A catarse de Benito Antonio e o que devemos levar dela
Após dois shows lotados no Allianz Parque, em São Paulo, nossa editora de cultura e lifestyle escreve sobre o que permanece depois que as luzes se apagam e sobre o que a passagem de Bad Bunny pelo Brasil revelou sobre nós
O que aconteceu no Allianz Parque nesta sexta (20) e sábado (21) não foram apenas dois shows esgotados. Foram duas noites em que um artista no auge absoluto da carreira – depois de vencer o Grammy Awards de Álbum do Ano e protagonizar um Super Bowl histórico – se viu diante de um estádio inteiro devolvendo a ele a própria grandeza.
A palavra que melhor traduz o que se viveu ali talvez seja catarse. Do grego katharsis, o termo define um processo de liberação intensa de emoções reprimidas. Um transbordamento. Uma purificação pelo sentir. E foi exatamente isso que se testemunhou quando Bad Bunny – ou neste caso, Benito Antonio – parou por alguns segundos, visivelmente impactado, absorvendo o que significava ver o Brasil inteiro cantar suas músicas em espanhol.
A catarse estava nos olhos marejados, na respiração funda, na pausa silenciosa antes do próximo verso. Mas também estava na grandiosidade da produção: luzes coreografadas milimetricamente, telões cinematográficos, câmeras que captavam cada gesto ampliando emoções em escala monumental. Em meio ao espetáculo técnico, o que dominava era algo mais primitivo: pertencimento.
Num país que consome majoritariamente música em português – cerca de 75% do que os brasileiros ouvem no streaming é de artistas nacionais – um estádio pulsava reggaeton, salsa e Caribe sem tradução e sem concessão. Era um baile inolvidable, mas também um gesto cultural potente.
Havia bandeiras de diferentes países latino-americanos espalhadas pela arquibancada. Havia gerações distintas: quem o acompanha desde antes de Un Verano Sin Ti e quem chegou pelo hype mais recente. Mas todos estavam ali pelo mesmo motivo: viver algo que ultrapassava o entretenimento.
A mensagem que atravessa a obra de Benito é simples e insistente: amar as pessoas enquanto é tempo, dançar sem culpa, celebrar a própria cultura, tirar mais fotos, guardar memórias antes que virem saudade. Parece leve, mas é profundo. É um chamado urgente à presença e um apelo à memória.
E talvez esteja aí a dimensão mais simbólica dessas duas noites. Quando ele sobe ao palco sem negociar a própria identidade, sem adaptar o idioma, sem suavizar a latinidade para agradar mercados, ele amplia a nossa também. A catarse não foi só dele. Foi coletiva. Foi o reconhecimento de que nossa cultura é suficiente, potente e global sem precisar pedir licença.
Nós entendemos o chamado. E o atendemos com o corpo inteiro: vivendo o momento, cantando em coro, dançando sem freio e nos emocionando. Talvez por isso a sensação compartilhada por quem esteve ali tenha sido de algo raro – uma mistura de euforia, arrepio e pertencimento absoluto.
O que devemos levar disso tudo talvez seja justamente isso: viver com intensidade, celebrar quem somos, não adiar a alegria e não diminuir a própria identidade para caber em lugar nenhum. Nem mesmo o artista mais ouvido do mundo fez isso. Depois desses dois dias, um estádio inteiro provou que, quando a América Latina se reconhece, ela vira história. Nós a fizemos. E, melhor ainda, vivemos.
Agradecimentos: Backstage Mirante, Live Nation e Acoustyle Communications.
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