quem escreve. “Estou interessada nas fraturas do meu próprio corpo [num sentido físico e biológico] para subverter a palavra, é um tipo de deslocamento que eu gosto”, comentou Mar, autora de, entre outros títulos, Noite Devorada (Círculo de Poemas)
No caso de Astrid Roemer e Verenilde Pereira, veteranas das palavras, elas encontram novo público leitor com os livros Sobre a Loucura da Mulher (Companhia das Letras) e Um Rio Sem Fim (Alfaguara), respectivamente. Ambos apresentam, de maneira distinta, a experiência de mulheres silenciadas por contextos diversos que marcaram (e ainda marcam) a experiência de países colonizados. “A literatura é sobre pegar toda essa história soterrada e começar a contá-las”, afirmou Verenilde na mesa “Pertencer, Transformar”, com mediação sensível de Adriana Ferreira.
Outras mesas que você deveria dedicar seu tempo
Roçar a Língua de Camões, com Ricardo Araújo Pereira e Caetano Galindo
A Casa, o Mundo, com Alia Trabucco Zerán e Lilia Guerra
Tristes Tramas, com Neige Sinno e Anabela Mota Ribeiro
Pequenos Países, Grandes Movimentos
Vide o Verso, com Alice Ruiz, Claudia Roquette-Pinto e Marília Garcia
Senhora Liberdade, com Nei Lopes
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