YMA transforma caos em música: os bastidores de 'Sentimental Palace'
Cinco anos depois de "Par de Olhos, a cantora paulistana retorna com um álbum que transforma traumas e desejos em cinema sonoro
Quando YMA lançou Par de Olhos em 2019, o disco com suas camadas de psicodelia noir e romantismo oitentista marcou uma geração em um momento específico. Agora, em outubro de 2025, a cantora e compositora paulistana retorna com Sentimental Palace, seu segundo álbum de estúdio — um projeto que ela define como um hotel onírico onde cada quarto abriga memórias, sonhos e inquietações.
"Eu acho que foi até o final sendo um processo pessoal também. Tudo que é pessoal tá muito presente no que eu faço", conta YMA, nome artístico de Yasmin Mamedio. "Eu não quis ser muito direta com as letras e falar dos problemas e das coisas que eu vivi, dos pesadelos que eu vivi de uma forma direta. Então, eu deixei muito no processo do Sentimental Palace o meu inconsciente guiando os processos."
O álbum de 11 faixas chegou após um longo período de maturação. Entre 2020 e 2025, YMA lançou singles, fez lives e até um EP em parceria com Jadsa, mas um disco completo precisava de tempo. "Eu tive vários começos de disco, só que nenhuma eu não queria forçar. É tão gostoso quando a gente começa uma ideia e a coisa flui, que às vezes eu começo uma coisa e não flui e eu falo: 'Pera, vou respeitar que não está fluindo'."
Cinema e inconsciente
Fã declarada de David Lynch, YMA construiu Sentimental Palace como uma experiência cinematográfica. "Eu sou uma pessoa que eu amo cinema, então eu quis muito fazer o cinema para esse disco, tanto no sentido de efeitos sonoros, de ambientações, quanto nas imagens que as letras contam", explica.
A música "2001", por exemplo, nasceu de um exercício quase dadaísta: YMA percorreu títulos de filmes em um catálogo de streaming. "Você vai lendo, mas por que que eu escolhi 'Bye Bye', 'Eu tô doente de mim' e não escolhi 'Dias Perfeitos'? Eu acho que esse disco foi um disco que eu me deixei muito entregue ao inconsciente mesmo."
Percussionista com formação clássica desde os 13 anos, YMA manteve algumas ferramentas de seu processo criativo, como o uso do GarageBand no celular para desenvolver ideias rapidamente. "Tô na rua, no metrô, e aí vem uma ideia e eu já tenho aqui a ferramenta no celular. No Par de Olhos, três músicas eu fiz no GarageBand do celular, e no Sentimental Palace tiveram algumas também.”
Mas houve mudanças significativas. "Eu acho que no Sentimental Palace eu me permiti experimentar mais. Muitas vezes eu ia para o estúdio com os músicos, eles não sabiam o que que era para tocar, e a gente criava na hora o arranjo."
Colaborações orgânicas
As participações de Jup do Bairro, Lucas Silveira (Fresno) e Sophia Chablau não fizeram parte de um plano inicial. "Isso não é uma coisa que eu espero sempre, que venha naturalmente", diz YMA. A música mais antiga do disco, 'Rita', foi composta pensando na voz de Sophia Chablau. "Eu compus, mandei e aí no mesmo dia ou no dia seguinte ela me mandou já uma versão."
Com Jup do Bairro, a conexão aconteceu em Lagosta, Ostra, talvez a faixa mais visual do álbum. "Jup é a nossa grande poeta do pós-apocalipse. Essa faixa é a mais porrada do disco. Contracenar com ela nesse banquete entre o luxo e o lixo foi a cereja do bolo."
Já Lucas Silveira entrou em Te Quero Fora quando YMA travou na letra. "No meio de um ensaio, um dos integrantes da minha banda perguntou quem eu chamaria para ajudar e o nome dele surgiu na hora. Mandei a mensagem e ele topou imediatamente."
Autenticidade acima de tudo
YMA nunca se preocupou em se encaixar em caixinhas. "Desde que eu era criança, meus pais me deixaram muito livre para eu me descobrir e ser quem eu era. Essa coisa da autenticidade é algo que eu sempre batalho para ser o mais autêntica possível."
Mas ela reconhece as pressões do mercado. "É claro que eu sobrevivo do que eu faço e a gente sabe qual é a realidade dentro desse contexto Brasil: artista independente e mulher. Mas quando eu penso na trajetória, que um disco ele é um ponto dentro de uma linha, quando eu penso a longo prazo, eu fico um pouco mais tranquila."
O retorno do público com Sentimental Palace tem sido diferente. "O que diferente do 'Par de Olhos', eu sinto que as pessoas têm me escrito mais e de uma forma mais profunda. As pessoas tiveram um contato um pouco mais profundo.
YMA admite que teve receios na hora do lançamento. "Eu falei: ‘Gente, pode soar um pouco difícil, porque tem umas músicas que não são tão óbvias, não tem refrão. Eu acho que é um disco que não tem muito refrão. Mas enfim, é isso que eu tenho para entregar."
Universos inesgotáveis
Assim como fez com Par de Olhos, que ela tocou em shows até 2025, YMA pretende mergulhar fundo no universo de Sentimental Palace. "Como ainda é muito recente, tem muita coisa pulsando dele ainda dentro de mim. Quando a gente imagina uma estética e um universo, ele é inesgotável, a gente pode continuar criando para sempre."
Em abril, ela fará um show especial no Sesc Pompeia, onde pretende trazer os figurinos e a estética completa do álbum. "Vai ser um show que eu vou conseguir trazer os figurinos do Sentimental Palace. O show também é uma ferramenta de passar todas essas situações do disco, do universo que eu ainda não consegui só com disco."
E quanto ao futuro? "Eu passei por um longo período de bloqueio criativo e ter feito o Sentimental Palace desbloqueou muita coisa. Eu sento para escrever e a coisa está voltando. Mas eu estou respeitando o tempo das coisas e o universo que ainda está pulsando."
Por enquanto, YMA segue habitando seu palácio sentimental, onde o mistério, como nos filmes de David Lynch que tanto admira, é parte essencial da experiência.
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