Médica (Ginecologia/Obstetrícia/Sexualidade) Genital Influencer, CEO e fundadora da @magix.portal
Seu corpo muda, e o seu prazer também!
Marcela Mc Gowan, nossa colunista de sexo, convida você a abandonar o ideal do prazer linear e abraçar a sexualidade real
A narrativa dominante sobre a sexualidade feminina ainda é presa em uma ideia juvenil, linear e quase estática. O assunto é encarado como se fôssemos sentir prazer da mesma forma dos 18 aos 60 anos, como se nossa libido não tivesse ciclos, fases, pausas, e até renascimentos. Isso faz com que muitas mulheres adultas, que mesmo informadas e maduras, se sintam frustradas, desconectadas ou até culpadas por não desejarem o que ou como já desejaram um dia, por não conseguirem se excitar de formas que antes funcionavam, ou ainda por precisarem revisitar e até reinventar essas fontes de excitação. É aí que mais uma vez a culpa nos alcança, e muitas mulheres se questionam se têm algum problema, algo de errado com elas, quando na verdade, só não nos prepararam para a realidade. Nosso corpo vai mudar, e o nosso prazer, também.
Ao longo da vida, passamos por uma série de mudanças hormonais, fisiológicas, emocionais e relacionais que afetam diretamente a nossa sexualidade. Só que a maioria dessas transformações acontece sem que a gente tenha ferramentas para compreendê-las, acolhê-las, ou até ressignificar quando preciso. A ideia que internalizamos sobre sexo, está ligada a uma imagem de corpo jovem, dentro do padrão estético, que sente desejo espontâneo o tempo todo. É assim nos filmes, nos romances e nas novelas. Isso nos dá a falsa ideia de que só é merecedora de prazer, uma mulher que se encaixa nesses pré-requisitos, que não correspondem a realidade de quase ninguém, pelo menos não o tempo todo.
A autoestima junto com as mudanças de fases de vida, são dois fatores de grande impacto na libido das mulheres. Vivemos em um mundo onde nossa autoestima é constantemente ameaçada. Somos expostas a imagens e comparações o tempo todo, isso acaba levando a maioria das mulheres a terem questões em relação a sua aparência. Quando essa imagem que temos de nós mesma está fragilizada, seja pelo peso das comparações, pelas mudanças do corpo ao longo do tempo, pelas cobranças estéticas ou por experiências de desvalorização o nosso desejo sexual tende a ser diretamente afetado. Isso acontece porque o desejo não nasce apenas da excitação física, mas fatores como a sensação de ser desejável, de estar confortável na própria pele, de sentir que se tem “direito ao prazer” contam muito. Quando nos enxergamos apenas com um olhar crítico, aquele que está o tempo todo buscando por defeitos, ou quando estamos vergonha do próprio corpo, fica difícil apreciar ou se entregar confortavelmente aos toques, às fantasias ou ao sexo em si. Costumo dizer que não dá para gozar preocupada com a celulite do bumbum. Em resumo, um corpo que não é olhado com carinho dificilmente será um corpo disponível para o prazer.
Se no dia a dia já é complicado, esse desafio em relação a autoestima, se intensifica milhares de vezes em algumas fases da vida. Um dos principais exemplos é durante gravidez. Esse é um dos períodos que mais gera muita confusão em relação a sexualidade. Algumas mulheres até apresentam inicialmente um aumento da libido, mas em geral, o que percebemos nessa fase é esse desejo sendo prejudicado pelas alterações hormonais, mudanças corporais e também pelo entendimento desse novo papel social, o de mãe, que muitas vezes é lido socialmente como uma figura de pureza, que não deve ou não pode expressar seus desejos. O puerpério, consegue ser ainda mais desafiador, estudos mostram que até 80% das mulheres apresenta alguma dificuldade sexual nessa fase, incluindo queixas de pouco desejo, desconfortos e até mesmo dor. Aqui os fatos que já atrapalham durante a gravidez, ficam ainda mais evidentes. A maioria das mulheres encontra-se insatisfeita com o esse novo corpo, esgotadas fisicamente, sobrecarregadas, com oscilações hormonais, sem autonomia, e tentando se entender nesse novo papel.
Nessas fases, a sexualidade pede socorro. Na maioria das vezes, ninguém nos contou que isso era esperado. Sem conseguir entender todo esse cenário, e a normalidade dessas transformações, muitas mulheres se frustram e até desesperam por não estarem conectadas com seus corpos, com seus desejos, com seu prazer. Elas se culpam, e acreditam que tem algum grande problema, ou que o relacionamento chegou ao fim, por não conseguirem sentir “o que sentiam antes”. Quando, na verdade, esse antes não existe mais, foram muitas transformações, e com elas é natural que a sexualidade se transforme, que precise ser redescoberta.
O mesmo vai acontecer com o envelhecimento. Com o passar dos anos, a queda dos níveis de estrogênio e testosterona, especialmente no climatério e menopausa, também pode afetar diretamente a resposta sexual. Muitas coisas mudam em nossos corpos, a lubrificação, a sensibilidade, a facilidade ao orgasmo, a própria aparência da vulva. Mas nada disso significa o fim do prazer, apenas que ele precisa de ajustes. Talvez agora seu corpo precise de mais tempo, mais estímulo ou até de novas descobertas. Inclusive, algumas mulheres descobrem, aos 40, um tipo de prazer que nunca haviam experimentado aos 20, com a maturidade e a experiencia, coisas boas podem surgir. O corpo amadurece, mas isso não significa que ele perde potência, significa que ele se torna mais exigente, que respeita mais seus limites, que tem novas necessidades.
É importante romper com essa expectativa linear sobre a sexualidade, parar de acreditar que sua versão de 20 anos, será a mesma o tempo todo. Ou hierarquizar, colocar essa versão mais jovem como o ideal, e passar o resto da vida se culpabilizando ou desejando ser o que já foi. Pensamentos como esse, nos afastam de uma sexualidade real, possível e prazerosa. Nenhuma versão de nós vai existir para sempre, e isso vai sempre impactar no nosso emocional e também na nossa sexualidade. Trabalhar a nossa autoestima, passa por compreender e aceitar isso.
Já é difícil se sentir bonita e desejável em um mundo que fica o tempo todo plantando inseguranças e gerando comparações, então nosso movimento pessoal precisa ser o contrário. Não o de comparar, mas o de aceitar, não o de criticar, mas o de acolher, e principalmente não o de se prender a expectativas irreais, mas o de abraçar a realidade. A vida muda. O corpo muda. O toque muda, a masturbação muda, o ritmo muda, o que dava certo as vezes deixa de funcionar e o que nunca funcionou, começa a fazer sentido. E novamente, isso é completamente natural. A chave aqui não vai ser buscar voltar a ser como antes, mas abrir espaço para se descobrir de novo.
Marcela Mc Gowan
Canal da Glamour
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