6 mulheres que estão redefinindo a música eletrônica (e você precisa conhecer)
De diferentes países, trajetórias e sonoridades, essas DJs e produtoras ajudam a redesenhar a cena eletrônica ao ocupar a cabine, criar seus próprios caminhos e ampliar o debate sobre gênero na indústria
Por muito tempo, a música eletrônica foi um território majoritariamente masculino — das cabines aos bastidores, dos line-ups às decisões de curadoria. Mas essa configuração vem mudando, ainda que de forma gradual.
Nos últimos anos, mulheres têm ocupado esses espaços com mais visibilidade, trazendo não apenas novas narrativas, mas também questionando estruturas que historicamente limitaram sua presença. Em comum, elas compartilham trajetórias marcadas por descoberta, persistência e, muitas vezes, pela necessidade de se afirmar em um ambiente que ainda exige mais delas.
A Glamour reuniu seis nomes que ajudam a entender esse movimento e entrevistamos cada uma delas. Confira mais sobre esses perfis abaixo:
Nascida na Dinamarca e criada entre diferentes culturas, Ashibah construiu uma carreira internacional que atravessa a música eletrônica, o pop e o indie, com sets e produções marcados por uma abordagem sensorial e narrativa. Sua relação com a música começou de forma quase intuitiva, em um momento que ela descreve como transformador. "Foi no Egito, no deserto, em uma rave. Nunca vou esquecer. Havia algo tão livre e irreal — a música, o espaço, a forma como todos se sentiam conectados sem dizer nada", relembra.
Desde então, a artista passou a buscar justamente essa sensação em seu trabalho. Mas, como muitas mulheres na indústria, enfrentou desafios para se firmar. "Ser levada a sério sem precisar se provar duas vezes ainda é um desafio. Existe uma pressão silenciosa de justificar o seu lugar", diz. Ao longo dos anos, encontrou na própria voz seu principal eixo de sustentação. "Aprendi a confiar mais nisso do que em qualquer outra coisa."
Um dos nomes brasileiros mais consolidados da cena techno global, ANNA cresceu cercada pela música eletrônica. Filha de donos de clubes, passou a infância entre pistas e lojas de discos, desenvolvendo desde cedo uma escuta atenta e curiosa. "Algumas das minhas primeiras memórias são de ir com meu pai a lojas de discos, passar horas ouvindo lançamentos", conta.
A transição para a cabine aconteceu ainda na adolescência, quase de forma natural. "Eu sentia que faltava algo na música que estava sendo tocada. Meu pai sugeriu que eu fosse lá e tocasse. Em poucas semanas, estava fazendo meu primeiro set." Se, no início, ser mulher chegou a ser um diferencial em uma cena ainda pouco diversa, ela reconhece que a realidade é mais complexa. "Existe uma pressão constante de provar que você está ali pelo seu trabalho, não pela aparência. Ser mulher ainda significa estar mais exposta, mais vulnerável", afirma. Para ela, a mudança passa por ocupar esses espaços com mais consciência e autenticidade.
DJ e produtora brasileira, Curol teve seu primeiro contato com a música eletrônica ainda na adolescência, em um momento que marcou sua trajetória. "Eu tinha 13 anos quando vi o set do Fatboy Slim em Brighton. Aquela multidão na praia, vivendo a música de um jeito tão intenso, me impressionou demais", lembra.
A partir daí, começou a explorar sonoridades que misturavam eletrônico e instrumentos orgânicos, influência que carrega até hoje. No dia a dia da profissão, no entanto, ainda enfrenta situações que revelam desigualdades persistentes. "O preconceito muitas vezes não é explícito, mas aparece em pequenas situações. Já tive orientações técnicas ignoradas até que um homem repetisse a mesma coisa", conta. Para ela, a presença feminina é parte da mudança. "Quanto mais mulheres estiverem na cena, mais natural e respeitado isso vai se tornar."
Figura central da cena eletrônica brasileira, Eli Iwasa construiu sua trajetória a partir de referências que vão do synthpop ao house, passando por experiências marcantes na noite paulistana dos anos 1990. "Minha primeira experiência clubber foi no Massivo, um reduto LGBTQI+ em São Paulo. Foi um caminho sem volta", relembra.
Com décadas de carreira, ela observa avanços, mas também aponta desigualdades estruturais. "Ser mulher já te coloca em desvantagem desde o começo. Hoje vemos mais protagonismo feminino, mas a diferença de oportunidades, cachês e tratamento ainda é gritante", afirma. Para Eli, a transformação real depende de mudanças mais profundas. "Quando mulheres ocupam posições de decisão, a curadoria se torna mais inclusiva — e isso impacta toda a cena."
Diretamente de Joanesburgo, na África do Sul, Desiree construiu uma identidade sonora que mistura influências globais com suas raízes africanas. Antes da música, foi a moda que abriu esse caminho. "Eu era obcecada por desfiles. A forma como a música amplificava a energia me puxou para esse universo", conta. Referências como Thom Yorke e Nick Cave ajudaram a moldar sua visão de que o som também é uma experiência visual.
Hoje, além da carreira como DJ, ela também comanda a própria festa e selo, o MMiNO — que acontece em São Paulo, no Edifício Martinelli, nesta quinta-feira (30) — consolidando uma atuação que vai além da cabine. Para ela, um dos estigmas da indústria pode, inclusive, se tornar potência. "O que chamam de desafio, eu vejo como vantagem: ser subestimada. Quando as pessoas não esperam profundidade de você e você entrega, aquele momento é todo seu", diz. "Eu parei de esperar as condições ideais e comecei a construir as minhas."
Nome em ascensão na cena brasileira, Analu desenvolveu sua relação com a música eletrônica a partir da curiosidade. "Eu ouvia remixes na rádio quando era criança e ficava intrigada: por que mudar a música?", lembra. Foi na adolescência, frequentando festas, que esse interesse se transformou em paixão. "Me encantei por esse flerte do hedonismo com a pista de dança."
Apesar dos avanços, ela aponta a misoginia como um dos principais entraves da indústria. "Mesmo quando velada, ela ainda está presente. É um ambiente majoritariamente masculino, o que torna a noite mais hostil para quem não se encaixa nesse padrão", afirma. Para Analu, o problema se estende também à produção musical. "Existe muito gatekeeping. Muitas mulheres nem sabem que podem produzir música com um computador. Isso também é reflexo de como somos socializadas", diz.









