Maria Luiza Jobim é capa da Glamour de setembro
Difícil não lembrar da voz doce pela qual se derreteu Tom Jobim em "O Samba de Maria Luiza". Hoje, aos 37 anos, a mesma menina do cabelo amarelo brilha em luz própria e mostra que tem muito a contribuir para a música brasileira, pudera. Maria Luiza Jobim é parte pulsante da realeza da MPB.
Em Antonio Brasileiro, último álbum de Tom Jobim, além das colaborações vocais com Sting e Dorival Caymmi, um nome bem familiar aparece nos créditos da obra vencedora do Grammy de Melhor Performance de Jazz Latino em 1995, Maria Luiza Jobim. À época aos 6 anos, a filha caçula do maestro entrou no estúdio se sentindo em casa – e a atmosfera do local de fato remetia a onde viviam no Rio de Janeiro: música sempre presente, entra e sai de artistas e papai ao piano. Marilu, dos olhos cor de chuchu, conhecia como ninguém a rotina criativa da família e encontrava graça nas mudanças pelo mundo – do Rio a Nova York. "Me sinto em casa em vários lugares", conta à Glamour.
Se do pai herdou a intimidade com as notas e os instrumentos, da mãe, a fotógrafa Ana Lontra Jobim, ganhou a força e o acolhimento para lidar com grandes perdas desde muito cedo na vida. Ela tinha apenas 7 anos quando Tom Jobim morreu e, depois, aos 11, perdeu o irmão, João Francisco, em um acidente de carro. "Fiquei contida e sem espaço pelo tanto que me aconteceu", reflete. Na terapia, que faz desde pequena, aprendeu a se conectar consigo mesma e a entender o que queria para si. "A vontade que tenho hoje vem daí, dessa consciência de saber que tive que cavar meu espaço até na minha própria vida."
Enquanto a música como arte sempre existiu para Maria Luiza, o ofício não veio da mesma forma natural, pelo contrário, foram anos de estudos e projetos em diferentes áreas até que ela aceitasse o seu destino. A garota de sobrenome Jobim fez arquitetura e até arriscou- se jovem na música, porém na vertente eletrônica, no duo Opala, com Lucas de Paiva. De novo, a análise a ajudou a desvendar a grande árvore frondosa, como carinhosamente se refere a seu pai, e lhe deu segurança para transitar pela obra dele. "Minha profissão me dá esse espaço no mundo e em mim também. Ele é a minha origem, não me preocupo mais com essa mimese."
Em seus dois álbuns de estúdio – Casa Branca (2019) e Azul (2023) –, a cantora e compositora trabalha timidamente com a obra de Tom. Há também um afago à memória dele em "Papais", música em parceria com Adriana Calcanhotto que traz vocais de Antonia Jobim, sua filha de 6 anos, dando continuidade à tradição da família.
Em preparação ao centenário do pai, em 2027, Maria Luiza lança neste mês um novo single em colaboração com Mahmundi, que será uma releitura da dupla para o clássico "Insensatez". "A Marcela é uma artista multitalentosa, tem um timbre e uma intenção tão bonitos... A experiência marcou", empolga. Na entrevista a seguir, ela fala da origem, do que aprendeu adulta para acolher a criança que foi e de como a maternidade a ajudou a perpetuar um amor que atravessa gerações.
Capas 2024:
- Agatha Moreira é capa da Glamour de outubro
- Luísa Sonza, Agnes Nunes e Maria Luiza Jobim estrelam as capas da Glamour de setembro
- Rafaela Azevedo é capa da Glamour de agosto
- Jéssica Ellen é capa da Glamour de julho
- Sasha Meneghel é capa da Glamour de junho
- Iza, Alice Wegmann e Maisa estrelam as capas da Glamour de maio
- Bella Campos é a capa de abril da Glamour
- Kenya Sade é a estrela da capa da Glamour de março
- Klara Castanho é a capa de fevereiro da Glamour
- Manu Gavassi é a capa da Glamour de janeiro
Na época do lançamento de Azul, seu segundo álbum, você disse que Casa Branca era sobre sua origem, enquanto Azul era seu presente. Agora, um ano depois, o que você enxerga para seu futuro?
Eu não penso muito sobre o futuro. Acho que ele é feito do presente, então tento me presentificar ao máximo. O que tenho, então, é um desejo bem grande de trabalhar a obra do meu pai. E acho que o abre-alas disso é uma canção que vou lançar com a Mahmundi, uma versão que a gente fez de "Insensatez", uma música dele que está no inconsciente afetivo de todos nós brasileiros. No início da minha carreira, eu tinha um projeto de música eletrônica, e a Mahmundi fez uma música com a gente na época. Corta para 15 anos depois, nos encontramos na casa de amigos e tanta coisa aconteceu musicalmente. Tocamos várias músicas e, entre elas, "Insensatez". Nunca tínhamos tocado uma música de bossa juntas, muito menos uma música do meu pai. Eu tinha uma relação de não poder chegar perto da obra dele, de ser intocável. A Marcela é uma artista multitalentosa, a experiência me marcou. Ali, já sabíamos que era uma manifestação do que a gente queria.
Você diz que por muito tempo a obra do seu pai foi intocável para você. Agora, decidiu mexer nesses trabalhos. Como se deu essa evolução?
Minha relação com o meu pai já passeou por muitos lugares... Quando comecei com a música eletrônica, fui no movimento de me descolar completamente dele, e acho que era um movimento saudável, inclusive para conseguir me discernir dessa árvore frondosa que ele era. Depois, aos poucos, fui fazendo as pazes, me sentindo segura para transitar e tocar na obra dele. O centenário é em 2027 e, conforme essa data se aproxima, tenho me aproximado dele também. Me sinto cada vez mais livre. O meu trabalho esbarra no dele, porque é de onde eu vim, ele é a minha origem. Muitas músicas que toco no show ou que já gravei são faixas que eu tenho uma relação íntima, são minhas também. Eu tinha medo de ficar uma coisa mimética, de estar reproduzindo alguma coisa dele. Agora, me sinto inteira e segura o suficiente para encostar naquilo que é sagrado.
Era esse medo de mimetizar a obra dele que te impedia de trabalhar com ela?
Duas coisas importantes me afastavam da música do meu pai. Primeiro, sempre tive muito respeito e busquei entender quem era ele no mundo, o que ele representava para as pessoas. Quando fui ficando mais velha, entendi a dimensão do trabalho dele e como a música, quando sai da casa do compositor, vai para o mundo e passa a pertencer aos outros. É uma responsabilidade grande, tenho que ter cuidado. Sempre pensei: 'Peraí, isso não é meu, é de todo mundo'. Além disso, tem a coisa de eu não querer reproduzir e de, ideológica e filosoficamente, tinha muito medo de não ter espaço para mim dentro de mim mesma.
Em que momento percebeu o tamanho do que ele representava para tanta gente?
Foram vários, até hoje está caindo a ficha. São situações que me encontro e alguém me aborda e conta uma história, é sempre muito único e engrandecedor. Mas eu lembro de uma situação específica, eu era criança e a gente foi ver Jurassic Park no cinema. Tinha essa coisa de ele ser reconhecido e eu não gostava. Aí nesse dia lembro claramente de a gente entrar no cinema e rolar uma comoção. Chamei ele num canto e falei assim: 'Pai, será que você pode tirar o seu chapéu para entrarmos?'. Porque eu associava ele ser famoso a, sei lá, as pessoas reconhecerem ele usando o chapéu. Bonitinho, ele foi e tirou.
Você sentia ciúmes do seu pai?
Que engraçado, acho que nunca me perguntaram isso, mas eu sentia sim. A gente saía para almoçar fora e, às vezes, eu ficava com ciúmes, porque estava lá na cadeirinha, e as pessoas vinham falar com ele. Mas eu era só uma criança que queria comer seu franguinho. Eu não entendia direito, queria meu pai ali só para mim.
E sente ciúmes ainda hoje? Da história dele, da memória...
Não, nem um pouco. Aquele pai que eu tinha quando eu era criança, infelizmente perdi. Nossa história foi cortada, com seu ônus e seu bônus, tudo ali maravilhoso e misturado, dores e realizações, mas foi interrompida. Paralelamente a isso, eu sou filha dessa entidade que, como a gente estava falando, é de todo mundo — e essa é a beleza da música. Eu também aprecio e admiro a obra dele, então, para mim, é um orgulho imenso.
Ser artista e trabalhar com música, apesar da sua criação, não veio de maneira óbvia para você. Como foi esse processo?
Comecei fazendo arquitetura. Acho que fui bem resistente em relação à música, porque ela sempre esteve comigo. Costumo dizer que a música não chegou para mim, ela estava lá e eu cheguei. Primeiro era num lugar de brincadeira, num lugar lúdico. Era estar com a minha família e assistir aos ensaios que rolavam na minha casa... Meu pai tocava piano e eu ficava desenhando. Depois, com a perda dele, entrou naquele lugar intocável da memória dele. Tinha esse aspecto sagrado. Eu resisti muito. Não tenho nenhum estudo formal de música, mas sempre fiz cursos desde criança, do meu jeito, mas fazia. E aí teve um momento em que a música passou a tomar conta de muita coisa dentro de mim e eu pensei: 'Cara, quem é que eu estou enganando?'. Era o que eu sabia e o que eu queria fazer.
Como é esse seu processo criativo e de negócio? Você se cobra, por exemplo, para viralizar no TikTok?
A gente tem que jogar o jogo do business. Se for um hobby, você pode fazer só o que dá na sua cabeça. Agora, a partir do momento que você está disposta a trabalhar e tornar aquilo um ofício, certas regras não dependem de você. E acho importantíssimo que cada vez mais o artista chegue perto do negócio, entenda como funciona. Minha mãe é uma pessoa altamente envolvida com os direitos autorais e todo o backstage da vida do meu pai, desde quando ela era casada com ele. Até hoje, tudo passa por ela. E eu também fui criada por essa pessoa. Então, para mim, a música é o pacote completo. Desde que não me fira, que mude meus valores ou o que penso, estou a serviço da beleza. Não importa qual seja o canal por onde a gente vai expressar isso, se for pelo TikTok, está ótimo.
Tudo na sua vida girou em torno do seu pai, mas eu queria saber como foi ser criada pela sua mãe, como é ser filha de Ana Lontra?
Na minha casa, quem estalava o dedo era ela, mandava em tudo. Foi maravilhoso ser criada por uma mulher tão forte e especial. Minha mãe é uma pessoa única. Eu sou pisciana com ascendente em Câncer, tenho um temperamento artístico, fui uma criança artista, então eu não conseguia executar muita coisa. E acho que a melhor experiência da vida é realizar, e minha mãe é uma realizadora. Por isso, também, que eles tinham um supercasamento, eles se complementavam muito. Por eu ser mulher e ela ser esse exemplo, me deu muita força.
O que você passa para a sua filha do que aprendeu com a sua mãe?
Antonia tem a personalidade parecida com a da avó. Ela tem uma autoridade dentro dela, um geniozinho... E olha que ela é Câncer com Câncer com Câncer. A gente se dá muito bem, e ela e minha mãe são muito próximas e me sinto privilegiada por ela ter uma avó tão pertinho, me ajuda nessa criação. Somos uma família de várias mulheres.
Você perdeu seu pai muito cedo, e depois seu irmão. Como foi lidar com todas essas perdas desde pequena?
Muito difícil. Eu tinha uma analista que falava assim: 'Tudo na sua vida é muito espetaculoso.' E é. Nasci filha do meu pai, aí o perdi aos 7 anos. Depois, perdi meu irmão de uma forma violenta logo aos 11. Foram acontecimentos bem cedo na vida, e essa fala da minha analista me fez entender que fiquei contida e sem espaço pelo tanto que me aconteceu, fui espectadora da minha vida desde muito nova. Acho que a força e a vontade que tenho vêm daí, dessa consciência de saber que eu tive que cavar o meu espaço até na minha própria vida.
Onde você se encontra, além da música?
Olha, na maternidade. Eu sou separada do pai da Antonia, minha vida gira em torno dela, mas eu busco fazer isso com consciência e respeito comigo e, portanto, com a gente. Sabendo que eu não vou suprir tudo e tentando exercer uma maternidade respeitosa com ela e também sabendo da importância de me dedicar ao meu trabalho e a mim, ao meu prazer e aos outros departamentos da minha vida.
Você traz a Antonia para esse universo da música, assim como seu pai te levou quando era pequena?
Eu tenho essa memória muito boa com meu pai, de brincar no piano, no violão, e ela é assim também. A gente divide esse universo lúdico, o que é muito gostoso. Todos os shows que posso levá-la, levo. Ela participou da última turnê que eu fiz em Portugal, foi muito fofo, roubou a cena. Ela dançava e cantava, e estreou com a música que eu fiz com a Adriana, "Papais". Nós gravamos na Cia. dos Técnicos, um estúdio incrível aqui no Rio de Janeiro, um clássico. Quando entrei, me veio um déjà-vu, pensei: 'Eu já estive aqui'. Óbvio, tinha ido com meu pai! Um senhorzinho que trabalha lá desde aquela época confirmou e fiquei toda emocionada. E aí nesse mesmo dia eu decidi que queria chamar a Antonia para viver aquilo comigo, sabe? Foi uma perpetuação desse amor que fura o tempo.
Fotos: Edgar Azevedo
Styling: Karine Vilas Boas
Direção de arte: Ste Sangi
Make: Angel Moraes, com produtos Chanel.
Set design: Bárbara Besouchet.
Direção executiva: Octavio Duarte.
Produção executiva: Patrick Ferreira.
Produção de moda: Gabriela Rézio, Giovanna Naomi, Joanna Santana, Manoela Muniz, Melina Passaglia e Paula Santiago (French Touch Consultancy).
Assistente de produção de moda: Kevin Tertuliano.
Assistente de foto: Marcio Marcolino.
Produtor de objetos: João Pedro Schiavo.
Contrarregra: Drunska.
Tratamento de imagem: Marcos Nascimento.
Camareiro: Paulo Henrique.
Agradecimentos: Sheraton Grand Rio Hotel & Resort e Acervo Pulsa Rio
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