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Para Gabz, crescer nunca foi um ponto de chegada, mas uma sequência de travessias. Ao olhar para a própria trajetória, a atriz fala de ciclos que se abrem e se transformam ao longo do tempo. "Eu acho que eu continuo vivendo, né? Na nossa trajetória de vida, a gente tem que continuar com esse olhar de Alice, que é essa curiosidade para ir além", conta em papo exclusivo com a Glamour.

Essa reflexão atravessa também seu novo trabalho: a narração do audiolivro Alice Através do Espelho, produzido pela Audible. No projeto, ela retorna ao universo criado por Lewis Carroll a partir de uma personagem que amadurece ao longo da história. "Ver a Alice atravessar o tabuleiro para se tornar uma rainha, para se tornar uma mulher poderosa, é uma forma de retratar o amadurecimento dessa personagem tão curiosa, tão carismática, e que tem esse olhar que crianças têm para o mundo: de querer conhecer", afirma.

A atriz propõe uma leitura que aproxima a personagem de sua própria história, marcada por deslocamentos físicos e simbólicos. "Eu me identifico muito com essa busca, porque essa é a história da minha vida. Eu vim de Irajá e passei a minha vida inteira estudando no Tablado, que é na Zona Sul, do outro lado. Então, atravessava a cidade."

Gabz — Foto: Fotografia: Angelo Pontes (@angelopontess); Ass. de Fotografia: João Falcão (@falcao.ft); Styling: Suzuh (@suzuh)
Gabz — Foto: Fotografia: Angelo Pontes (@angelopontess); Ass. de Fotografia: João Falcão (@falcao.ft); Styling: Suzuh (@suzuh)

Essa fase da Alice é a que mais conversa comigo. Eu sou apaixonada pela personagem, e acho muito certeiro a gente ter tido a proposta de pensar a Alice na perspectiva do eu-lírico da Gabz. A gente pensou como se fosse uma Gabz/Alice narrando. Porque a minha trajetória e a trajetória de diversas meninas como eu — que ascendem socialmente, que vêm da margem e atravessam a cidade, atravessam as perspectivas e as expectativas que têm sobre o nosso corpo — rumo a realizar seus sonhos. Na verdade, rumo a qualquer coisa que você associa a ser uma rainha, né? Porque ser uma rainha, efetivamente, é você conseguir suceder dentro da sua trajetória.

No áudio, esse processo ganha novas camadas. Sem o apoio da imagem, a construção da narrativa passa inteiramente pela voz, o que permite explorar diferentes registros e intensidades. "Eu sinto que a voz, e apenas a voz, ela dá uma liberdade para a gente para ir em outros lugares da interpretação."

A adaptação também busca atualizar o clássico ao tensionar tempos e linguagens. Para Gabz, revisitar a história a partir de diferentes perspectivas amplia seu alcance. "Ela ainda mostra como a nossa sociedade é pautada, mostra os nossos desejos e nossos medos. Então é uma história que, cada vez se expande mais e não se perde no tempo."

Essa releitura se estende ao ensaio visual que acompanha o lançamento, realizado em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. "Foi mágico, foi incrível! Foi um dia muito importante da minha vida, um dia muito emocionante", conta. "Eu vi uma equipe muito bonita, muito diversa, muito apaixonada e muito horizontal fazendo arte."

Gabz — Foto: Fotografia: Angelo Pontes (@angelopontess); Ass. de Fotografia: João Falcão (@falcao.ft); Styling: Suzuh (@suzuh)
Gabz — Foto: Fotografia: Angelo Pontes (@angelopontess); Ass. de Fotografia: João Falcão (@falcao.ft); Styling: Suzuh (@suzuh)

A seguir, confira a entrevista com Gabz na íntegra:

Você já deu voz a todos os personagens de Alice no País das Maravilhas. O que muda, para você, ao voltar a esse universo agora como uma Alice que se torna rainha?

Eu acho essa Alice mais amadurecida, com reflexões mais amadurecidas. O primeiro audiolivro da Alice também tem muita reflexão com a realidade, com o status quo, com a sociedade, política, filosofia, com a busca de si mesmo e de como lidar com o externo. E essa obra, em especial, é uma saga extremamente filosófica de como a gente se entende dentro do mundo e dentro das divisões sociais que o mundo coloca a gente. Então, ver a Alice atravessar o tabuleiro para se tornar uma rainha, para se tornar uma mulher poderosa, é uma forma de retratar o amadurecimento dessa personagem tão curiosa, tão carismática e que tem esse olhar que crianças têm para o mundo: de querer conhecer. O que mudou, para mim, foi pensar nesse amadurecimento da Alice junto com o meu próprio amadurecimento. Porque a trajetória dela obriga ela a amadurecer: o poder obriga a gente a ter um amadurecimento. Desta vez, temos uma Alice com um olhar ainda sonhador, mas um pouco mais adulto sobre o mundo.

Tem algo nessa nova fase da Alice que conversa mais com quem você é hoje?

Essa fase da Alice é a que mais conversa comigo. Eu sou apaixonada pela personagem e acho muito certeiro a gente ter tido a proposta de pensar a Alice na perspectiva do eu lírico da Gabz. A gente pensou como se fosse uma Gabz/Alice narrando. Porque a minha trajetória e a trajetória de diversas meninas como eu — que ascendem socialmente, que vêm da margem e atravessam a cidade, atravessam as perspectivas e as expectativas que existem sobre o nosso corpo — vão rumo à realização dos seus sonhos. Na verdade, rumo a qualquer coisa que você associa a ser uma rainha, né? Porque ser uma rainha, efetivamente, é você conseguir suceder dentro da sua trajetória. É isso que o livro — e agora o audiolivro da Audible — nos mostra. Eu me identifico muito com essa busca, porque essa é a história da minha vida. Eu vim de Irajá e passei a minha vida inteira estudando no Tablado, que é na Zona Sul, do outro lado. Então, atravessava a cidade. Eu estou, desde os meus seis anos de idade, nessa busca, nesse atravessamento no tabuleiro, encontrando muitas rainhas más, muitas rainhas brancas e encontrando muitos personagens com os quais me identifico na minha trajetória rumo a esse amadurecimento, rumo a encontrar onde está o meu poder dentro dessa sociedade.

O que mais te interessa nessa história que faz você querer revisitá-la?

O que mais me interessa na história da Alice é a gente poder cravar que essa reflexão filosófica consegue ser ainda mais aprofundada quando a gente pensa nela em diferentes corpos. A gente consegue associar a trajetória da Alice com a de qualquer pessoa, qualquer um de nós, seja criança, seja adulto. Só que ela vai ter significados diferentes para diferentes idades, diferentes fases da vida e também para diferentes pessoas de diferentes corpos. Então, essa provocação de me ter ali como Alice é justamente sobre como essa história sempre tem mais a dizer, tem mais metáforas a apontar, mesmo sendo uma história escrita há muitos anos. Ela ainda mostra como a nossa sociedade é pautada, mostra os nossos desejos e nossos medos. Então, é uma história que, cada vez, se expande mais e não se perde no tempo — é sempre relevante.

Narrar um clássico como esse exige um trabalho muito específico de voz e interpretação. Como você constrói tantas camadas apenas pelo áudio?

Eu tive uma equipe muito maravilhosa junto comigo e a gente teve um trabalho criativo muito horizontal. A Audible tem essa relação muito horizontal com a gente. Ficamos pensando o que construir, o que agregar dentro dessa história já tão clássica e que já mexe tanto com o coração das pessoas. Eu tive um trabalho específico de voz no sentido de estar ali na rotina do dia a dia, mas também esse trabalho de construção de interpretação através da voz é um trabalho que muito me encanta. Eu fiz dublagem quando era bem nova, nessa minha trajetória de ir atravessando a cidade, como mencionei antes. Eu sinto que a voz, e apenas a voz, dá uma liberdade para a gente ir a outros lugares da interpretação. Na televisão, no audiovisual, hoje em dia, a grande maioria das obras é filha do naturalismo. E, com obras como essa, a gente teve a liberdade de ir para um lugar naturalista, mas também para um lugar surrealista em diversos momentos, ter uma voz um pouco mais forte, mudar a tonalidade, brincar com isso. E eu acho que isso conta muita coisa e me fez aprender muito. Fiquei apaixonada.

O áudio tem um poder muito particular de imaginação. O que você acha que essa versão desperta de diferente no público?

Acho que essa versão nos convida a pensar uma outra Alice, uma outra camada da sociedade também. Porque uma coisa que a gente fez... O livro do Lewis Carroll tem uma linguagem que não é necessariamente contemporânea, e a gente tentou, na prosódia — sempre respeitando exatamente o que está escrito, mas tentando trazer outras nuances para alguns personagens — fazer essa brincadeira com o tempo espiralado. Com essa linguagem rebuscada da época do livro original e também trazer algumas características de desenho de música, de voz, que possam ser minha contribuição e que são atuais. Dentro dessa minha perspectiva periférica, que eu possa trazer dentro da minha visão de mundo. Então, eu acho que a gente vai conseguir expandir ainda mais a história da Alice e expandir esse imaginário que a gente tem sobre ela.

Tem uma ideia de transformação muito forte nesse projeto, quase como um espelho que antecipa quem ela se torna. Em que momentos da sua vida você sente que também viveu esse tipo de virada?

Eu acho que eu continuo vivendo, né? Eu vivi a primeira vez muito novinha, lá atrás, com meus 12 anos, quando eu decidi que queria fazer Hip Hop, queria ser uma agitadora cultural e não queria, necessariamente, estar na televisão naquele momento. Depois, eu tive novamente aos meus 17, quando comecei a fazer poesia de slam e encontrei o Hip Hop na minha vida. Tive novamente quando fiz uma novela das nove e estou tendo novamente agora, com meus 27 anos, fazendo mais uma personagem na TV, vendo qual rumo vou tomar dentro de uma arte tão vasta que eu carrego comigo e que eu quero fazer para o mundo. Eu sinto que esse espelho — e isso que eu acho muito interessante da gente ter esse amadurecimento da Alice — é mostrar que a aventura, a trajetória, ela não para, ela não se finda. A gente tem vários pontos de amadurecimento, vários turning points. Na nossa trajetória de vida, a gente tem que continuar com esse olhar de Alice, que é essa curiosidade para ir além. Então, eu continuo vivendo a minha aventura através do espelho.

Como foi trazer essa personagem para um cenário como Santa Teresa, com toda a carga estética e cultural do Rio?

Foi mágico, foi incrível! Foi um dia muito importante da minha vida, um dia muito emocionante. Eu vi uma equipe muito bonita, muito diversa, muito apaixonada, muito horizontal fazendo arte. Para mim, isso também foi um momento através do espelho, porque tudo o que eu faço é para isso: para conseguir ver pessoas diversas nesse mundo. Eu vi diversas mulheres negras, vi diversas mulheres periféricas trabalhando criativamente. Eu acho que a gente poder ter a possibilidade de uma arte diversa, inclusiva, onde está todo mundo trabalhando, todo mundo feliz, todo mundo digno, isso é um dos pontos importantes para a minha vida agora. E ter isso em Santa Teresa, que tem uma história muito forte com a cultura do Rio de Janeiro... A gente queria mesmo trazer essa Alice carioca, com esse olhar de sonho nesse lugar. E esse lugar me toca muito, porque eu sou uma pessoa que veio das rodas de rima. Meu olhar de curiosidade de Alice começou muito por ali.

Você sente que a moda, nesse ensaio, funciona quase como uma extensão da narrativa?

Com certeza, a moda nesse trabalho funciona como uma extensão narrativa, porque a gente colocou elementos muito fortes. A gente trouxe elementos da moda brasileira, da moda suburbana. Então, a gente tem muitos lugares para trabalhar a moda periférica, trouxemos muitas referências, trabalho de renda, mistura de texturas, diversos elementos que vêm do nosso imaginário desde que a gente é criança. A roupa está contando história por si só, desde essa Alice sonhadora até essa rainha poderosa que a gente está representando ali.

Gabz — Foto: Fotografia: Angelo Pontes (@angelopontess); Ass. de Fotografia: João Falcão (@falcao.ft); Styling: Suzuh (@suzuh)
Gabz — Foto: Fotografia: Angelo Pontes (@angelopontess); Ass. de Fotografia: João Falcão (@falcao.ft); Styling: Suzuh (@suzuh)

Existe algo nessa ideia de realeza que você quis subverter ou ressignificar?

Eu acho que o meu próprio corpo é a subversão ali. A gente trouxe esses elementos estéticos para subverter essa ideia do que é uma realeza comum. Eu quis trazer uma realeza mais debochada, mais vitoriosa do que uma autoridade. A gente pensa numa rainha como trajetória pessoal. Esse lugar de autoconfiança, de autodeterminação e de orgulho dos elementos que compõem a minha trajetória já é uma subversão. Acho que uma das subversões foi trazer a alegria e a delicadeza como norte para essa realeza — a inclusão, e não a exclusão.

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