Como lideranças femininas estão mudando a forma como o Brasil ouve música e podcasts?
Em posições de decisão, executivas discutem como curadoria, intencionalidade e novas vozes estão redesenhando o consumo de áudio no país
Quem decide o que você ouve? Em um cenário em que algoritmos parecem guiar tudo, ainda são pessoas que ocupam posições-chave na curadoria e definição do que chega ao público. No Brasil, esse movimento vem ganhando força e já começa a redesenhar não só o que se escuta, mas como se descobre e se cria conteúdo.
À frente de áreas estratégicas de podcasts e música no Spotify Brasil, Camila Justo e Carolina Alzuguir fazem parte de uma geração de lideranças femininas que têm participado diretamente desse processo — seja ampliando o alcance de novas vozes, seja criando caminhos para que mais mulheres ocupem espaços historicamente dominados por homens. "Acho que liderança feminina gera mais diversidade no geral. Não só de gênero, mas todo tipo de diversidade", resume Camila.
Nos últimos anos, essa transformação se torna visível tanto nos bastidores quanto no que chega ao público. Se antes o universo dos podcasts era marcado por uma lógica mais técnica e masculina — com criadores ligados à tecnologia e à distribuição via RSS — hoje o cenário é outro. "Com a facilidade de distribuição, ampliou muito o alcance e veio uma chuva de mulheres criadoras", diz Camila.
Essa mudança também se reflete nos temas. Há mais mulheres falando para outras mulheres, em diferentes fases da vida — da juventude à menopausa —, e ocupando as paradas com conteúdos que combinam informação, intimidade e identificação.
A importância da intencionalidade
Se há um ponto em comum entre as duas executivas, é a ideia de que essa transformação não acontece por acaso — ela exige estratégia e decisão. "Existe um desequilíbrio muito grande na indústria, e por isso isso precisa ser feito de maneira intencional", afirma Carolina Alzuguir.
Esse esforço passa também por iniciativas estruturadas. Criado em 2021, o EQUAL nasceu do reconhecimento de que mulheres ainda enfrentam barreiras na indústria da música e, desde então, tem buscado ampliar visibilidade, oportunidades e crescimento para artistas em diferentes estágios da carreira — de novos talentos a nomes já consagrados.
Em 2026, o programa completa cinco anos e ganha novas ativações na América Latina, incluindo a realização do EQUAL Day em diferentes países e o lançamento de projetos especiais com artistas da região. No Brasil, a iniciativa reúne nomes que ajudam a traduzir esse movimento em diferentes gerações e linguagens — de Alcione e Maria Bethânia a vozes mais recentes como AJULIACOSTA, Julia Mestre e Mannda Lynn, além de criadoras como Marcela Ceribelli, Natália Sousa e Ellora Haonne.
Nos últimos cinco anos, mais de 45 artistas brasileiras foram apoiadas, somando mais de 37 bilhões de streams programados. Só nos últimos seis meses, uma playlist dedicada a mulheres gerou mais de 182 mil descobertas — ou seja, primeiras escutas de artistas por novos ouvintes.
Quando mulheres decidem, outras mulheres aparecem
A presença feminina em posições de liderança também altera a lógica interna das empresas — e, consequentemente, o que chega ao público. "Quando tem mulheres na liderança, surgem mais oportunidades para mulheres", afirma Carolina.
Esse movimento se reflete tanto na escolha de artistas quanto na forma de gestão. Segundo ela, há uma tendência a modelos mais atentos a diversidade e inclusão, o que impacta diretamente a cadeia criativa. Hoje, mais da metade do quadro de funcionários do Spotify no Brasil é composto por mulheres — um dado ainda pouco comum no setor e que ajuda a explicar por que essas mudanças vêm ganhando escala.
O papel do público — e das novas gerações
Se a indústria se movimenta, o público também tem puxado essa transformação. No Brasil, o consumo de artistas mulheres é fortemente impulsionado pelas gerações mais jovens: pessoas com menos de 30 anos representam cerca de metade desse consumo. Mais do que ouvir, esse público também se conecta com discurso, posicionamento e identidade. "Os jovens não escutam só pela música. Tem a ver com como aquela artista se posiciona", diz Carolina. Esse engajamento cria um ciclo: mais consumo gera mais visibilidade, que gera mais espaço e, por consequência, mais produção.
Nos podcasts, essa transformação ganha uma camada extra: a criação de comunidade. Segundo Camila, muitas criadoras têm apostado em uma comunicação mais aberta e vulnerável — o que fortalece o vínculo com a audiência. "Elas criam uma conexão e uma intimidade que vira comunidade", afirma.
Esse vínculo ultrapassa o ambiente digital. Eventos ao vivo lotados, fãs que se encontram presencialmente e relações que se estendem para fora das plataformas mostram que o consumo deixou de ser passivo.
Na música, o movimento se espelha nas letras e narrativas. Cada vez mais, artistas mulheres falam abertamente sobre temas como sexualidade, vulnerabilidade e autonomia — criando identificação e ampliando o alcance de suas mensagens. "É um ciclo: escuta mais, empodera mais, fala mais", resume Carolina.
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